Um romance apenas regular

Com erotismo chulo, personagens sem densidade psicológica e narrativa construída entre idas e vindas, “O Irmão Alemão”, de Chico Buarque, é um romance fraco, longe da capacidade criativa do compositor

Chico Buarque: excesso de imagens de ficção e irrealidade narrativa Foto:Companhia das Letras

Chico Buarque: excesso de imagens de ficção e irrealidade narrativa Foto:Companhia das Letras

Salatiel Soares Correia
Especial para o Jornal Opção

Um dos parâmetros que alçam uma obra literária ao patamar de grande se centra na capacidade desta de induzir o leitor a uma gama variada de sentimentos que compõe algo fundamental que nos torna humanos: a emoção.

Só os grandes autores despertam emoções plantadas no âmago de nossa alma. Quem não se sente emocionado ao entender a profundidade metafórica que está por trás de Ulisses no poema de Homero? Neste, o guerreiro é tentado pelo aparente canto sedutor das sereias. Conta-nos Homero, em sua empolgante narrativa, que as sereias com seu canto sedutor atraíam os marinheiros para sua ilha. Quando estes chegavam lá elas, na verdade, transformavam-se em monstros, assim, devorando os marinheiros. O canto das sereias era sedutor e Ulisses — ciente de sua fraqueza — quis ouvi-lo amarrado ao mastro do navio que comandava. Para isso, ordenou que seus marinheiros tapassem seus ouvidos com cera. Dito e feito. E assim passaram incólumes pelos perigos da ilha das sereias. A beleza no poema se encontra no que está implícito: Ulisses era ciente de sua própria fraqueza. Quis escutar o canto. Quis passar pela tentação humana para dela sair mais forte. Só a narrativa de um grande escritor como Homero para nos conduzir, por meio de seus escritos, a refletir a respeito das profundezas da vida. A vida e suas várias tentações a que todos os mortais estamos submetidos durante nossa travessia por ela.

Gabriel García Márquez é outro autor de primeira grandeza. Pessoalmente, fiquei magnetizado da primeira a última página com aquele que, a meu juízo, será o livro que o tornará eterno. Falo de “O Amor nos Tempos do Cólera”. O talento de Gabo construiu uma eletrizante história de amor vivenciada por três personagens. Firmina Daza se apaixona, na juventude, por Florentino Ariza, mas se casa com o médico Juvenal Urbino. Destinos que se separam, convivem a distância e finalmente reencontram-se com a morte do marido de Firmina Daza. Amor reprimido por 50 anos, mas finalmente concretizado nos tempos do cólera.
O final do romance é emocionante: Florentino Ariza e Firmina Daza se reencontram na velhice. Florentino leva a amada para um passeio no navio que vaga por um lado e outro no rio com a bandeira do cólera. Só assim ele pode navegar, pois ninguém ousaria a pará-lo. “E até quando acredita o senhor que podemos continuar neste ir e vir do caralho?”, pergunta o comandante. “Florentino Ariza tinha a resposta preparada havia cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com as respectivas noites: — toda a vida — disse”. Era o amor que se eternizava na velhice. Era o a­mor de uma longa espera, de um gran­de desencontro que não po­dia acabar. Só um grande escritor co­mo Gabriel García Márquez pa­ra fazer nosso coração acelerar, nos­sa pele causar calafrios, nossos pés levitarem no final do romance.

