Um ano sem Carnaval, mas e a bandeira branca, amor?

Não poderemos desobedecer às medidas sanitárias e, neste ano, cair na folia. Mas não estaremos impedidos de agitar a nossa bandeira branca, amor

Marcos Antônio Ribeiro Moraes

Especial para o Jornal Opção

Um ano sem o carnaval no Brasil é algo muito estranho. Há quem diga que nosso ano só começa depois dessa tão esperada folia. Mas se pensamos o carnaval como a festa de foliões nas ruas ou nos clubes, de desfiles de blocos e escolas de samba, aí infelizmente o carnaval não irá acontecer este ano. O que realmente é uma pena. Pois trata-se de mais uma festa não celebrada, e essa é a festa do encontro de gente que se permite, de algum modo, mostrar-se ao outro sem muitas reservas e censuras. Todos dividindo o mesmo espaço, onde as diferenças não são motivos para agressões, rejeições ou inimizades, não é mesmo assim que cantamos, “vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval”. É nesse embalo que também cantamos “Bandeira branca, amor”, a marchinha que mais expressa essa dimensão do carnaval como tempo de baixar as armas, em meio a guerra. Guerra tão predominante em nosso atual modo de vida, nos conflitos e intolerâncias que ultimamente tem caracterizado nossas relações, independentemente de estarmos em isolamento social. Conflitos que têm se avolumado e dividido os brasileiros, sobretudo por meio de ataques constantes nas redes sociais, em nome de posições de esquerda ou direita.

Na verdade, ódio e agressão são afetos constitutivos da nossa condição psíquica. Freud postula que esses dois afetos teriam uma origem anterior ao amor. E ainda nos adverte da possibilidade de que um dos destinos da pulsão seja a inversão do amor em ódio. Pensando assim, odiar é fácil, o desafio seria amar. Por isso, disputas e divergências sempre fizeram parte do contexto de nossas interações sociais. Ligadas a diferenças nas escolhas dos times de futebol, partidos políticos e até mesmo por conta de diferentes escolhas religiosas, entre outras questões que nos separam econômica e socialmente. Mas nem sempre, em nossa história, os ânimos foram assim tão acirrados como agora, como um clima de guerra contra a existência do outro e de sua liberdade de ser diferente. Já tivemos momentos, na história, em que as pessoas pareciam menos ressentidas, menos suscetíveis à identificações maciças com líderes que as levassem a se engajarem num jogo do vale tudo, do foda-se a vida e os valores. Sem medirem as consequências de suas escolhas políticas.

Acredito que, atualmente, o gozo pela briga tem se constituído como um modo privilegiado de extravasamento pulsional das angústias provocadas pelo real, que emerge por diferentes circunstâncias globais, transformações sociais, políticas, culturais e religiosas, do nosso tempo. De tal forma, tem sido natural a tentativa de eliminar as diferenças que nos constituem e nos ameaçam. Tentativas caracterizadas por um modo banal de lidar com a vida, e com o que ela porta de angústia, caindo numa estranha forma de diversão. Tomando a competição e o conflito como uma forma de distração macabra, como muitas que sempre existiram na história, os ditos jogos mortais realizados em circos e arenas públicas.

Se falo que isso tem a ver como um modo de lidar com o real, me sinto na obrigação de tentar dizer, enquanto possível, algo acerca desse conceito enigmático para todos nós, sobretudo para quem não está familiarizado com a psicanálise. O real aqui não é a moeda brasileira, não é o princípio da realidade freudiana e nem a realidade material em que nos situamos. É, antes de tudo, aquilo que, dessa realidade, nos escapa, toca um limite de entendimento, nos assusta, provoca um choque em nossa realidade cotidiana. Alude a eventos que irrompem em nossa vida, no contato com o Outro, causando angústia e que justamente não conseguimos dar nome, mas nos apressamos em querer achar uma resposta, um culpado, um bode expiatório. É assim quando nos vemos diante da morte, de uma separação ou mudança social que nos causa dor e sofrimento, quando um filho nosso se afirma em suas escolhas de um modo diferente do que sonhamos ou idealizamos que seria. Tudo isso pode levar o sujeito a diferentes reações de defesa e esquiva.

A crueldade com o diferente, as formas de segregação e as afirmações fascistas, cínicas, que tanto prejuízo vêm causando em nosso processo civilizatório, podem ser entendidas como atuações provocadas pelo medo do comparecimento dessa forma do real. De algum modo, o real é aquilo que, sobre o corpo, o sexo e a morte, inquieta, impulsiona o sujeito e a história num movimento de mudanças ou de fechamento, guerra ou paz. De avanços e modernizações, ou retrocessos marcados por nostalgia, melancolia e ressentimento.

Os movimentos de enrijecimento de egos e superegos, se traduzem em diferentes expressões de medo do que emerge frente a angústia provocada por esses fragmentos assustadores. Essas novas emergências do real podem ser entendidas como comparecendo em novas expressões identitárias, novas formas de relações entre pessoas, e dessas   com seus corpos. Bem como as diferentes formas de relação entre corpo e gênero sexual, novas afirmações e possibilidades dos enlaçamentos afetivos que ameaçam o modelo da família tradicional. É importante considerar também que o medo da violência social, nesse caso, do real da morte, também acua o sujeito, de uma forma considerável. Nesse sentido, as questões que vêm embasando o discurso e as atuações de ódio, em nosso tempo, giram em torno disso. Expressam modos de agressão contra a liberdade que cada um teria sobre seu corpo. Contra o modo como cada um vive seu modelo familiar e a sua sexualidade. E, com frequência, justificando a importância de estar armado contra a violência social.

