Um réquiem à Ucrânia, ou a memória da fome no filme “Colheita Amarga”

Narrativa ambientada entre o ano da Revolução Russa, 1917, e o início da Era stalinista, mostra o horror do genocídio ucraniano levado a cabo pelo Estado soviético 

Atrizes intérpretes das camponesas ucranianas que sofreram o horror do Holodomor

Tobias Goulão
Especial para o Jornal Opção

Os antigos romanos possuíam uma punição política executada para corromper a memória daqueles que eram considerados traidores e desonravam o império: a “damnatio memoriae”, a condenação da memória. Apagava-se da vida pública a lembrança de alguém na intenção de fazer com que nunca existisse. Era um esquecimento imposto para que, dentro do sistema de vida, não mais se tocasse naquela pessoa, apagando qualquer possibilidade de ela e de seus feitos continuarem a fazer parte do mundo. Tal ato é similar ao que os regimes políticos totalitários realizam: destroem a memória de tudo o que lhes traz embaraços, que pode expor sua essência e revelar a todos o que constitui o cerne de sua ação.

A destruição da memória de um povo, de um evento, é base para se manter no poder. Impedir que inimigos políticos, que atos cometidos venham à tona, é o que melhor pode caracterizar a ação totalitária. E ninguém conseguiu manter uma condenação de memória tão benfeita quanto os comunistas soviéticos. Estes o fizeram com o genocídio cometido contra os ucranianos, a grande fome imposta pela coletivização das terras na Ucrânia, no início dos anos 1930. Evento que recebeu o nome de Holodomor – o “holocausto ucraniano” –, palavra que significa “morte por fome”.

Impedir a explicitação de seus atos é parte daquilo que manteve o comunismo soviético (e em seus países satélites) vivo durante décadas. Esconder do mundo suas ações, impedir comentários, silenciar opiniões e eliminar notícias eram suas práticas comuns. O historiador romeno, Vladimir Tismăneanu, traz em seu livro “Do Comunismo: o destino de uma religião política” (Vide Editorial, 279 páginas) uma descrição sobre aquilo que compõe esse sistema como organização social, política, cultural, econômica. Determina assim três elementos que lhe são basilares: “Em primeiro lugar, pela recusa à memória. A aversão, a hostilidade diante da memória o faz mnemófobo. Ele age, por todas as suas instituições, para a destruição da memória. Em segundo lugar, é uma organização que procura a destruição dos valores, e, neste sentido, é axiófobo. E, não em último lugar, detesta o espírito, portanto é uma organização de tipo noofóbica. Portanto, o comunismo é mnemofóbico, axiofóbico e noofóbico”.

Cartaz do filme “Colheita Amarga

A sua aversão à memória, a tentativa de agir, como outros sistemas totalitários, foi manifestada ao destruir aquilo que provava sua impossibilidade de realizar o paraíso prometido, que faz com que todas as tentativas de trazer para o grande público crimes como Holodomor sejam proveitosas. Aqui notamos um valor a ser encontrado na produção “Bitter Harvest”, no Brasil “Colheita Amarga” (Canadá, 2017), dirigida pelo alemão George Mendeluk.

A história exibida pelo longa-metragem tem início no ano de 1917, quando na pequena vila de Smila, Ucrânia, é anunciada a queda do czar pelas mãos dos revolucionários bolcheviques, o que é recebido com júbilo, pois libertava o território ucraniano do controle imperial russo. O desenvolver da narrativa mostrará como o jovem Yuri Kachaniuk cresce no que era antes o “celeiro da Europa” e vê se transformar em um grande cemitério em virtude das políticas de controle de Josef Stalin. Yuri era de uma família de guerreiros. Tanto o avô quanto o pai foram combatentes memoráveis, mas ele era dado às artes plásticas. Jovem de talento, trocou o sabre pelo pincel e viu o avanço do pensamento comunista chegar até à vila e enfeitiçar seus amigos de infância. Estes deixam a bucólica Smila e dirigem-se a Kiev, onde tudo acontece e logo se tornam grandes nomes do Partido Comunista local. Mas Yuri permanece até o último momento, pois além da ligação com a família e a vila, o sentimento que possuía, desde a infância, por Natalka faz com que comece uma via com a moça. Mas tudo é interrompido pelo avanço dos soldados do Exército Vermelho.

