Um balanço dos 300 anos de economia em Goiás

O Estado assume a função de distribuidor nacional de produtos industrializados. Serviços e logística de transportes são responsáveis pela maior fatia da renda estadual

Luís Estevam

Especial para o Jornal Opção

A primeira atividade econômica em Goiás foi a mineração do ouro. Antes disso, milhares de índios habitavam o território vivendo, em comunidades, no puro regime de subsistência.

A mudança teve início em 1722, quando Bartolomeu Bueno Filho, o Anhanguera II, veio de São Paulo, à frente de uma bandeira, com o objetivo de encontrar o metal precioso no interior da colônia brasileira. Apesar de atropelos, na longa e demorada jornada, os bandeirantes foram bem-sucedidos, instalando mineradoras no Desemboque, em Santa Cruz, Ouro Fino, Meia Ponte, Vila Boa, Pilar, Crixás, Arraias e Cavalcante, entre outras localidades.

Mapa dos Julgados da Capitania de Goiás | Foto: Reprodução

Além do grande distanciamento entre as jazidas descobertas, que dificultava a administração colonial, o extrativismo foi relativamente modesto e efêmero em toda a região. O montante de ouro, retirado do território goiano, correspondeu a menos de um quarto da produção em Minas Gerais e a atividade foi passageira, durando menos de um século.

Na época, o garimpo era apenas de aluvião, recolhendo partículas que a natureza se encarregara de espalhar pelos córregos e rios do cerrado. O ouro de aluvião, na verdade, quanto mais depressa é recolhido, mais rapidamente acaba. Com escravos bateando sem parar, a última mina descoberta em Anicuns — assim como as outras — logo encerrou sua atividade.

O mais relevante, em termos econômicos, foi o legado estrutural que o empreendimento deixou para Goiás, principalmente os limites do território e a fundação dos diversos povoados.

Quando a administração colonial instituiu a Capitania de Goiás não havia sequer um mapa detalhado da região. Por esse motivo, o primeiro governador nomeado, Dom Marcos de Noronha, o Conde dos Arcos, trouxe consigo um experiente cartógrafo com a missão de definir as fronteiras, resguardando as minas descobertas.

Diante da imensidão do território e do grande distanciamento das jazidas, resolveram delinear a nova Capitania baseando-se nos grandes rios da região. Ao sul, na divisa com São Paulo, o marco escolhido foi o rio Grande. A oeste, o rio Araguaia e a leste, o rio Tocantins. A exceção ficou por conta da divisa seca com a Bahia, ampliada para resguardar as minas do nordeste goiano.

Ao longo do tempo, vários problemas foram surgindo com essa delimitação territorial. Primeiro, os rios não são marcos eficazes de divisão. Rios não separam populações, pelo contrário, constituem pontos de atração e entrelaçamento entre moradores. Em segundo lugar, a Capitania de Goiás era imensa, com mais de dois mil quilômetros no sentido norte-sul, dificultando a centralização administrativa.

Ilustração do antigo formato do Estado de Goiás, antes da divisão com o Tocantins | Foto: Reprodução

Com o declínio da mineração e a transformação da capitania em província, as fronteiras originais foram perdendo o antigo significado. Goiás ficou sem o Triângulo Mineiro, em razão de divergências fiscais com Minas Gerais, e, mais tarde, sem o Tocantins, dado o isolamento a que esteve condenada aquela região.

A outra herança estrutural da economia do ouro foram os povoados e arraiais que se transformaram em cidades. Enquanto existia a cata do ouro de aluvião, não havia mão de obra disponível para emprego em melhorias urbanas. Porém, com a decadência da atividade, grande contingente do trabalho escravo era liberado da mineração.

Numa fria análise econômica, o escravo tem custo fixo. Estando ocupado ou não, a despesa com sua manutenção é a mesma. Por isso, à medida que o ouro de aluvião findava a mão de obra, sem alternativa de empregabilidade, era deslocada para calçamento de ruas, construção de igrejas, palácios, grandes sobrados e cercamento de propriedades. Assim ocorreu em Minas Gerais, por exemplo, onde se construíam igrejas quase ao lado da outra. O mesmo ocorreu em Goiás, com notáveis melhorias urbanas em Vila Boa e Meia Ponte. Tanto que Pirenópolis e a Cidade de Goiás ganharam sobrevida econômica na conservação memorial do passado, preservando a arquitetura dos antigos prédios da época de mineração aurífera.