Mario Vargas Llosa é outro dos meus escritores preferidos capaz de prender o leitor da primeira a última página. Fez isso no seu livro “A Festa do Bode”, romance que versa a respeito de uma das mais sanguinárias ditaduras que já se teve no continente americano, a de Rafael Trujillo, na República Dominicana. Nessa obra, Urania guarda um grande segredo. Depois de muitos anos ausente da República Dominica­na, ela volta a seu país com um rancor muito grande do pai, este já muito velho e decadente, um antigo senador, membro da corte de aduladores do ditador. Con­fesso que, em certos momentos, cheguei a ter raiva de Urânia ante a indiferença, a frieza, os maus-tratos e a repulsa velada que sentia pelo pai. Coisas de um grande escritor, incutindo em seus leitores um sentimento. No final do romance, vê-se enfim revelado o segredo de Urânia e novamente vai-se a um novo revoar de emoções dentro dos leitores. Urania tinha suas razões de odiar o pai. Em desgraça na corte de aduladores, o ditador exigiu uma prova de fidelidade do pai: que ele entregasse a filha virgem de 15 anos para uma noite de prazer. As cenas eróticas descritas pela poderosa narrativa de Llosa provocam um turbilhão de emoções nos leitores: nojo, ódio e, compaixão. Coisas que só um grande autor como o Nobel peruano consegue provocar na psique de seus leitores. São coisas como essas que fazem grande um romance, são coisas como essas que fazem de um romance uma obra-prima.

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Fiz todo esse preâmbulo para, agora, falar do novo livro lançado por Chico Buarque de Holanda: “O Irmão Alemão”. Falemos resumidamente da história para, em seguida, emitirmos nossa opinião a respeito do romance. O irmão alemão, Sérgio Ernst, é resultado do relacionamento amoroso do pai do Chico Buarque com uma alemã quando este, ainda solteiro, foi correspondente dos “Diários Associados”, na Alemanha. Nem o autor, nem sua família conheceram o meio-irmão, apesar de muitas vezes tentar encontrá-lo. A história desse romance gira em torno da procura do autor pelo meio-irmão. Irmão que Chico, por acaso, ficou sabendo da sua existência já adulto, numa conversa informal que teve com o poeta Manuel Bandeira.

O romance é todo ambientado na São Paulo dos anos 60 do século passado chegando aos dias atuais. Cons­truída entre idas e vindas, a nar­rativa não deixa de trazer certa con­fusão a quem se propõe a ler. Con­fesso que, no começo, fiquei meio zonzo com o zigue-zague da narrativa.

Outro ponto que me parece falho no romance do nosso maior compositor se relaciona à maneira estereotipada com que é construída a figura de seus pais. O pai, Sergio de Hollander, sempre distante, enfurnado, entre livros, na biblioteca e preocupado em escrever o maior livro do mundo; a mãe Assunta, uma típica “mamma” italiana voltada para os afazeres da casa e suas preocupações culinárias. No meu entender, faltou densidade psicológica a esses personagens.

Outro ponto a destacar é o erotismo. O erotismo, numa obra literária, deve ser sempre usado se inserido num propósito maior. Veja-se o exemplo de “Festa do Bode”. Nesta, Vargas Llosa usou fortes imagens eróticas no momento em que o ditador seduziu Urania, uma adolescente de 15 anos, oferecida ao bode pelo próprio pai. Com isso, o autor teve o propósito maior de denunciar até que ponto chegava a barbárie de uma ditadura.

O erotismo usado por Chico Buarque em seus escritos me parece chulo. Sem muito propósito. Não leva a lugar nenhum. Reduz-se a uma reles rivalidade sexual entre dois “comedores”. No caso, o autor e seu único e virtual irmão alemão. Digo virtual, porque, ao que tudo indica, o irmão brasileiro do romance parece ser o alter ego do irmão alemão. Ao que se soube, depois, sobre ele é que, como Chico, foi um cantor de relativo sucesso — e mulherengo (casou-se quatro vezes).

Outro ponto que me parece demasiadamente exagerado no romance é o excesso de imagens de ficção que leva a uma série de coincidências que trazem certo ar de irrealidade à narrativa.
Mas o romance tem também seus pontos positivos. É bem-escrito e com parágrafos bem-construídos, sem nada fora do lugar. A história ganha corpo da metade para o fim. A leitura do “Irmão Alemão” não me fez levitar como nas grandes obras que li. Fiquei o tempo todo com os pés no chão. Chico Buarque é, sem dúvida, o maior compositor vivo da música popular brasileira, no entanto o livro que acaba de publicar é apenas regular.

Salatiel Soares Correia é crítico literário e mestre em Planejamento Energético pela Unicamp.

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