Um ano depois, corvos do deserto despertam para era do desespero

Trio goiano Desert Crows bota para fora toda agressividade árida e direta após 12 meses de gravação do que seria o primeiro EP, mas se tornou o disco de estreia

Desert Crows - Age Of Despair - Ilustração Cristiano Suarez

Ilustrador que assina a capa do disco “Age Of Despair”, da Desert Crows, é o mesmo do cartaz que rendeu polêmica na turnê não-turnê do Dead Kennedys no Brasil | Arte: Cristiano Suarez

No dia 4 de abril de 2018, três garotos entraram no Estúdio Resistência, em uma rua sem saída no Setor Sul, com o sonho de gravar um EP [extended play]. A percepção que eu tive ao ver o segundo show da banda em dezembro de 2017, o primeiro com o baterista Pedro Henrique Nascimento, foi o mesmo que o guitarrista e produtor musical Lucas Rezende, do Aurora Rules: o trio Desert Crows precisava melhorar.

Quando Pedro Henrique substituiu Matheus Moraes na bateria da Desert Crows naquela noite no extinto Complexo Estúdio & Pub, no Centro de Goiânia, três coisas ficaram nítidas. Uma era que o baterista não sabia tocar o instrumento que usava. As baquetas pareciam material de tortura nas mãos do jovem. Mas ele mostrou ao seu favor ter presença de palco e compensar a falta de técnica com muita porrada, o que nem sempre é um acerto.

O terceiro detalhe talvez tenha sido o mais interessante daquela apresentação, a primeira dos três juntos. Vitor Mercez (vocal e guitarra) e Raul Martins (baixo) pareciam se entender mais ao vivo. A timidez do vocalista é bastante nítida. Vale destacar que Vitor tinha apenas 17 anos quando tocou na salinha do Complexo, lugar que recebeu bandas das mais diferentes e interessantes do Brasil e algumas atrações internacionais desde 2016 e que fechou no início de 2019. Saudades, Complexo.

Falta muito
Lucas foi direto com os três: “Vocês precisam melhorar antes de gravar”. O que pareceu ser um processo mais rápido nos planos do trio se tornou um ano de aprendizado e gravações. Pedro Henrique consegue sustentar bem a base das músicas e apresentar certo peso e qualidade atrás da bateria. Vitor foi entendendo aos poucos como lidar com seu espaço no palco, a habilidade na guitarra e dividir a atenção com o microfone. Raul também evoluiu e deu complemento às boas músicas que foram surgindo durante o longo processo de gestão dos corvos do deserto.

O que parecia inimaginável naquele 4 de abril de 2018 se tornou um interessante disco de estreia de uma banda nova e que tem tudo para evoluir ainda mais. O rótulo da cena independente roqueira da capital, com um filão de bandas stoner que seguiram a porta aberta por MQN e depois mantida desobstruída pelos Black Drawing Chalks e Hellbenders pode ser ocupada pela Desert Crows, que vê no Overfuzz um exemplo de que a melhora vem da prática e da dedicação.

Raul Martins, com 19 anos, e Vitor Mercez, aos 18, não chegaram no rock goiano em tempos fáceis. Muitas casas da cena independente fecharam as portas. A casa noturna Diablo Pub, que ao longo dos sete anos de vida foi migrando de público e identidade nas suas festas, fechou as portas. O Complexo também deixou de existir. Mas já eram espaços que só podiam ser frequentados por pessoas com no mínimo de 18 anos.

Foi-se o tempo em que os adolescentes lotavam o Centro Cultural Martim Cererê nos shows durante os dias da semana e nos festivais – Goiânia Noise, Bananada e Vaca Amarela. Apesar das dificuldades impostas pela mudança natural do tempo e por exigências legais, o estilo musical sobrevive inclusive à falta de atenção e conexão com o sucesso.

Melhora gradual
Nesse contexto, Vitor e Raul se uniram a Pedro Henrique, de 28 anos, para fazer os corvos crescerem e se tornarem representantes do deserto, principalmente de agosto a outubro, quando as temperaturas elevadas e a baixa umidade do ar são dignas de morte na aridez do Saara. Deram a sorte de ser uma banda que apareceu nos palcos de Goiânia no momento em que a Monstro Disco assumiu o papel de reocupar o Martim Cererê, considerado o grande espaço do rock goianiense, com o projeto Cidade Rock. Os shows gratuitos caíram no agrado da banda e também do público.

Enquanto se acostumavam com os palcos e melhoraram ao vivo, se esforçavam para conseguir chegar ao nível exigido pelos produtores musicais Lucas Rezende e Francisco Arnozan no Estúdio Resistência. Três meses depois do alerta de que faltava muita melhora para chegar ao momento da gravação, saiu o primeiro single da Desert Crows. A faixa “Loose Me” chamou a atenção justamente por riffs potencializados pelos efeitos e o som direto e seco vindo da bateria, que ali começava a ganhar direito a ter atenção.

Os singles aos poucos começaram a surgir em formato digital. Até o final do ano passado foram três faixas lançadas do que inicialmente seria o EP de estreia da banda de Goiânia. “Even The Devil Cries“, que no disco lançado no dia 12 de abril aparece logo depois de “Loose Me”, mostrou em agosto mais do potencial da aridez e agressividade dos corvos do deserto nas suas referências, que vão do metal ao grunge, até mesmo a simplicidade das primeiras composições.