Durante o século XIX, o cenário se alterou completamente na vida social e econômica de Goiás. O ouro findou, mas o território passou a receber migrantes de todos os lados. Ao norte, maranhenses e paraenses começaram a se apossar de terras incultas, a leste baianos avançaram pelo interior do sertão alcançando o território goiano e, ao sul, levas de mineiros vieram desbravar matas e cerrados para o cultivo agrícola. Com isso, a agropecuária tradicional se tornou a nova atividade econômica de Goiás.

Na verdade, o cultivo agrícola estava crescendo em diversas regiões do país, embora de forma nitidamente diferenciada. No Rio de Janeiro e São Paulo havia fazendas que produziam café para exportação, primeiro com mão de obra escrava e depois com trabalhadores europeus assalariados. No sul do país predominavam estâncias altamente especializadas na pecuária ou na lavoura, repartidas em pequenas propriedades e basicamente sustentadas pelo esforço familiar. No nordeste brasileiro, inúmeras ribeiras de gado serviam de suporte aos engenhos de açúcar, espalhadas pelo inóspito sertão, onde os donos da terra nem compareciam. Em Minas Gerais, onde o trabalho escravo perdurou mais tempo, construíram enormes sobrados rurais em propriedades voltadas para a produção agrícola comercial.

Mapa de Goiás depois da divisão com o Tocantins | Foto: Reprodução

Em Goiás tudo se deu de modo diferente. Não se edificavam vistosos sobrados pela zona rural, não se cultivavam produtos de exportação e tampouco havia pequena propriedade especializada. Os fazendeiros goianos moravam na roça, suas moradias pouco divergiam da casa dos empregados e trabalhavam, no dia a dia, juntamente com peões, retireiros e agregados no desmatamento e nas lavouras de subsistência. Somente o excedente de produção, quando surgia, era comercializado nos povoados e cidades mais próximas.

A fazenda goiana foi a célula de ocupação do território durante mais de um século. Devido ao distanciamento dos grandes centros consumidores, voltou-se para si mesma, cuidando unicamente da própria sobrevivência.

Assim, durante todo o século XIX, a economia goiana ainda não havia encontrado opções de crescimento e especialização produtiva. As cidades eram modestas, com exíguo comércio e a maior parcela dos habitantes residia na zona rural. A circulação monetária era limitada e a maioria dos negócios se fazia na base da troca.

O primeiro choque, que sacudiu o marasmo econômico, veio com a estrada de ferro na zona meridional do Estado.

A Ferrovia Mogiana atingiu o Triângulo Mineiro, no final do século XIX, aproximando-se de Goiás. A ligação permitiu que Uberlândia e Araguari tivessem um crescimento econômico admirável em razão do comércio de mercadorias vindas diretamente de São Paulo. Em vista da importância dos trilhos, foi criada a Estrada de Ferro Goyaz com prolongamento previsto para todo o Estado, o que não se consumou.

Mesmo assim, a partir de 1913, com a ferrovia, o sudeste goiano recebeu modificações importantes na sua estrutura socioeconômica. Surgiram novos povoados em torno das estações, a lavoura ganhou incentivo com a possibilidade de escoamento e algumas indústrias de carne, couro e manteiga despontaram em Catalão, Ipameri e Pires do Rio. Tanto que, antes do surgimento de Goiânia, o centro econômico de Goiás estava localizado no sudeste do Estado.

Entretanto, a euforia, na zona da estrada de ferro, durou poucas décadas. O prolongamento dos trilhos alcançou Anápolis em 1935, coincidindo com obras da construção de Goiânia e inaugurando uma nova era. Desde então, o eixo econômico do estado sofreu reviravolta e os investimentos se voltaram para a área central do território. O deslocamento e êxodo de antigos empreendimentos comerciais enfraqueceu a economia de Catalão e Ipameri, com reflexos negativos em toda a área do sudeste goiano.

