Um pintor raiz de nossas raízes

Após 28 dias em cartaz na Cidade de Goiás, é a vez do público de Goiânia conferir a exposição que reúne obras restauradas de Octo Marques, artista genuinamente goiano e que mesmo com seu estilo de vida humilde e longe da academia, desenvolveu uma técnica singular, que mostra seu forte vínculo com sua terra

Cássia Reis é a restauradora responsável pela recuperação das obras que serão expostas ao público

Pinceladas que capturam o cotidiano que se passa com o vagar dos dias, em uma cidade onde passado e presente se misturam e convivem a cada casarão, a cada rua de pedra. Imagens capturadas pelo olhar e pelo imaginário de “Seu Octo”, homem simples e humilde, que mesmo distante das linhas acadêmicas provincianas, desenvolveu técnicas bastante particulares e que reforçam a ligação com sua terra. Homem de alma livre, liberta e sensível, ele reproduzia tudo aquilo que ele vivenciou. Assim podemos definir a obra e o legado deste artista genuinamente goiano, mas desconhecido ainda para a maioria de seus conterrâneos.

E é justamente através de uma iniciativa conjunta da Balaio Produções Culturais e da Associação de Artesão e Artistas Amigos de Goiás-Aaamigos, com recursos da Lei Goyazes e do Fundo de Arte e Cultura de Goiás, que o público goianiense terá a oportunidade de conhecer o trabalho deste artista. Após ficar em cartaz por 28 dias no Museu das Bandeiras, na Cidade de Goiás, a exposição que traz parte de seu acervo restaurado chega a Goiânia e fica em cartaz na galeria que leva seu nome, no Pathernon Center, Centro Cultural Octo Marques (CCOM).

Ao todo são 11 telas contendo temáticas regionalistas, com detalhes de cunho social, ambiental ou arquitetônico, com marcas de um primitivismo discreto e vibrações parecidas com as de obras expressionistas, produzidas entre os anos de 1976 e 1985, sendo 10 delas coloridas, de tinta sobre tela, e um desenho de bico de pena, em papel. Seu trabalho representa uma fase importante das artes de nosso estado, mas que aos poucos se mostra cada vez mais disperso e esquecido pelo grande público.

Por ser um artista que não dispunha de recursos financeiros, criava métodos alternativos de suportes pictóricos. Chama muito a atenção o fato, por exemplo, de Octo fazer uso de tinta de sapateiro ou de açafrão, para pintura de telas. Algo inusitado e tecnicamente muito complexo e rico, pelo fato dele ter conseguido estabilizar estes pigmentos para suas criações e que nos remete a outra artista local, Goiandira do Couto, que usava areia em suas criações, reforçando a estreita ligação dos artistas vilaboenses com os elementos de sua terra. “Desenhava e pintava em folhas de Eucatex/Duratex, sendo que na maioria das suas telas restauradas pude perceber o reaproveitamento desse material que foi trabalhado de forma mista de pintura”, detalha a restauradora.

Octo foi um artista prolífico. Produziu mais de 2.000 peças ao longo de seus 73 anos de vida, entre bicos de pena, aquarelas, óleos sobre tela, xilogravuras e cerâmicas. Todo esse legado de Octo Marques até então estava fadado a ficar enclausurado, em sua maioria, em acervos privados, entre amigos e familiares. “Para as Artes Plásticas, Octo Marques se revela como um artista completo que soube por si só e intuitivamente expressar poeticamente e criticamente as suas impressões cotidianas”, afirma Cássia.

A restauração

Foi ainda na infância, na Cidade de Goiás, que Cássia Reis conheceu “Seu” Octo. “Aqui nos mantemos muito próximos uns dos outros, com a tradicional gentileza de agradar o outro, ora com uma comida típica, ora com palavras de conforto e otimismo”, fala com certo saudosismo. Cássia Reis é a restauradora responsável pela recuperação das obras que serão expostas ao público goiano.

