Um mergulho no Centro-Norte da Índia

Jornal Opção revela, em série de reportagens, um pouco da cultura e costumes do país berço do budismo

Marcello Dantas

Ah, a Índia! Incredible India! Tudo pode acontecer… Sim, soa clichê. Talvez seja justamente pelas surpreendentes situações que acontecem quando você aterrissa naquele país asiático, que tal corriqueira expressão funciona tão bem. E os indianos –– e os turistas também –– a repetem como um mantra.

O choque de realidade te atinge como socos e pontapés desferidos a curta distância ao ver pessoas dividindo o espaço do comércio com ratazanas e esgotos a céu aberto. Pelo menos, os moradores parecem estar acostumados e seguem a vida tranquilamente.

Mas deixo claro: a Índia não se resume a isso. São apenas aperitivos que conturbam a sua mente e te deixam com vontade de voltar para entender como funciona aquela nação recheada de mitos e crenças. É berço do hinduísmo, budismo, dos hare krishnas e de vertentes mulçumanas e jainistas, e outros milhões de deuses e religiões.

A quantidade de pessoas fazendo tu­do “na porta da rua” é impressionante. São centenas de histórias concentradas em um mesmo lugar. A cada esquina, um livro. Por isso, quando seus ouvidos forem tocados pela corriqueira expressão, não duvide.

Passando pelas cidades de Or­ccha, Agra, Delhi, Udaipur, Jaipur, Au­rangabad, Mumbai, Varanasi, Maturah, Amritsar, Vrindrawan, Khajuraho, Pushkar, Jhansi e Fatehpur Sikri, o bloco de anotações acabou rapidamente. A caneta parecia pegar fogo ao escrever sobre os cinco dos 28 estados indianos visitados: Rajastão, Punjab, Maharashtra, Uttar Pradesh e Madhya Pradesh.

Foram mais de dez voos pelos ares comandados por Shiva, o deus maior dos hindus; duas viagens intermunicipais de trem sobre as terras onde Brahma (deus da criação) e Vishnu (o mantenedor) reinam; e inúmeras ultrapassagens perigosas pelas espremidas rodovias. Lá, as mãos das vias são inglesas e passando por elas tem gente defecando, urinando e andando; fora as vacas, búfalos, cachorros, camelos e elefantes circulando. Tudo ao mesmo tempo. Só indo para saber como funciona.

Homem prepara chai masala, em Mumbai

Homem prepara chai masala, em Mumbai

Sabores

O primeiro contato se deu em Delhi, capital federal da Índia, em uma madrugada fria, de 10 graus, após três horas de um voo que partiu de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Os indianos têm uma característica curiosa: fazem quase tudo à porta da rua ou do comércio. Tomam e comercializam o quente e delicioso masala chai (tradicional chá feito de uma mistura de ervas e especiarias aromáticas) enquanto conversam; jogam cartas; vendem tecidos, lanches, alimentos, cigarros, celulares e fones de ouvido. Nada de anormal, não fosse o esgoto que escorre ao lado deles.

Trânsito

Ser pedestre nas ruas da Índia é um tanto quanto perigoso. A cabeça fica confusa pelo sentido invertido no qual circulam os veículos –– mas é questão de costume. O trânsito é uma aventura: a todo tempo parece que os condutores estão a comemorar a conquista do campeonato mundial de críquete. É buzina sem parar! Mas não por ignorância, como se ouve em Goiânia. Significa “estou passando”. E o lance é não parar, senão dá errado.

O mais incrível é que os motoristas de carros de passeio, caminhão, tuk tuk (um tradicional triciclo motorizado) e os pilotos de moto e bicicletas não se acidentam, pois são super habilidosos.

Templos

A Índia concentra milhares de deuses, que batem na casa dos 330 milhões. Por isso, a cada esquina ou pé de árvore tem uma imagem ladeada de velas e incensos. E conhecer mais de cem templos que referenciam Buda, Shiva (renovação), Brahma (criador do mundo material), Lakshmi (fortuna, fartura, beleza e saúde), Vishnu (manutenção do universo), Indra (tempestades), Suria (sol), Krishna (orientação), Ganesha (conhecimento e sapiência), Parvati (do bem), Saraswati (música e poesia), Rama (justiça) e outras entidades sagradas não é nada fácil.

Determinados acessos requerem muita hidratação e disposição na “batata” das pernas. O mês de mar­ço é marcado pelo calor e o período chuvoso começa em junho e perdura até agosto, quando os níveis pluviométricos se intensificam.

