Turma da Mônica mostra para o mundo a força das HQs brasileiras

Publicadas em várias partes do mundo pela Mauricio de Sousa Produções, as graphics são um fenômeno editorial e ainda mostram a potencialidade de diversos artistas nacionais

Ana Amélia Ribeiro*
Especial para o Jornal Opção

Os gibis e tirinhas de Mauricio de Sousa estão nas bancas há mais de 50 anos e são encontrados atualmente em diversos países e nas mais variadas línguas, o que impulsiona a produção brasileira

Os gibis e tirinhas de Mauricio de Sousa estão nas bancas há mais de 50 anos e são encontrados atualmente em diversos países e nas mais variadas línguas, o que impulsiona a produção brasileira

É muito comum encontrar pessoas que afirmam terem aprendido a ler com as revistinhas da Turma da Mônica. Afinal de contas, os gibis e tirinhas de Mauricio de Sousa estão nas bancas há mais de 50 anos e, desde então, elas vêm se moldando às demandas do mercado editorial; hoje, não existem mais fronteiras para turminha do bairro do Limoeiro.

Os gibis podem ser encontrados em inglês e espanhol e são publicados até no Japão, pois fazem parte da estratégia de internacionalização da Mauricio de Sousa Produções (MSP). Detalhe: as revistinhas fazem tanto sucesso nas terras do sol nascente que, em julho de 2016, a Câmara de Comércio Brasileira no Japão promoveu o XI Festival Brasil, em Tóquio, e levou as personagens da Turma para se apresentarem durante o evento, que contou com um público de 200 mil pessoas. Tanto é que Twitter oficial da organização dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 citou o Cebolinha em um de seus vídeos de promoção do evento.

O mercado editorial da MSP se expandiu muito nos últimos 10 anos e, grande parte disso, deve-se à parceria com a Editora Panini, que começou em 2007. Hoje, é possível encontrar gibis das turminhas em idiomas diferentes, livros com os mais diferentes enfoques: lendas, adaptação de contos clássicos, guias de educação financeira, paradidáticos, religiosos e para colorir. É possível encontrar até a Revista da Tina.

Desde agosto de 2008, a produtora tem investido nas publicações mensais da Turma da Mônica Jovem (TMJ), que, em sua primeira edição, bateu o recorde como uma das revistas em quadrinhos mais vendidas no século 21 — enquanto a edição de número 583 da revista Homem-Aranha, com o presidente dos Estados Unidos Barack Obama na capa, teve 350 mil unidades vendidas, a TMJ alcançou 405 mil exemplares. Até a turma do Chico Bento cresceu. Em agosto de 2013, foi publicada a primeira história do Chico Bento Moço.

Para comemorar os 50 anos de carreira de Mauricio de Sousa, o editor Sidney Gusman convidou 50 artistas brasileiros para elaborar histórias, onde fizessem uma releitura dos personagens clássicos do autor. Em setembro de 2009, foi lançada a primeira edição do álbum “MSP 50 — Mauricio de Sousa Por 50 Artistas”. A homenagem ao mestre brasileiro dos quadrinhos se estendeu a mais duas publicações: “MSP + 50 — Mauricio de Sousa Por Mais 50 Artistas” (2010) e “MSP Novos 50 — Mauricio de Sousa Por 50 Novos Artistas (2011)”.

Em 2012, foi lançado o álbum “Ouro da Casa”, que seguiu a mesma proposta dos três livros “MSP 50”, mas que focou exclusivamente nos funcionários da produtora. Foram quase 80 artistas que fizeram uma releitura dos personagens de Mauricio e houve, inclusive, a participação do próprio Mauricio.

Muitos artistas participaram do projeto, até mesmo o cartunista Christie Queiroz, goiano criador do Cabeça Oca, que participou da primeira edição do projeto. E, uma obra tão grande quanto esta de comemoração aos 50 anos da MSP, é obvio que traria grandes frutos para os fãs. A partir desse projeto, surgiram as Graphics MSP — desculpe-me a hipérbole, mas as Graphics MSP são o suprassumo da genialidade editorial.