Vilaboense de nascimento, com 38 anos de idade, há 10 se dedica à higienização e conservação de documentos, obras de arte e peças arquitetônicas históricas, tendo iniciado nesse ofício em 2008.

Desde então vem atuando junto a empresas de engenharia, para restauros encampados pelo IPHAN, em cidades de Goiás e de Minas Gerais, tendo se tornado Técnica em Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis e Imóveis e Restauradora de Elementos Integra­dos. “Quando você trabalha com obras de sua terra, passa a se impor, pois o sentimento de ‘pertencimento’ é muito grande.

Acredito que fui preparada, adquirindo experiências diversas, para poder hoje participar desse projeto de resgate cultural daquele que é um dos grandes nomes do nosso estado”, afirma.
Nesse processo restaurativo das pinturas de cavalete de Octo Marques, além de seguir técnicas especiais curativas, preventivas e de pintura, noções de marcenaria tiveram que ser aplicadas minuciosamente. Enquanto que no desenho em bico de pena, foi feita uma higienização mecânica profunda. Uma remoção, utilizando agulhas e bisturis.

As telas a óleo, por sua vez, passaram por uma higienização química, além da refixação da camada pictórica, porque estava havendo um desprendimento do suporte, que no caso é a tela. Em seguida foi feito um faceamento, que é colocação de um papel japonês, com um tipo de substância química, que se prende na tela e faz esse faceamento, para proteger a pintura, houve ainda o nivelamento, e por fim, a reintegração cromática, para a qual foram utilizadas tintas especiais, com pigmentos puros.

Vida e Obra

Nascido em 1915, na Cidade de Goiás, então capital do Estado, a importância de Octo Marques está relatada em livros e matérias que relembram sua trajetória. O escritor José Mendonça Teles (1936-2018) o descreve como um dos artistas que se destacaram em Goiás no século 20. O jornalista Jaime Câmara (1909-1989), em 1978, escreveu que o artista dispensava apresentações e ocupava um lugar de relevo nos meios intelectuais goianos. Historiadores destacam a ligação desse criador com sua terra-natal, fonte de suas criações iconográficas e literárias.

Autodidata em Desenho, Pintura, Xilogravura e Cerâmica, Octo também foi jornalista e contista. Foi fundador da Associação Goiana de Imprensa (AGI) e da Escola de Artes Veiga Valle, na Cidade de Goiás. Começou sua carreira de artista aos 7 anos, pintando cenas de ex-votos para os romeiros das festas de Trindade. Em 1934 se mudou para o Rio de Janeiro onde foi colaborador e ilustrador da revista “Vida Doméstica”. Em 1936, já em Campinas, São Paulo, cursou o Instituto Cesário Motta e operou como foca nos principais órgãos da imprensa local. No ano seguinte mudou-se para a capital paulista onde trabalhou como revisor de “O Estado de São Paulo”.

Em 1938 voltou ao estado de Goiás, burocratizando-se em Goiânia como escriturário na extinta Diretoria Geral de Produção e Trânsito. Passou a residir no bairro de Campinas, onde voltaria em outras ocasiões. Em 1943 demitiu-se do emprego público e retornou à Vila Boa onde em 1945 empregou-se na Prefeitura Municipal de Goiás. Se aposentou em 1973. Durante todo esse tempo, colaborou ainda nos jornais “Folha de Goyaz” e “O Popular”. Apesar da trajetória profissional e artística consistente, Octo Marques levou uma vida sacrificada, passou por episódios de preconceito e discriminação relativos à sua maneira humilde de se portar no mundo (O Mendigo de Deus), e morreu em uma espécie de autoexílio, sem riquezas, poder ou repercussão.

Serviço
Exposição Restauro Octo Marques “Centenário Octo Marques”
Local: Centro Cultural Octo Marques (Pathernon Center)- Goiânia/GO
Período : Até 21 de setembro

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