Tudo circula livremente na esfera do mundo

Osvaldo Rodrigues repassa seus dramas existenciais em “Tudo Aí – 40 Anos de Poesia”, atuando num campo mais liberto das amarras convencionais, mas sem perder o apreço ao ritmo, essência da poesia

“Tudo aí” não se refere apenas à obra completa, mas também aos fenômenos da existência, que os poemas vão repassando em tudo que o poeta consumiu em livros, músicas, arte e vida | Foto: Divulgação

“Tudo Aí – 40 Anos de Poesia” (Penalux, 2016, 318 páginas) é o livro em que Osvaldo Rodrigues expõe toda sua vida de poeta, reunindo suas publicações de ontem e de hoje. Seus poemas antigos surgem com cara nova no cotejo direto com os mais recentes, e estes, por sua vez, têm a chance de se mostrarem fortes, vívidos, com uma energia acumulada de anos.

O destaque de “Tudo Aí” é o jogo de espelho em que a velhice olha para a juventude com uma certa nostalgia, mas por outro lado parece uma tentativa de iludir o tempo e convencê-lo de que tudo circula livremente na esfera do mundo como se não acabasse, como se houvesse de fato uma dobra temporal que permitisse encontros do homem amadurecido de hoje com o jovem de ontem.

Seus livros mais recentes “Confidencial” (2015-2016) e “De Assombros, de Sobres­saltos, de Amores, de Sustos” (2013) vão de encontro a “Mascando Esperanças com Dentes de Vidro” (1983), “Voo Singular” (1979) e “Fôlego” (1985).

Rodrigues é um poeta que gosta das aliterações, e usa-as para falar do abismo do tempo, dos assombros e desesperos da vida, que um dia foi sol, agora entrando no anoitecer. Usa a musicalidade das palavras dançantes para falar da agonia e da tristeza, como em “De Sobressaltos III”, ao dizer: “Onde as têmporas/ o tempo/ se encarrega de enrugar/ e carregar para longe/ o longo e largo lago do pensar”.

Também gosta de usar trocadilhos para tocar a vida, e tocantes são as preces em versos, não um texto que reza e pede a Deus o perdão das faltas, mas a prece como louvor doído da existência, o ritmo do desespero funâmbulo da consciência de que tudo passa, e de que o tempo encarrega de varrer seus vestígios.

Beleza lúdica
Existe uma beleza no interior dos versos maduros de Rodrigues que parece gritar, ou pelo menos parece encenar um grito que não sai, e no lugar, surge uma oração suplicante, mas tênue, em meio a uma vontade de recuperar a vida toda.

“Tenho em minha memória
a figura de um homem sentado sobre a grama
sob um ardente sol
(…)
Um jardineiro lúdico
e sua destinada tarefa de plantar o bem
(…)
ignorantes meus olhos
se alimentavam de sua sabedoria”

Além do jogo de atração entre o passado e o momento atual, há também o aspecto lúdico do espírito criativo de Rodrigues, como “Poemas que Chegaram para Brincar, Mas Estão Dentro”. Ele é assim. Basta ler seu romance “Exercícios Ilusórios” para perceber que o autor brinca, ou joga, ou atua num campo mais liberto das amarras convencionais. O apreço ao ritmo, a essência da poesia, no entanto, está presente mais consistentemente em “Tudo Aí”.

Em um dos trechos do poema-livro “Mascando Esperanças com Dentes de Vidro”, ele diz:
“Sempre tive medo de dentista.
Quando ele fala;
Abra bem a boca
Penso que quer roubar minhas palavras.”

Essa verve lúdica se manteve. E incorporou-se à verve lúcida, com tonalidades fúnebres, susto existencial de quem pede vida e só encontra promessa de morte e decadência. Agora é tudo, tudo mesmo. “Tudo aí”, do título, não se refere apenas à obra completa (que certamente não está completa, porque o poeta está vivo, e a poesia vive dentro do poeta, e enquanto ele durar como homem vivo, ela estará sujeita a nascer no papel), mas refere-se também aos fenômenos da existência.

Negatividade e decadência
O sujeito poético traz à tona seu acervo de preocupações, ou de necessidade de expressão, como a negação do amor, exumação de cadáver, enterro, e o título de um poema que diz muito desse ror de negatividade e decadência, em meio à esperança: “Os vermes não comem vidro”.

A expressão da decadência do corpo (“minhas mãos que tremem/ e deliram ao primeiro solavanco da luz/ que me cega/ de dentro da minha teimosa razão ilusória”) se mistura à de todas as coisas, como o fim da cidade pela poluição, pela violência (“Eu fui atropelado na esquina do esquecimento/ da cidade vazia/ quando vi a avenida intransitável/ que delirava passivelmente suas neuras”).
No poema “De Amores I”, de feição técnica menor, quase uma canção, mas de um efeito estético esplêndido, o sujeito poético condensa natureza, cidade, arte e homem, tudo num só fluxo de estrofe, em um só motivo, e reflete ali as preocupações do poeta, de um modo surpreendentemente alegre (um ato de resistência).

“Viu, você é tão bela quanto o rio Paranapanema
Mais bela que um amor perdido em Moema
Muito mais bela que um filme de Kurozawa no cinema
Sabe, és mais bela que jardins floridos de Ipanema
Bem mais bela que a voz de Milton Nascimento, raro diadema
Bela e interessante quanto Hilda Hilst em Fluxo-Floema
(…)”

Seus poemas vão repassando sua existência e tudo que consumiu em livros, músicas, arte e vida, e fazer poético. Há uma ressonância de metalinguagem também. Neste sentido, a poesia é seu quartel-general, seu forte de resistência: “Minha chance contra o mundo é pequena/ e se detém ao menor insulto/ Eu sou o insumo que a terra vomitou/ mas permaneço de pé.”

Osvaldo Rodrigues é paranaense, radicado em São Paulo desde os 4 anos de idade. Publicou seus primeiros poemas em uma coletânea de 1976, e seguiu escrevendo e publicando até 1985, quando se desligou da literatura. Ficou 26 anos distante do ato criativo, só voltando em 2011, com o romance “Exercícios Ilusórios”, e em seguida retornando à poesia. l

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