As graphics consistem em histórias dos personagens do estúdio feitas por artistas brasileiros consagrados e com estilos diferentes do padrão das revistas mensais. Ou seja, a produtora adaptou as histórias novamente para a geração que hoje trabalha e não consegue acompanhar Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali, e Chico Bento nas revistinhas mensais.

As graphics são publicadas em dois formatos: um com capa cartonada e outro com capa dura; ambas têm 80 páginas, mas sem uma periodicidade linear. Elas são editadas por Sidney Gusman e as divulgações dos lançamentos são feitas durante o Festival Internacional de Quadrinhos, também conhecido como as FIQs. A primeira publicação foi em outubro de 2012 e, hoje, o selo já está em sua 12ª publicação.

Se o leitor não as conhece, é meu dever, e honra, ser sua guia neste mundo de publicações extraordinárias.

“As sementinhas que plantei, décadas atrás, germinaram…”

Em outubro de 2012, chegava às bancas e livrarias o primeiro volume das graphics, “Astronauta – Magne­tar”, com roteiro e arte de Danilo Beyruth (“Necronauta” e “Bando de Dois”) e cores da Chris Petter (“Casanova: Avaritia” e “Casanova: Gula”). Na releitura, o Astronauta tem a missão de coletar dados in loco sobre um dos acontecimentos que testam os limites das leis da física e tem ainda que analisar o magnetar, uma matéria comprimida numa esfera de raio muito pequeno, formada a partir de uma estrela de nêutrons, emitindo altos níveis de radiação.

Porém, um acidente coloca à prova toda a perícia e determinação do Astronauta, que acaba preso em um dos asteroides que circundam o local, e se transforma, assim, em um náufrago espacial. Sem ter como se comunicar para pedir ajuda, ele passa um longo período bolando uma maneira de fugir enquanto luta para não enlouquecer de solidão. A partir desta situação limite, Beyruth pega um dos temas recorrentes do personagem, o isolamento, e constrói uma obra-prima, marcando o tempo intercalando super e micro closes, para enfatizar a rotina.

Nesta história, Astronauta Pereira (nome verdadeiro do herói) enfrenta sua consciência, a solidão e a culpa. O aconchego da fazenda de seus avós contrasta com o vazio no espaço. Beyruth mescla com maestria, em “Mag­netar”, ciência e filosofia, razão e sensibilidade; a cada página da graphic, percebe-se a profundidade das pesquisas feitas sobre astrofísica. É do tipo de HQ que você senta para ler em um folego só e, no final, sua reação é: “Uau!”.

Como diz Mauricio, no prefácio: “O tema solidão costuma render grandes histórias, desde que bem trabalhado”. A frase é tão verdadeira que “Astronauta – Magnetar”, de Beyruth, foi a HQ mais lembrada de 2012 e ganhou nas seguintes categorias do Troféu HQ Mix de 2013: principal prêmio em reconhecimento às HQs no Brasil; Edição Especial Nacional; Desenhista Nacional; e Projeto Editorial (ao selo Graphic MSP).

A HQ fez tanto sucesso quando lançou que foi feita até uma segunda tiragem. Na época, nem a Panini e nem a produtora divulgaram os números de tiragem.

Laços

Escrita e desenhada por Vitor e Lu Cafaggi, a premiada “Turma da Mônica – Laços” é fiel aos personagens originais

Escrita e desenhada por Vitor e Lu Cafaggi, a premiada “Turma da Mônica – Laços” é fiel aos personagens originais

A história escrita e desenhada pelos irmãos Vitor Cafaggi (“Va­len­te”) e Lu Cafaggi (“Mix Tape”), “Turma da Mônica – Laços”, é poética, transborda ternura em cada traço e cor e, ao mesmo tempo em que a graphic é fiel aos personagens originais, ela é única. Em “Laços”, a turminha do bairro do Limoeiro não resgata apenas o Floquinho, cachorro do Ce­bo­linha, mas a infância dos fãs que cresceram lendo as histórias da Turma da Mônica.

