Uma lágrima para a Livraria Campos Trindade, que fechou as portas

Uma parte no lado esquerdo do peito necrosou-se com a notícia. Como não recordar do verso do poeta maior, “A grande dor das cousas que passaram”?

Marcelo Franco

Nasci para ser dono de livraria e acabei tomando a vereda de escrever embargos e agravos. Triste é a sina dos destinos falhados, não? Creio que eu comporia um tipo à antiga, de terno escuro (com colete!), branco como os pergaminhos que venderia, eternamente sentado ao fundo da loja e entre pilhas de livros na fase de “classificação”, um cantinho de onde saudaria os amigos e teria o café — ou o conhaque, a depender do amigo — sempre pronto.

Não tendo cumprido o meu destino, transformei um apartamento num gigantesco depósito de livros. A escalada da doença foi por etapas: primeiro, os milhares de livros comuns, modernos; depois, livros autografados pelos autores; mais tarde, primeiras edições e edições especiais. Agora, já estou chegando aos documentos assinados por personalidades — o meu marcador de livros é um postal enviado por Olavo Bilac, por exemplo. Por sorte, é doença sem remissão.

É uma faina constante de cuidados e limpeza, eu já escrevi, sem contar que a fibrose pulmonar nunca deixa de estar à espreita. Vale o preço, vale cada minuto — a coisa toda é tão contagiante que até amigos acabam se viciando, um livrinho antigo aqui, outro autografado acolá. Vale também cada amigo viciado — a beleza salvará o mundo?

Costumamos ler reportagens sobre belas livrarias mundo afora; pouco, porém, se escreve sobre o conjunto de livrarias que enriquece várias cidades. Não só uma Ateneo Grand Splendid, mas, digamos, todas as livrarias de Buenos Aires, cidade com sebos magníficos. Paris, Roma, Portland (!), Washington, algumas cidadezinhas no interior da Grã-Bretanha, todas moram no canto especial do meu peito porque posso ficar dias correndo seus livreiros. A gloriosa São Sebastião do Rio de Janeiro já foi assim, antes de nos dedicarmos a matar von fúria destrutiva, na nossa mais bela cidade, o belo que nela existe. E Lisboa, pá. Além da excepcional Bertrand, há um mundo de livrarias a conhecer, de sebos tradicionais a livrarias novas e do tipo “descoladas” — nas primeiras, um paletó não destoa; nas outras, óculos escuros estilosos podem ajudar na ambientação… Perder-se nos alfarrabistas da Calçada do Combro está entre as grandes atividades que um ser humano pode praticar nesta nossa vidinha besta com que Nosso Senhor nos serviu.

Uma das grandes de Lisboa, gerida por um dos grandes de Lisboa, deixará de existir, a Livraria Campos Trindade — fisicamente, claro, pois sobreviverá nos corações de quem soube entender que dinheiro gasto em livros é uma das riquezas desta vida, mesmo que tentem nos convencer a deitar nossos cobres em relógios e outros cacarecos inutilíssimos. Teve história longa e frutificou em fregueses e admiradores; desasnou-nos um tiquinho; iluminou um pouco das nossas trevas interiores; foi um canto de erudição e mesmo de bons modos, de gentlemanhood, num mundo que vai se enfeando.

Confesso que uma parte aqui no lado esquerdo do peito necrosou-se com esta notícia — como não nos recordamos do verso belíssimo do poeta maior, “A grande dor das cousas que passaram”?.

Marcelo Franco é crítico e, sobretudo, leitor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.