Uma história das mulheres e da arte por meio dos quadrinhos

“Artistas Brasileiras”, de Aline Lemos, tira das sombras artistas talentosas cuja existência foi obscurecida ou mesmo esquecida ao longo dos anos


Natânia A. S. Nogueira*
Especial para o Jornal Opção

Lançada em 2018, a HQ “Artistas Brasileiras”. de Aline Lemos. apresenta ao público geral um seleção de 30 mulheres que se destacaram no campo artístico, de várias regiões do País. Um projeto que busca tirar das sombras mulheres talentosas cuja existência foi obscurecida pela história ou mesmo esquecida ao longo dos anos.

Já no início da HQ, numa introdução quadrinizada, a autora tem o cuidado de  esclarecer que existem outras mulheres, tão interessantes quanto as que ela selecionou para a HQ, e que o objetivo da obra “não é apresentar todas ou as melhores artistas”, mas mostrar diversidade de mulheres que produziram arte no nosso País.

Quadrinho sobre Tarsila do Amaral | Foto: Reprodução

Artistas Brasileiras

A obra coloca as mulheres dentro da história da arte e mostra que, mesmo com todas as dificuldades impostas pela sociedade, elas conseguiram deixar sua marca. Entretanto, suas marcas foram aos poucos desaparecendo e é necessário reavivá-las. Este é um dos méritos da HQ de Alice Lemos, o de fazer um exercício de memória. 

A jovem autora nos lembra ainda que as mulheres são talentosas e não excepcionais. E qual seria a diferença?

Tirinha onde a autora usa a artista plástica Zina Aída para criticar o machismo presente na sociedade | Foto: Reprodução/Artistas Brasileiras

Durante muito tempo, a História nos apresentou as mulheres que se destacaram (e cuja presença não podia ser ocultada) em alguma área dominada pelo homens como excepcionais. Elas eram casos raros, únicos. O talento dessas mulheres era, portanto, uma anomalia, que não poderia servir de base para se julgar outras mulheres.

Mas na HQ “Artistas Brasileiras” a intenção da autora é demonstrar que havia, e há entre nós, mulheres talentosas cuja obra não é resultado apenas de uma excepcionalidade, mas de muito trabalho, dedicação, estudo e talento.

A HQ não coloca as mulheres como sendo melhores que os homens, mas tão talentosas e capazes quanto eles, com as mesmas capacidades e habilidades criativas. O mesmo talento que se encontra em um homem e que pode ser encontrado, também, em uma mulher. 

Do ponto de vista didático, a narrativa é muito bem construída e a obra pode fornecer a professores de história e artes material para trabalhar História da Arte no Brasil de uma forma leve e divertida. As biografias das autoras são curtas, chegando ao máximo a três páginas, e são acompanhadas de tiras irônicas e divertidas. A autora expõe e debocha de preconceitos machistas usando de ironia e muito humor.

Aline Lemos, em muitos momentos, lembra o estilo de narrativa da quadrinista sueca Liv Strömquist, que publicou no Brasil a HQ “A Origem do Mundo: Uma História da Vagina ou a Vulva vs. o Patriarcado” (clique aqui para conferir uma matéria sobre esta obra). 

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Nestes quadrinhos a autora reúne quatro personagens: Anita Malfatti, Fédora do Rego, Georgina de Albuquerque e Tarsila do Amaral | Foto: Reprodução

Um quadrinho recomendado para pessoas de todas as idades e indicado para professores que procuram por um material rico e criativo sobre história da arte. Vale ainda acrescentar que a autora fez uma ampla pesquisa bibliográfica, cujas fontes estão disponíveis no livro.

*Natânia A. S. Nogueira é professora de história, pesquisadora e fã de quadrinhos

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