Lançada em maio de 2013, e com uma pegada dos clássicos dos anos 80, se “Laços” tivesse sido lançada atualmente, poderia ser comparada à série original da Netflix “Stranger Things”, só que com um Demogorgon real — o “mundo invertido” deles seria a noite que passaram fora de casa. Nela, Cebolinha e Cascão estão aprontando suas estripulias, como sempre, em busca de obter êxito nas execuções dos famosos planos infalíveis, para azar de Mônica. Mas Floquinho, o cãozinho do menino troca-letras, foge de casa e Cebolinha fica arrasado. Quando Mônica, Magali e Cascão vão fazer uma visita para tentar animá-lo, decidem iniciar a busca eles mesmos. A amizade da turminha será testada e fortalecida na busca pelo querido animal de estimação de Cebolinha.

A partir daí você ri, chora, quer estar ali para ajudar a encontrar Floquinho e, quando termina de ler, você está se debulhando mais uma vez em lágrimas. É uma história doce, cheia de referências nostálgicas, uma releitura que, para muitos, seria uma grande responsabilidade, mas que para os irmãos Cafaggi foi apenas uma brincadeira com os amigos que os acompanharam desde a infância, como bem informa Mauricio no prefácio.

É um enredo que demonstra bem como é a construção de uma amizade verdadeira na infância, este olhar doce e meigo dos laços que fazemos enquanto estamos crescendo. Uma HQ com início, meio e continuidade. A graphic foi um sucesso. Além de ganhar vários prêmios do Troféu HQ Mix de 2014, a história dos irmãos Cafaggi virará filme live action. O anúncio foi feito durante o painel da Turma da Mônica na Comic Con Experience (CCXP), em 2015, em São Paulo.

Realizado em parceria entre a MSP e a produtora Quintal Digital, o filme terá direção de Daniel Rezende, conhecido pelo trabalho como editor de longas como “RoboCop” (2014), “A Árvore da Vida” (2011) e “Tropa de Elite” (2007). Ainda não há data de lançamento prevista, mas a vontade de assistir é grande.

Pavor Espaciar

Imagine uma história que fale sobre amizade, pega o caminho da roça espacial e tem uma enxurrada de referências à cultura pop. Esta é a HQ “Chico Bento – Pavor Espaciar”, de Gustavo Duarte (“Có!” e “Monstros!”). É a primeira graphic com um estilo mais cartum, pois é possível imaginar aquele quadro a quadro em desenho animado.

Todas as publicações independentes anteriores de Duarte, foram tramas mudas, nas quais ele conta tudo sem depender das palavras. Ele utiliza o mesmo artifício narrativo em “Pavor Espaciar”, mas, nessa, o autor utilizou balões de fala. É uma história divertida e muito bem desenhada.

A HQ se passa em uma noite na Vila Abobrinha, que tinha tudo para ser tranquila. Mas Chico Bento, o seu primo Zé Lelé, o porco Torresmo e a galinha Giserda, acabam abduzidos por alienígenas com planos sinistros. “Pavor Espaciar” com certeza tem o “prêmio Capitão América das referências”: de Jotalhão a Michael Jackson, do espaço ao Triângulo das Bermudas. Como diz Mauricio, também no prefácio, Duarte “criou uma história que tem o humor inerente do Chico Bento” e, ao mesmo tempo, fez uma narrativa muito autoral.