Somando tudo isso, temos um caldo que pode ser entendido como uma tendência a encontrar saída, por uma via única, ou seja, dar marcha-ré em nossa história. Nesse sentido, até o momento, já chegamos ao estágio de se questionar se a terra é mesmo redonda e se vacina é coisa boa. Não é essa a postura do tradicionalismo, que vem destruindo de forma agressiva tudo o que havíamos construído de caminhos, pontes e instituições direcionadas para o respeito à vida? Meios que agora, paradoxalmente, passam a ser tomados como inimigos perigosos. Não é isso o que que vem acontecendo, nos ataques a ONU, ao SUS, a educação, as ciências, a cultura, a liberdade de imprensa?

Recentemente, li no jornal espanhol “El País” uma excelente entrevista concedida por Benjamin R. Teitelbaum, professor de assuntos internacionais da universidade do Colorado e autor de “Guerra Pela Eternidade — O Retorno do Tradicionalismo e a Ascensão da Direita Populista” (Unicamp, 288 páginas, tradução de Cynthia Costa). Segundo ele, a “destruição é a agenda do tradicionalismo”. Isso é o que parece estar por traz do pensamento dos ideólogos conservadores, tais como Olavo de Carvalho e Steve Bannon, com suas tendências antimodernistas, marcadas por um forte fundamentalismo religioso.

Na entrevista, Teitelbaum considera essa ideologia, que ele escreve com T (Tradicionalismo) maiúsculo, mais radical em suas concepções antimodernistas do que o próprio fascismo. Afirmando que “há um elemento de destruição no Tradicionalismo que não existe, necessariamente, no fascismo”. Não que a intenção seja “inocentar” o fascismo. O autor avalia que as forças que o Tradicionalismo representa continuarão vivas e tentando contra as instituições democráticas.

Teitelbaum postula que o Tradicionalismo legitima desde o racismo até a propagação de teorias conspiratórias em relação à pandemia do coronavírus e contra as campanhas de vacinação. Segundo ele, esse Tradicionalismo é originalmente uma escola espiritual filosófica que se tornou uma bandeira política, nesse caso, nada branca. Seus seguidores têm em comum a crença de que a humanidade está no fim de um longo ciclo de declínio e que vai ser concluído com destruição e renascimento, o que justifica a guerra ideológica. Nessa esteira, as pessoas aderem por diferentes razões, como ressentimento econômico, racismo, antifeminismo, entre outros.

O que diz esse autor nos leva ao entendimento de que não estamos divididos apenas entre esquerda e direita, mas sim entre esse modo tradicionalista de pensar e o modelo dos que acreditam que a história precisa seguir o seu curso, em busca de saídas modernas pautadas em propostas humanitárias, que integram, sem receios, diferentes formas de lidar com os retornos do real. Saídas que apostam para instituições democráticas, que integram o campo das ciências, das tradições  culturais profanas ou religiosas e  das artes.

Mas, se fica entendido que uma das causas de nossos conflitos, advém de diferentes reações e de tentativas de controle e administração do que nos ameaça e nos causa sofrimento, desde as investidas do real, podemos também pensar que não se trata de uma saída fácil e que, na boa intenção, todos podemos errar, os tradicionalistas, os modernistas, de esquerda ou de direita. Sobretudo quando apostamos numa queda de braços, numa briga por territórios no campo da verdade. Mas fato é que a verdade toda ninguém a possui, todos temos saberes que podem ser entendidos como partes do que seria a verdade, uma meia verdade, como nos ensina Lacan. Enquanto nos mantemos numa briga de egos, nos distanciamos cada vez mais de formas importantes e singulares de saberes, que são da ordem do inconsciente, que concedem lugares a cada sujeito do desejo de forma singular, como numa festa de carnaval.

Considerando a realidade atual, parece que não há possibilidade de que o sujeito tenha paz, liberdade e emancipação, pela via das afirmações conflitivas de egos, tão verificadas, nas redes sociais. Vale lembrar a constatação freudiana de que “o ego não é senhor em sua própria casa”, por isso melhor seria estar atento à outra cena que nos governa, que é da ordem do inconsciente. Nesse sentido, tanto no carnaval como nos sonhos, chistes, atos falhos, tropeços da língua, na arte, na dança, nos ritos lúdicos e mesmo na experiência de uma análise, o que se passa é algo como o hastear da bandeira branca, contra as armas tirânicas de egos e superegos rigidamente armados. Com certeza não poderemos desobedecer às medidas sanitárias, e nesse ano, cair na folia. Mas não estaremos impedidos de agitar a nossa bandeira branca, amor.

Marcos Antônio Ribeiro Moraes é psicanalista, membro da Appoa, professor da PUC-Goiás, especialista em saúde da Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia. É colaborador do Jornal Opção.

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