De fato, as aulas e orientações desde a pré-produção até a gravação do disco ajudaram os três, principalmente o baterista, a entenderem que muitas vezes o exagero sem a devida técnica pode ser um erro. É preferível jogar no terreno mais seguro e tentar executar da melhor forma possível o que se sabe fazer até que se alcance outro nível e, aí sim, seja a hora de arriscar.

Lançada no final de novembro, “Skin” é a prova de que o processo de maturação das ideias que Vitor, Raul e Pedro Henrique tinham lá no 4 de abril de 2018 precisavam ser desenvolvidas com calma, ao longo da evolução dos três com seus instrumentos. O baterista evidencia que começou a entender que era mais eficaz simplificar viradas e manter o básico no lugar de complicações que não dominava.

Os solos de guitarra começam a encontrar o momento certo de aparecer. E o baixo desenha linhas mais seguras e que garantem o andamento da melodia. É interessante como a escolha da sequência das canções no disco “Age Of Despair” deixam ainda mais evidente a evolução da segunda até a quarta faixa, que aparecem justamente na ordem gradual dos lançamentos avulsos do ano passado.

“Age Of Despair”
O nome escolhido para o disco, “Age Of Despair”, não só dialoga com o momento de aflição que muitos têm vivido, mas define bem o processo longo e penoso pelo qual os jovens músicos precisaram ser submetidos para chegar ao momento ideal de lançamento do primeiro álbum da Desert Crows. Os corvos, de fato, pairaram desolados por uma era própria e intensa de desespero, cansaço, trabalho árduo, suor e dedicação para conseguir se lançar no deserto.

A arte da capa de “Age Of Despair”, que abre o texto, é do ilustrador Cristiano Suarez. O álbum foi lançado dez dias antes da polêmica do cartaz da turnê cancelada dos Dead Kennedys no Brasil em comemoração aos 40 anos de carreira do grupo punk dos Estados Unidos. Independente da polêmica, da qual a Desert Crows nada tem a ver, a ilustração de Cristiano no primeiro trabalho de estúdio dos goianos enfatizou o sentimento de aridez e penúria dos corvos do deserto diante de um cenários desolador.

A insistência do produtor Lucas Rezende na pré-produção do disco em fazer a banda melhorar individualmente e como um trio fez com que o aprendizado no estúdio ficasse evidente na música que abre o “Age Of Despair”, e que ganhou um videoclipe na quinta-feira, 2. “Desert Crows“, nome que batiza a banda, mostra que o trabalho inicial acompanhado de perto pelo produtor musical, que também assina a produção, gravação, edição, mixagem e masterização ao lado de Arnozan, valeu muito a pena.

O disco, que foi lançado pelos selos Monstro Discos e Milo Recs, ganha ares de tensão com a introdução de “Sweet Liar Love“, que não demora muito a fazer um convite para que quem a escuta comece a bater cabeça a partir dos 23 segundos. Assim como a dor no pescoço depois do primeiro minuto de movimento contínuo acompanhando o ritmo, a sequidão da melodia da espaço para um refrão que se destaca isolado aos 3 minutos e 19 segundos e intensifica o desespero e forma de súplica. Quanto mais a faixa cresce, guiada pela guitarra, mais o disco prepara o ouvinte para a trinca agressiva que fecha o trabalho.

Born in Blood” é a faixa perfeita para quem não tem paciência de parar, dedicar 39 minutos ao disco completo e logo quer pular para a próxima no serviço de streaming. Entrar no “Age Of Despair” direto na música número seis é um bom termômetro se vale ou não gastar mais da sua atenção com o um ano de sofrimento e dedicação de Vitor, Raul e Pedro Henrique para conseguir chegar ao resultado apresentado. Agora são só mais duas canções.

Depois de “Born in Blood”, que tem 5 minutos e 51 segundos de duração, vem uma música mais curta. A reta final de “Born in Blood” é um novo convite a acordar com dor de cabeça no dia seguinte. Ao chegar em “Thoughts“, você tem duas opções: continua a bater cabeça ou passa a tocar o instrumento que estiver mais próximo da sua imaginação onde estiver, no meio da rua, diante dos colegas de trabalho ou em seu quarto depois da aula.

Desert Crows - Foto Marcela Rocha

Raul Martins, Vitor Mercez e Pedro Henrique Nascimento precisaram se dedicar mais do que imaginavam. Mas ao final de um ano de esforço, o resultado mostra que foi por um bom motivo | Foto: Marcela Rocha

A música que dá título ao disco, “Age Of Despair“, é a responsável por fechar o primeiro registro completo de estúdio da Desert Crows. Na companhia de “Desert Crows”, é a música responsável por convidar o público a abrir a roda de pogo no show. “This is the age of despair/It’s not right, it’s not fair/Tell me where’s my home/The odious time has come/Has come (Está é a era do desespero/Não está certo, não é justo/Me diga onde está minha casa/A hora do ódio chegou/Chegou)”.

Até por serem muito novos, nem vão sentir os hematomas pelo corpo no dia seguinte. Ainda mais depois de provarem que os corvos do deserto continuam a aprender cada vez mais a enfrentar o desespero que a era nos apresenta.

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