A expropriação das terras é uma das políticas de Stalin para controlar os ânimos ucranianos que, visando à liberdade pós-czar, agora deveriam ser subjugados ao poder soviético. Não permitir que os ânimos de emancipação política, de independência, surgissem no meio daquela nação, mas esmagar e controlar, com mãos de ferro, utilizando de qualquer método para tê-los em seu controle. Assim, em meio aos belos salões de festas e escritórios de Moscou, é ordenada a criação dos inimigos políticos baseados na vontade do partido.

Camponeses que possuíam terras e alguns animais são considerados classes contrarrevolucionárias e inimigas do Estado. A perseguição ideológica não fica apenas nisso e na figura do padre da aldeia vemos também a tentativa soviética de eliminar a religião do meio do povo. As colheitas deveriam ser entregues e, à medida que a resistência aumentava, a cobrança seguia o mesmo fluxo. Stalin exigia cada vez maiores quantidades de alimentos, e a região que foi outrora uma grande produtora começa a ver seu povo morrer de fome, largado pelas florestas e pelas ruas das cidades. Questionado pelo resultado do que estava fazendo, Stalin responde a um de seus militares com um sádico sorriso: “Quem saberá?”.

Yuri não vê outra saída a não ser deixar a esposa na vila ocupada e tentar, com seu talento, encontrar meios de receber dinheiro para enviar à sua família na vila, na esperança de que isso viesse a amenizar o sofrimento. Mas o que ele vê é apenas mais morte. A Ucrânia tornada um grande mausoléu por ventura da fome, que é geral. Apenas os membros do partido, os empregados das fábricas estatais, conseguiam uma cota e alimentos. O restante foi condenado a inanição.

“Crianças de Holodomor”, quadro de Nina Marchenko

O filme aproveita bem as cenas marcantes e transição de cores. Ao iniciar, mostra o país como uma região bucólica, profundamente espiritualizada, que mantém um equilíbrio entre as várias tradições de seu povo. Mas com a chegada da revolução à vila, as cores alegres dão lugar a cores frias, tudo escurece, juntamente com o coração dos homens que são responsáveis pela destruição daquela nação – condição essa que está sintetizada na frase de Dostoievski proferida pelo padre da aldeia antes de sua execução: “o inferno é a incapacidade de amar”. É justamente a incapacidade de olhar pelo próximo que movimenta as ações feitas pelos comunistas. De forma tal que a junção cinematográfica trabalha bem a ambientação fria e cenas fortes com frases marcantes, no intuito de reverter o esquecimento e mostrar como o evento tem o mesmo peso que outros genocídios realizados por sistemas políticos. Expressões que sintetizam a política comunista são utilizadas em bons momentos do filme e fazem com que você perceba o que era ter tudo retirado de sua posse pela mão do Estado: “A terra pertence ao Estado. Você, seu ícone, sua terra, tudo pertence ao Estado”, diz um oficial cumprindo as ordens de Stalin. Todos que se debruçaram em algum momento pelos processos movidos contra os soldados nazistas, responsáveis pela execução dos judeus, devem ter encontrado a seguinte frase: “estava apenas cumprindo ordens”, frase esta que levou a filósofa judia alemã Hannah Arendt a tratar da banalidade do mal, inclusive não poupando o comunismo de sua culpa como ideologia assassina.

