Um Happy Hour com Sandra Hegedüs

por Celeste Gomes del Salto, Madrid, Espanha, especial para Jornal Opção

Foto: Acervo Pessoal

Constatei pela décima vez que tudo estava preparado, a bateria do computador estava carregada, o foco do LED colocado, e o link para entrar na plataforma zoom na minha frente. Tomei um gole do vinho, que já tinha colocado com antecedência na taça, para acalmar essa sensação de nervosismo. Tinha muitas perguntas para uma mulher com tantas respostas, primeiro queria descobrir como uma brasileira que saiu do seu país somente com uma bagagem de ilusão conseguiu pelos seus próprios esforços ser uma pessoa tão importante na sociedade artística de Paris, e inclusive chegar a ser uma das convidadas do presidente da República Francesa, Emmanuel Macron. Também queria que ela me contasse como conseguiu ajudar tantas pessoas do mundo da arte, e como conseguiu a medalha de Officier des arts et lettres.

Sempre gostei de entrevistar grandes mulheres; elas são inspiradoras, lutam com todas suas armas para conseguir os seus sonhos, são belas sem serem perfeitas, inteligentes sem serem pedantes. E nesse dia ia entrevistar uma mulher com todas essas características: Sandra Hegedüs.

Às 13h em ponto ela apareceu na tela do meu computador, foi pontual, uma grande qualidade — pensei —, outro ponto positivo para ela. No seu rosto surgiu um grande sorriso, chegou vestida com roupa de malhar, tinha mencionado antes sobre o seu compromisso com o personal trainer. Sandra se sente orgulhosa de ser uma mulher saudável com mais de 50 anos, que cuida diariamente de sua alimentação e do seu físico. É vegana há seis anos; começou quando fez um retiro de saúde na Califórnia. E se encontra bem com a sua figura física.

Sandra com o Presidente da República Francesa, Emmanuel Macron | Foto: Acervo Pessoal/Sandra Hegedüs

Tínhamos uma hora para esse happy hour online. Minha ânsia de saber tudo a princípio me fez atropelar a nossa conversa. Mas ela com o seu sorriso e voz suave, começou a falar sobre o seu trabalho, e em seguida notei sua grande paixão pelo que faz. Enquanto a escutava observei que de vez em quando arrumava com cuidado o seu cabelo, o que me chamou atenção porque tinha acabado de ler uma pesquisa feita pela Universidade de Montreal que abordavam a questão do comportamento das pessoas com relação a determinados tiques, e em particular esse tique de Sandra está relacionado ao perfeccionismo e incapacidade de relaxar. Tudo isso eu ainda estava por descobrir… Mas, vamos começar pelo princípio.

Sandra nasceu em São Paulo, filha de pai Húngaro e sua mãe (falecida) era francesa, um fato que a ajudou a vir para Europa. Através da sua mãe ela tinha direito à cidadania francesa. Estudou filosofia e cinema na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Foi artista militante na cena paulista e fez várias apresentações no início dos anos 80. Em 1990, ela resolveu passar pela experiência de morar na França para ampliar horizontes. Apaixonou-se pelo país, a princípio essa paixão deveria ter sido fugaz, mas acabou por se concretizar numa longa relação que dura até hoje, depois de 32 anos. Às vezes a vida nos oferece outros propósitos, e Sandra conseguiu entender que o destino abria outra porta para ela e aceitou esse presente.

Chegou na terra do impressionismo acompanhada pelo seu primeiro marido brasileiro; foi morar em Saint Germain des Prés, setor localizado no 6º distrito de Paris, entre a margem esquerda do Sena e os Jardins de Luxemburgo, numa área com uma rica história literária, revolucionária e artística – três coisas que encaixavam muito bem em sua vida. Morava perto dos dois cafés, Les Deux Magots e Café de Flore, que foram pontos de encontro de filósofos, escritores e artistas influentes durante as décadas de 1920 e 1930. Pablo Picasso, Albert Camus, Leon Trotsky e Jean-Paul Sartre são algumas das mentes brilhantes que o frequentavam. Com certeza Sandra teve oportunidade de desfrutar de um café sentada no mesmo lugar que eles; essas cafeterias se orgulham de preservar sua autenticidade.

Foto: Acervo Pessoal/Sandra Hegedüs

Sua relação com o primeiro marido terminou e mais tarde Sandra se casou com um francês; com ele teve os seus três filhos. Atualmente está divorciada e mora com os filhos perto do lugar mais emblemático de Paris, a Torre Eiffel.

No início da sua vida profissional na França, ela trabalhou como produtora de reportagens e documentários. Chegou no país com experiência nesse campo; no Brasil trabalhou em uma produtora que produzia filmes comerciais e programas para televisão. Na França, ela montou sua própria produtora e oferecia produtos para os canais de televisão deste país e de outros, como a Holanda. Sua experiência na produção de documentários foi o que permitiu a Sandra reorientar seu trabalho atual para produzir exposições. Antes disso, ela nunca havia trabalhado no setor, embora tenha convivido com a arte desde criança. Segundo ela, a arte sempre foi parte integrante de sua vida.

Em 2005 ela deu um passo a mais neste campo: tornou-se colecionista de arte contemporânea. Tudo começou após o nascimento dos seus filhos, quando o casal teve de buscar uma casa maior. Ao mudar-se e ver tantas paredes livres, começou a adquirir algumas obras, iniciando assim a sua coleção. Atualmente ela conta com um grande acervo de obras de arte; sua casa é um pequeno museu. Como que não tem paredes suficientes para instalar todas suas obras, então, às vezes, contrata técnicos para trocar uma obra por outra de sua coleção. Assim vai rodando e, quando alguma revista publica fotos da sua casa (o que é habitual), ela mostra algo novo. 