Ingá

Se em “Astronauta – Mag­netar” é perceptível uma extensa pesquisa astrofísica na elaboração da HQ, em “Piteco – Ingá”, tem-se a profundidade dos estudos sobre as mudanças pré-históricas. O processo de pesquisa e escrita feita por Shiko (Blue Note) na graphic só não chama mais atenção que os traços europeus finalizados em aquarela. Se existe um termo que pode definir essa HQ, esse termo é: obra de arte. Da narrativa ao traço, é o “Piteco” de uma maneira que você nunca imaginou que seria possível.

Cada graphic MSP até aqui gera um sentimento no leitor: em “Astronauta – Magnetar” é a reflexão, em “Turma da Mônica – Laços” é a emoção, em “Chico Bento – Pavor Espaciar” é a graça e, em “Piteco – Ingá”, você fica impressionado, ou como diz Mauricio: “Estupefato”.
“Piteco – Ingá” foi lançada em novembro de 2013 e encerra o primeiro ciclo das Graphics MSP, trazendo a mistura multicultural e mesclando a mitologia pré-histórica do Agreste da Paraíba, com traços, cores e formato europeu. Citando novamente Mauricio: “En­cer­ramento com chave de ouro”.

A graphic ganhou dois prêmios no Troféu HQ Mix de 2014: “De­senhista Nacional” para o autor da história Shiko e de “Publicação de Aventura/Terror/Ficção” — prêmios esses mais do que merecidos.

“Um presente que estou ganhando dos autores…”

O segundo momento das Graphics MSP se inicia com muita ternura em agosto de 2014. Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho (“Cosmonauta Cosmo!”) têm a missão de contar a história dos primeiros personagens de Mauricio, a de Bidu e Franjinha. E a dupla de autores teve mais um desafio, além de criar uma releitura da narrativa do cachorrinho azul e de seu dono cientista, pois Bidu, Bugu, Duque, Rúfius não poderiam “falar”.

Durante a HQ, os cachorros se comunicam com balões que utilizam ícones para explicar as suas ações; porém, não é só esse recurso utilizado por Damasceno e Garrocho. No decorrer da narrativa, eles brincam com as onomatopeias fazendo delas parte da cena, pois vão de acordo com o vento, com a ondulação da água e até são saltadas pelo Bidu. Os recursos visuais da graphic são de encher os olhos, o traço fofo e as cores somando as emo­ções é um diferencial dessa história.

A HQ conta os caminhos e escolhas que levaram Bidu e Franjinha a se tornarem melhores amigos; e a forma como isso acontece na graphic assemelha-se muito com a primeira tirinha publicada por Mauricio, na Folha da Tarde, em 1959. No decorrer da história, aparecem os personagens clássicos como Bugu — a forma como colocaram o “Alô mamãe!”, o bordão clássico do personagem no quadrinho quando ele aparece foi bem sutil — é necessário ficar atento aos detalhes. E, além da participação do núcleo de Bidu, temos também a Turma do Bermudão: Jeremias e Titi, os amigos de Franjinha.

O resultado de “Bidu — Caminhos” é uma narrativa emotiva, sensível, dinâmica e divertida. A segunda fase das Graphics MSP é iniciada, portanto, no melhor estilo, uma vez que se percebe o cuidado dos autores na hora de escrever a história, na forma como foi pensada, desenhada e colorida, mostrando que o projeto, à medida que ganha força no mercado nacional dos quadrinhos, também aumenta a qualidade.

Singularidade

Danilo Beyruth é responsável por uma das mais premiadas releituras dos personagens de Mauricio de Sousa. “Singularidade” foi a segunda feita pelo artista

Danilo Beyruth é responsável por uma das mais premiadas releituras dos personagens de Mauricio de Sousa. “Singularidade” foi a segunda feita pelo artista

Danilo Beyruth volta com sua releitura de Astronauta ao lado de Cris Peter, nas cores. Se em “Magnetar” o autor abordou a solidão, em “Astronauta – Singu­laridade” ele trabalha a persistência do herói que busca voltar ao seu posto de explorador espacial.