Nos complexos de cavernas Ellora e Ajanta, distantes a 30 e 120 quilômetros de Aurangabad (Estado de Maharashtra), respectivamente, o sol forte aliado à poluição te cansam mais rapidamente. A todo o momento, a luz se assemelha a das 16 horas. Com o ar seco e a fumaça das fábricas de tijolos, o clima lembra o do Planalto Central brasileiro, com sol a pino.

Já na Ilha Elefanta, a uma hora de barco da orla de Mumbai –– a São Paulo indiana ––, as temperaturas superam os 40 graus nessa época. Por estar perto do mar, a pele fica sempre umedecida, e o bronzeamento é inevitável.

Complexo de cavernas Ajanta Caves, em Aurangabad

Complexo de cavernas Ajanta Caves, em Aurangabad

Sentidos aguçados

Andar pelos municípios instiga todos os seus sentidos. O olfato fica transtornado com as essências das varas de incenso queimando lentamente durante 24 horas, misturadas às barracas que servem chai masala, masala dosa, omeletes com tomate, pimentas e o esgoto não tratado.

A visão se divide entre as cores dos saris usados por mulheres e os olhares curiosos que elas disparam sobre você. Os sáris são aqueles panos coloridos, de uns seis metros, que enrolados ao corpo de diferentes formas resultam em vestidos finos. Ainda chama a atenção o fato de muitos dos pilotos dos estilosos rickshaws (triciclos que funcionam à pedalada e transportam pessoas e mercadorias) e outros cidadãos andarem descalços pelas ruas. Experimentei fazer isso em Jaipur, capital do Rajastão. Sobrevivi!

Já Varanasi… Ê Varanasi! Fica no Es­tado de Uttar Pradesh e é considerada umas das cidades mais antigas do mundo, com cerca de 5 mil anos. É também o município mais sagrado, pois os hindus acreditam que morrer naquelas terras significa salvação, um bom motivo para voltar.

Banhada pelas águas do Rio Ganges, pode-se conhecer nela o Aarti, uma bonita celebração à deusa ou mãe Ganga, como carinhosamente chamam o rio. Duas vezes ao dia, ao amanhecer e no início da noite, uma multidão participa do evento no Dasaswamwdh Ghat, um dos 80 portões instalados em suas margens. Pode ser visto da terra firme ou dos barcos alugados.

Cada cerimônia dura pouco mais de uma hora e durante esse tempo as pessoas podem fazer seus agradecimentos. Com poucas rupias (nome da moeda corrente) é possível comprar um pequeno pacote com vela e flores para “entregar” aos deuses. Todas as oferendas são chamadas de pujas.

O início de março é marcado por um evento mundialmente famoso, o Holi, conhecido como festival das cores pelo mundo. Diferente do que será promovido em junho em Goiânia, a festa é sagrada para os hindus. Durante todo o dia em que é celebrado o festival escuta-se “Happy Holi!” por todos os lados, sempre acompanhado de uma boa dose de um pó colorido e cheiroso que te invade até a alma.

Em Udaipur, Rajastão, dediquei grande parte do dia ao interior do Templo Jagdish, escutando músicas cantadas em híndi, idioma oficial, e tocadas em tambores bem ritmados, como o holak. Era uma chuva de pó colorido e sagrado, também chamado de holi.

Sobre a culinária, não se sabe o que é mais divertido: se é ler nomes de pratos, como aloo mattar, xana masala ou tandoori chicken, ou ver a cara dos turistas se contorcer por conta da pimenta, curry e o forte tempero. É pesado até mesmo para os acostumados com especiarias.

Ainda sobre culinária, uma das experiências mais marcantes foi no Templo Dourado, em Amritsar, no Punjab. O local é ponto de encontro dos adeptos ao sikhismo (religião monoteísta fundada em fins do século XV resultado do sincretismo entre elementos do hinduísmo e do islamismo). O templo está para os sikhs como o Vaticano está para o catolicismo.

Como a enorme fila me impedia de adentrar ao recinto, fiquei por horas vendo homens e mulheres tomando banho e bebendo da água sagrada que rodeia o templo. Depois, uma multidão seguiu para um enorme armazém, falando alto em uma língua que não parecia híndi.

Homens torcem roupas após banho no lago do Templo de Ouro, em Amritsar

Homens torcem roupas após banho no lago do Templo de Ouro, em Amritsar

A ficha só caiu quando as portas se abriram para revelar um organizado espaço onde é oferecido almoço beneficente e com organização interessante. A cada 20 ou 30 minutos, as pessoas se revezam para deliciar um arroz sem sal temperado com curry, canjica, molhos apimentados e muito chapati, uma espécie de pão sírio – é importante recebê-los com as duas mãos, em forma de agradecimento.