Sandra Hegedüs em frente de uma obra de Eko Nugroho. Foto: Acervo Pessoal/Sandra Hegedüs

Todas as artes que Sandra tem em casa, segundo disse, formam a sua história; são artes totalmente pessoais e em nenhum momento comprou obras para aumentar seu patrimônio. Por exemplo, essas cerâmicas que parecem quebradas são coladas com cinzas de corpos humanos – parece estranho, mas é uma forma de preservar a humanidade nos objetos. 

Depois de um tempo colecionando arte, Sandra sentiu a necessidade de dar um passo a mais: já não se contentava em ser uma simples observadora e queria fazer parte ativa da criação artística. Assim, após um ano meditando, chegou à conclusão de que era factível levar artistas estrangeiros para a França e enviar artistas franceses para outros países.

Com esses intercâmbios, ela teria a oportunidade de acompanhar o processo de criação dos artistas. Como na época ainda não era conhecida nesse meio, não seria fácil organizar um projeto dessa magnitude. A solução encontrada foi formar um comitê com pessoas importantes do setor, tendo como base a participação de uma grande instituição. Entrou em contato com diretores de museus e apresentou sua ideia, e assim, após uma dura batalha, conseguiu formar o comitê para escolher os artistas que seriam levados para França, ou da França para outros países. O resultado do trabalho do artista seria exposto em museus dirigidos pelos participantes do comitê. Ela afirma ter consciência de que é inútil para um artista fazer uma obra e não mostrá-la. 

Foto: Acervo Pessoal/Sandra Hegedüs

Esse projeto criado por Sandra teve uma amplitude que nem ela mesmo esperava. O vai-vem de artistas criou vínculos por todo o mundo e seu trabalho ficou conhecido. Países estrangeiros começaram a achar importante chamá-la para dar visibilidade – não só ao artista –, mas também ao país do artista. Hoje, ela atende o mundo inteiro.  

Assim nasceu em 2009 a SAM Art Projects, uma organização filantrópica da qual Sandra Hegedüs é presidente. Todos os projetos são realizados através dessa organização, que oferece um prêmio anual aos artistas. Foi assim que Sandra chegou ao Palais de Tokyo, um edifício dedicado à arte moderna e contemporânea, localizado na 13 avenue du Président-Wilson, perto do Trocadéro, no 16º distrito de Paris. A ala leste do edifício pertence à Prefeitura de Paris e abriga o Museu de Arte Moderna de Paris. E a ala oeste pertence ao estado francês e abriga o Palais de Tokyo desde 2002. E neste espaço expõe o artista brasileiro Maxiwel Alexandre, a última aposta de Sandra. Sua exposição dura até o dia 20 de março.

Esses projetos fomentam a conexão da cena artística parisiense com países fora dos circuitos habituais do mundo da arte. Uma das logísticas da sua organização é oferecer residência e estadia aos artistas. Tudo isso é subsidiado pela própria Sandra através de sua organização. Ela faz o orçamento que deve ser aplicado a cada artista. Além disso, trabalha com sua equipe para algumas empresas que oferecem mecenato. Por exemplo, materiais para as obras de arte, esse tipo de ajuda é deduzido do imposto de renda das empresas que patrocinam os trabalhos. Também tem vários parceiros que são chamados mecenas de competência, e dão o que sabem fazer.

Técnicos mudando as obras da casa da Sandra | Foto: Acervo Pessoal/Sandra Hegedüs

Mulher apaixonada, espontânea e determinada, Sandra Hegedüs pertence a esta nova geração de colecionadores militantes que se estabeleceu no cenário francês dos últimos anos, criando projetos filantrópicos ousados, apoiando os talentos do futuro e patrocinando projetos ambiciosos além das fronteiras. Assim como sua coleção, as criações artísticas que ela apoia não respondem a uma preocupação com o mercado, mas a uma atenção aguda dada às novas visões do mundo que os artistas trazem. 

Graças à sua energia contagiosa e à sua capacidade de se cercar de apoiadores e especialistas leais, consegue levantar recursos financeiros e humanos significativos a serviço da realização de projetos de artistas, trazendo-lhes visibilidade e reconhecimento. 

Em 2018, seu compromisso foi recompensado com o prêmio do 27º Prêmio MontBlanc de Cultura Patrocínio de Arte. A filantropa foi reconhecida por seu trabalho em apoiar intercâmbios artísticos internacionais, construindo pontes entre a Europa e países não ocidentais. Em 2020, ela recebeu a medalha de Officier des Arts et lettres (Oficial de Artes e Letras), prêmio concedido pelo Ministro francês da Cultura Franck Riester.

Foto: Acervo Pessoal/Sandra Hegedüs

Sandra também é uma influencer de cultura, educação e arte no Instagram. Tudo começou no início da pandemia, no confinamento, quando ela foi convidada para fazer uma live sobre arte na plataforma Instagram com uma pessoa conhecida no mundo da moda, Consuelo Blocker. Para sua surpresa, no dia seguinte, tinha 2000 seguidores. Como o seu trabalho estava parado e os museus se encontravam fechados, ela buscou outra forma de mostrar a arte. Hoje, tem muitos seguidores, mas sempre avisa aos novos que sua página mostra conteúdos de arte, educação e cultura.

Soube recentemente que Sandra é judia e que quase toda a sua família foi exterminada em Auschwitz, mas isso é outra história.

Celeste Gomes del Salto, Madrid

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