A narrativa mantém o ritmo da história anterior, dosando aventura, suspense e ficção. Mais uma vez, o destaque positivo é o trabalho de pesquisa em astrofísica feita pelo autor no exemplar — o leitor fica sabendo sobre buracos negros, horizonte de evento, torção de espaço-tempo e outros conceitos de vital importância na aventura, que remetem à singularidade.

A continuação de “Magnetar” volta a abordar velhos temas conhecidos pelo público de Astronauta, como os arrependimentos por ter deixado Ritinha e sua obstinada busca pelo desconhecido que, só por meio da exploração espacial, pode ser saciada. Além de conhecimento básico em astrofísica, esta graphic também apresenta uma aventura cheia de mistérios, ação e adrenalina. Novamente, Beyruth nos presenteia com sua versão.

Vida

Quem poderia imaginar uma HQ que começa com uma referência a Motörhead e um trecho da música “Two Minutes To Midnight”, de Iron Maiden, para contar uma história do Penadinho e sua turma? Só podia ser de Paulo Crumbim e Cristina Eiko (“Quadrinho A2”). A escolha dos dois para a graphic, que narra a história de amor entre Alminha e Penadinho, foi simplesmente incrível. É impossível não se emocionar com a HQ “Penadinho – Vida”, do traço ao enredo, passando pelas cores e referências,.

A história é a seguinte: Alminha vai reencarnar e Penadinho nunca teve coragem de dizer que ela é o amor de sua… morte. Para piorar, a fantasminha é sequestrada e precisa ser encontrada até o amanhecer, quando Dona Cegonha a levará. E, claro, para resgatar sua amada ele contará com a ajuda dos seus amigos da turminha do cemitério: Zé Vampir, Muminho, Frank e Lobi. Dona Morte e Cranicola também aparecem na história.

Além da narrativa bem construída, os desenhos e cores são sensacionais. Uma mistura de cartum, mangá com características da turma original. Eiko, responsável pelo traço, fez desenhos que são, ao mesmo tempo, fofos e expressivos. As cores feitas por Crumbim e o brilho que ambos deram a Penadinho, com a aura azul rodeando o personagem, não têm outro elogio além de: extraordinário.

Crumbim e Eiko fizeram uma releitura de Penadinho e sua turma de uma forma leve, apaixonante, divertida, com uma pitada de mistério e um toque de terror.

Lições

Antes de começar a ler a graphic “Turma da Mônica – Lições”, separe uma caixinha de lenços, pois você precisará. Se tem uma coisa que os irmãos Vitor e Lu Cafaggi sabem fazer é emocionar o leitor. E se era possível superar em história e beleza dos traços da narrativa anterior, eles conseguiram com maestria.

A HQ marca não só o amadurecimento da turminha do bairro do Limoeiro, mas o amadurecimento artístico dos irmãos Cafaggi que faz um quadrinho “para gente grande”, sem perder o olhar de criança sobre todas as coisas. Ela fala da dor do crescimento e aborda de forma simples, melancólica e inocente a amizade e as responsabilidades que estes laços têm. Os autores, além de trabalhar a perspectiva das crianças sobre o crescer, mostram a árdua tarefa de ser pai, ao ensinar uma lição para os filhos.

Em “Laços”, o foco foi superar as adversidades, utilizando a força do grupo e da amizade; já “Lições” é sobre como a construção desses laços que nos ajudam a ter forças para superar desafios individuais — seja um corte de cabelo, seja no bilhetinho escondido na lancheira do primo, seja no silêncio de uma simples e singela assinatura no gesso de um braço quebrado. Ela é sobre como laços assim perduram, apesar da distância física e sobre como é preciso arcar com as consequências de suas decisões.