É de suspeitar que o filme não fale do final da submissão ucraniana aos soviéticos, pois sua narrativa termina nos anos de 1930; mas, mesmo assim, seguindo uma série de ferramentas do mundo cinematográfico, vai deixando clara, desde o início, a importância da liberdade para os indivíduos e para o povo. Manter-se independente, poder agir de acordo com a consciência e sem a vigilância e opressão ideológicas são mensagens constantemente passadas pelo filme. E observando sua forma geral, podemos destacar que não é uma grande produção.

As atuações, maquiagem, fotografia e os cenários são medianos, pela ambientação que fica mais em regiões rurais rememorando um mundo mais tradicional. A trilha sonora, que faz uso de músicas folclóricas, é um dos pontos interessantes. De modo geral, é um filme sem muitos destaques técnicos, mas sua principal função pode ser vista não como um mérito dentro da construção artística (ou industrial) do cinema, mas sim como um filme pedagógico.

Foram justamente os sistemas totalitários nazistas e comunistas os primeiros a observar o cinema como uma arma de propaganda. As ideologias foram (e ainda são) espalhadas e cristalizadas no imaginário social com a ajuda indiscutível do cinema. Em todos os lados, elementos culturais, ideológicos e comportamentais são disseminados pelo cinema. A propaganda ideológica totalitária contou com nomes como Sergei Eisenstein e Leni Riefenstahl como dirigentes de produções que visavam enaltecer seus respectivos sistemas ideológicos. Logo, ver que o filme “Colheita Amarga” vem em um momento no qual a hegemonia de uma narrativa ideológica está em crise é uma boa jogada para reverter o esquecimento, ou melhor, o desconhecimento de grande parte da população em virtude dos males perpetuados pelo regime comunista. É interessante lembrar que este ano estreia também outro filme que trata de um genocídio, “A Promessa”, de Terry George, que trata da tragédia do genocídio armênio, perpetrada pelo Império Turco Otomano.

No entanto, a importância de filmes como “Colheita Amarga” está em justamente nos mostrar um evento quase desconhecido. Sabemos que o cinema tem a capacidade de moldar visões sobre os acontecimentos históricos, que ele é quem dá um rosto aos personagens e que deixa fixo na memória um fato. Utilizar o elemento cinematográfico para tornar popular um evento histórico que foge à narrativa comum, que está relegado ao esquecimento, faz com que a percepção histórica ganhe novos rumos. O que outrora foi feito pelos ideólogos, ou seja, a manipulação, ou nas palavras do diretor John Sayles “a história é um celeiro a ser pilhado”, e assim como o que foi feito na Ucrânia, quem pilha decide o que fazer com o espólio, o que nos trouxe uma infinidade de filmes falseadores do passado e da verdade em torno dos acontecimentos. Assim, a realização de um filme que trate de um fenômeno como esse busca deixar claro, assim como outros eventos históricos explorados em várias películas, o que foi a fome imposta àquele país. A memória do evento, que só veio à tona após o fim do regime soviético, agora pode ser exibida, em forma de um aviso, para que não deixemos que sistemas ideológicos venham destruir as liberdades individuais e nacionais em nome de ideais irrealizáveis.

Há uma expressão que diz ser o maior trunfo do demônio fazer acreditar que ele não existe. O momento agora é de relembrar a face do mal, de ver que o demônio interior existe e toma parte nas ideias de intelectuais e governantes que colocam à perdição nações inteiras na realização de seus sonhos megalomaníacos. O filme “Colheita Amarga” vem a nós, não como uma grande obra da cinematografia, mas sim como um réquiem oferecido para trazer ao público a memória desse crime contra a humanidade, crime exercido em nome da perfeição de um sistema ideológico que ainda hoje ilude muitos, assim como um demônio a sussurrar aos ouvidos.

Tobias Goulão é historiador, professor e colaborador do site Santa Carona.

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eunice zanatta

Tem previsão para estrear no Brasil?

Walton Goncalves

Tenho uma curiosidade imensa em saber o porquê do filme não ter estreado ainda no Brasil, pois já estamos às portas de 2018…