A transição entre um almoço e outro é marcada pela limpeza do chão. Depois, os próximos se sentam em esteiras à espera dos alimentos. Apenas homens servem; usam conchas para retirar a comida de baldes e servi-la nas bandejas. Talvez, o maior impacto organizacional se dê na lavagem dos pratos e talheres e no preparo da comida. Indianos e árabes se juntam para deixar tudo nos trinques.

Roteiros turísticos

As cidades visitadas te oferecem pontos turísticos de peso, como o Taj Mahal, em Agra, Uttar Pradesh. A tumba construída a mando do imperador Shah Jahan para armazenar o corpo de sua amada, a princesa Mumtaz Mahal, é indescritível. A dica é pegar um tuk tuk, ao final da tarde, e ir para trás da monstruosa construção em mármore branco.

Talvez, conhecer o forte Red Fort seja tão importante quanto conhecer o Taj Mahal. Afinal, foi lá, no forte, que o imperador ficou detido até morrer, de desgosto, vendo sua maravilha de dentro da cela. É que ele gastou todo o dinheiro de seu governo na construção do prédio e seu filho ordenou sua prisão.

Em Jaipur, Rajastão, é interessante ver o Palácio dos Ventos, um harém construído pelo imperador Swaj Pratap Singh, em 1799, para abrigar suas mulheres, já que elas não podiam sair às ruas. O máximo que faziam era pegar uma brisa das janelas. O curioso é que a construção só tem fachada.

A pequena Khajuraho, em Madhya Pradesh, lembra a Vila de São Jorge, localizada no meio da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Com poucas ruas asfaltadas, o clima pacato é temperado pelo complexo de templos com esculturas eróticas que reverenciam o Kama Sutra, livro sagrado referência para a prática sexual. Foi nesse sítio sagrado que se viu e ouviu as pessoas rindo das explicações dos guias. Nos outros, muitos pareciam entediados.

Detalhe de templo do kama sutra, em Khajuharo

Detalhe de templo do Kama Sutra, em Khajuharo

Em Vrindrawan é divertido andar pelas ruas cheias de poeira e lama até chegar em um (raro) restaurante que te oferece como companhia vários ratos andando a poucos centímetros da sua mesa. A conta total, para seis pessoas, não passou de R$ 40.

Indo a Varanasi, é possível conferir diferentes templos e vertentes do budismo indiano, tibetano e nepalês. Encontra-se na cidade um museu que conta a saga de Siddhartha Gautama, o Buda, até ele abandonar sua casa e tornar-se um ser iluminado espiritualmente; o Big Buda, uma estátua imensa de arrepiar; e claro, o Rio Ganges –– onde se lavam roupas de pousadas e hotéis.

Típico lugar de meditação budista em Varanasi, Índia | Fotos: Marcello Dantas

Grande Estupa, em Sarnath: típico local de oração para os budistas, a 13 km Varanasi

Análise

Em pouco menos de um mês, não é possível se aprofundar na história de um país tão místico e complexo. Mas a sensação ao conversar (e entender o inglês com o R puxado) com os moradores é a de que todos vivem bem e sem reclamar. Independente da idade, casta ou religião.

Andar de trem na metrópole Mumbai e ver pessoas tomando banho e lavando roupas em esgotos é tão comum quanto ver homens defecando e urinando nas ruas. Normal também é ouvir de indianos que dinheiro não é problema. O contraditório está no fato de os vendedores crianças, jovens, adultos e velhos insistirem incansavelmente para que se compre algo e ganhe algumas rupias. Ao ponto de colocar um produto em suas mãos e dizer para que você mesmo dê o preço da mercadoria.

Mas a Índia, com todos os problemas de infraestrutura e saneamento, é um país que merece atenção. E se assemelha ao Brasil, tanto pela receptividade e malandragem, que vem do berço e da necessidade, quanto pelas belas paisagens naturais. Talvez, a tristeza de usufruir o que é oferecido aos cidadãos por um governo (esse ano auxiliares do atual presidente estão envolvidos em escândalos no Ministério do Pe­tróleo) e polícia que cobra propina esteja mascarada pela fé e crença nos deuses que orgulham a nação.

Celebração do Aarti, às margens do Rio Ganges, em Varanasi

Celebração do Aarti, às margens do Rio Ganges, em Varanasi

3 respostas para “Um mergulho no Centro-Norte da Índia”

  1. Avatar Jota Marcelo disse:

    Excelente!

  2. Avatar Hélio Sperandio disse:

    Muito bom, Marcelo! Também adorei as fotos. Escreva mais.

  3. Avatar Breno disse:

    Muito bacana, tanto o relato quanto as fotos!

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