Caro leitor, sei que espera que, neste paragrafo, eu faça uma breve sinopse sobre a história, porém isso não acontecerá, pois essa HQ não pode ser resumida, ela tem que ser lida, sentida, chorada, escondida ou mesmo em público. A lição que fica é que nos 50 anos da produtora, quem ganhou o melhor presente fomos nós, os leitores.

“Como voltar à infância…” 

Uma Graphic MSP de peso, literalmente, é “Turma da Mata — Muralha”. Não só por contar a releitura da história de Jotalhão, Rita Najura, Raposão, Tarugo, Coelho Caolho, Rei Leonino, mas por ela ter sido escrita por Artur Fujita (“Ascensão & queda de Big Mini”), desenhada por Roger Cruz e ter tido a arte finalizada por Davi Calil (“Quaisqualigundum”).

Temos uma obra feita por Fujita que já trabalhou como colorista da Marvel e da DC; Cruz que já emprestou seus traços para títulos como X-Men, Doctor Strange e Amarican Vampire; e Davi Calil que já trabalhou na revista Mad e na elaboração dos personagens de “Historietas Assombradas (para Crianças Malcriadas)”, da Cartoon Network (aliás, ao lado de Fujita). Some a experiência de todos estes artistas e o resultado é uma HQ da Turma da Mata com um roteiro baseado em uma trama política.

As intrigas que forma o enredo da trama giram em torno do metal chamado calerium. Quando em contato com a água, ele aquece e gera vapor, responsável pelo transporte no universo, que é representado por naus flutuantes, dentre outras utilidades bélicas e econômicas. Um metal tão raro quanto rentável mudou a história da Turma da Mata e do reino de Leonino, que nessa HQ estão em lados opostos, cujo o confronto é inevitável.

Apesar de toda essa trama política envolvendo o calerium, a graphic tem sua dose de humor e referências; por exemplo, quando Jotalhão fica irritado, ele fica vermelho, que é uma alusão ao fato dele ser o garoto propaganda de extrato de tomate, há mais de 50 anos. Brinca ainda com o detalhe que o Coelho Caolho tem 118 filhos.

“Turma da Mata — Muralha” é uma aventura acima da média que, quando terminada a leitura, você fica com a sensação de quero mais.

Fuga

Licurgo Orival Umbelino Cafiaspirino de Oliveira, ou simplesmente o Louco, não foi criado por Mauricio, mas por seu irmão Marcio Araujo. Com histórias sempre pautadas no nonsense, sem qualquer lógica, o autor da graphic Rogério Coelho (“O gato e a árvore”) dosa muito bem estas duas características marcantes do personagem com um mergulho na subjetividade que só o personagem Louco carrega.

A metáfora do enredo é sobre o pássaro representa a imaginação e força criativa de todos nós, mas que não é todo mundo que consegue escutar o seu canto e que só é possível ouvir quando liberta esse pássaro e se liberta. No momento em que isso acontece, tornamos-nos capazes de criar coisas incríveis. Já os guardiões do silêncio são as adversidades que nos limitam, sejam elas a autocensura ou dificuldades criadas por terceiros.

Rogério conseguiu mostrar a importância de ter imaginação, utilizando um diálogo com o passado das revistinhas da Turma da Mônica e esse novo momento dos personagens com as Graphics MSP e construindo uma narrativa que se sustenta de maneira sólida. E, a partir dela, faz referências e cria novas situações para velhos personagens. Realiza isso em uma atmosfera levemente sombria e rica em detalhes, que lembram o trabalho de Dave McKean, só que com cores mais alegres e quentes e com uma diagramação não linear.

Noite Branca

Já parou para imaginar como seria uma história do Papa Capim com criaturas sobrenaturais, possessão e até canibalismo? A autora Marcela Godoy (“Sete segundos de eternidade”) nos traz esse enredo em uma história de terror voltada para um público de várias faixas etárias, com os traços realistas de Renato Guedes (“Vingadores Secretos”).