Como estação final da estrada de ferro, Anápolis se firmou como polo mercantil, suplantando até mesmo os velhos núcleos comerciais do Triângulo Mineiro. Houve complementaridade entre as duas maiores cidades. Anápolis assumiu a condição de centro atacadista, enquanto Goiânia despontava como centro varejista.

Ainda na metade do século anterior, outros acontecimentos vieram beneficiar a região central do Estado. O programa Marcha para o Oeste, a opção do governo federal pelo rodoviarismo e o início da construção de Brasília multiplicaram os investimentos vizinhos.

Com a abertura da Belém- Brasília, Anápolis se apossou comercialmente das novas cidades que foram surgindo em torno da rodovia e se tornou o canal de negociação para o projeto de colonização agrícola nacional. Assim, o eixo econômico Goiânia-Anápolis se solidificou de maneira complementar, no atacado e varejo, tornando Goiás um centro distribuidor de mercadorias produzidas em São Paulo.

Não obstante, a maioria da população ainda residia no meio rural. As mudanças aconteciam nos maiores centros urbanos do Estado, mas a agricultura tradicional ainda imperava no território. Faltava, ainda, a grande transformação no campo.

Tudo começou nas décadas de 1970 e 1980, quando pesquisadores e técnicos de diversos órgãos desenvolveram o plantio de grãos em áreas de cerrado. Foi o suficiente para o governo federal criar políticas de modernização agrícola no território central brasileiro. O processo transformou as estruturas sociais, econômicas e ambientais no Estado. O agronegócio despontou como elemento de propulsão, modificando a vida tradicional, tanto nas cidades como no meio rural.

De modo específico, a modernização da agricultura em Goiás foi seletiva em termos de produtos, excludente no elenco de grandes produtores e localizada geograficamente, a princípio, no sudoeste do estado.

Na época, os programas governamentais privilegiaram a produção de commodities (grãos e carnes) que pudessem favorecer a balança comercial brasileira e, nesse aspecto, o cultivo de soja no cerrado ganhou enorme relevância. Ao mesmo tempo, a necessidade de produção em larga escala exigia projetos que somente os grandes produtores poderiam executar. A necessidade de maquinários e implementos agrícolas, cada vez mais sofisticados, afastou do processo os médios e pequenos produtores.

As mudanças foram profundas na estrutura econômica e social. De um lado, com a produção de commodities, surgiu a possibilidade de criação de grandes agroindústrias no território, apontando para um novo ciclo de crescimento regional. Na cadeia produtiva da soja e da carne, Goiás atingiu posição relevante no contexto nacional.

De outro lado, porém, com a valorização das terras e utilização de máquinas, aconteceu um êxodo rural impressionante do campo para as cidades. A população urbana ultrapassou, em muito, a população rural em Goiás e o inchaço urbano ocorreu principalmente nas áreas centrais do território.

Goiás se tornou um Estado com enorme potencial agropecuário, mas com a maioria absoluta da população residindo nas cidades. O pequeno e o médio produtor ainda estão buscando uma maneira de inserção nesse processo de modernização da agricultura, que não seja o mero arrendamento de suas terras. A modernização, que teve início no sudoeste goiano, continua avançando em todas as demais áreas rurais.

Ainda bem que Goiás é um Estado privilegiado pela sua localização no quadro brasileiro. Como área central do país está assumindo uma nova função: a de distribuidor nacional de produtos industrializados. O setor de serviços e a logística de transportes estão presentes em todo o território e são responsáveis pela maior fatia da renda estadual.

Evidente que, o tempo econômico em Goiás, na atualidade, coincide com o tempo no restante do país. Não existe mais o atraso. Mas o processo de industrialização nacional continua sob a liderança do sudeste brasileiro, onde se localizam as grandes indústrias de base.

Assim, de forma resumida, estas foram as etapas mais relevantes na formação econômica de Goiás. Um tempo de transformação, iniciado há 300 anos, e que continua modificando as estruturas de um território localizado bem no coração do país.

Luís Estevam é doutor em Economia pela Unicamp. É colaborador do Jornal Opção.

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