Marcela utiliza muito bem a mitologia e lendas indígenas, mesclando com trechos do poema indianista I-Juca-Pirama (“aquele que será morto”, em tradução livre do tupi), de Gonçalves Dias (1823-1864). A HQ absorve a essência do personagem e o envolve numa história densa, cujo o ritmo do roteiro combina com a fluidez da arte de Guedes.

Força

“Mônica – Força” foi lançada no último final de semana, na 24ª Bienal do Livro de São Paulo, e infelizmente ainda não tive oportunidade de ler. A sinopse da história de Bianca Pinheiro (“Bear”) é que Mônica, aos sete anos, enfrenta o maior desafio de sua vida. E, amedrontada, não pode resolver as coisas na base da “coelhada”.

A história promete mexer com as memórias e emoções tanto dela quanto dos leitores. Participam ainda Cebolinha, Cascão, Magali e Denise. É a primeira HQ solo da Dona da Rua do Limoeiro, em uma Graphic MSP.

Com “Mônica — Força” se encerra mais uma fase do selo Graphic MSP. E, já em outubro, inicia-se outro ciclo com Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho em “Bidu 2”. Na Comic Con Experience 2016, teremos a 3ª graphic de Beyruth sobre Astronauta.

Quando Sidney Gusman idealizou o projeto MSP 50, ele não presenteou só o Mauricio com as releituras, mas ao público de maneira geral — como tenho dito. E quem mais amadureceu foi o cenário nacional de produção de quadrinhos, pois a solida base construída pelo selo Graphic MSP dá novo folego a artistas nacionais que, além de poderem buscar carreira internacional, tem oportunidade “dentro de casa”. O cenário brasileiro de quadrinhos está mais forte do que nunca.

Durante o texto, cuidei para não falar que “tal graphic é melhor” ou “tal graphic não é tão boa”, pois isso será uma reflexão que o leitor tem a partir da leitura. Gostar de uma narrativa é muito subjetivo; depende das experiências, do olhar e da preferência de quem está lendo. O máximo pretendido aqui é instigar quem ainda não leu a procurar essas graphics e conferir o trabalho dos artistas brasileiros.

Cada uma é um sentimento de nostalgia. São histórias que nunca se imaginou que poderiam ser recontadas da maneira como estão sendo. E a qualidade, desde a arte, passando pela história e material impresso, é impecável, bem como a forma que os autores pesquisaram para criar novas perspectivas, como trabalharam para criar um novo olhar ao leitor, o sentimento de “nunca imaginei que isso seria possível”.

Cada graphic é um presente para aquela criança que aprendeu a ler com as revistinhas da Turma da Mônica, trazendo elementos adultos sem perder o olhar sobre a infância. São histórias acima da média e que abrem os caminhos — até então inéditos — para novos artistas, que além de publicar HQs independentes, também possam um dia trabalhar em um projeto tão grande quanto esse. Se você leu e acompanha as Graphics MSP, compartilhe suas experiências com quem ainda não leu, busque conhecer os artistas e os trabalhos independentes, o mercado nacional de quadrinhos agradece.

Como ponto final, não há outra frase que expresse e seja referência de tudo que foi dito, além de: “Tchau, mamãe!”.

*Ana Amélia Ribeiro é jornalista, Dona da Rua e fã incondicional de quadrinhos. DCnauta, Marvete e muito apaixonada pela Turma da Mônica.

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Jean Marinho

Excelente matéria, sou fã também e agora vou por estes caminhos, buscando estas -boas- leituras, obrigado!!!

Marcos Juliano

Adquiri a coleção completa recentemente (incluindo Mônica – Força, lançada no há pouco). A homenagem à obra do Maurício é simplesmente genial!! Cada artista transmite autenticidade, com seus traços únicos, e ao mesmo tempo resgata a nostalgia nos antigos leitores da Turma da Mõnica :) Vale a pena investir nessa coleção! Ainda não li todos mas garanto que sempre fica a sensação de “quero mais”.