Tribos opiniáticas da aldeia global: internet ou infernet?

A tecnologia moderna criou o monstro de mil olhos eletrônicos, a cada dia mais invasivo, mais coercitivo e totalitário, mesmo nas sociedades ditas humanistas e democráticas

Brasigóis Felício

Especial para o Jornal Opção

Vive a criatura humana destes tempos modernos sob a obrigação social, moral e intelectual de ser cybernauta, navegante de redes sociais, expert ou usuário comum, de redes, emaranhados, e de complexas vias infoviárias.

Por toda parte ressoa a palavra de ordem: sejam servis usuários de servidores/fornecedores de dados! A famosa aldeia global, anunciada por MacLuhan, parece ter chegado ao seu domínio midiático total.

“Narciso”, de Caravaggio

Mas isto é apenas hipótese remota. Haja visto ser certo como inapelável é a lei da gravidade, que o processo de incorporação e chegada de novos recursos, de traquitanas eletrônicas a cada dia mais velozes, e invasivas da privacidade e sossego. Para o ator Antônio Fagundes, a internet (ou a infernet) veio nos trazer maravilhas das quais nunca precisamos antes que antes.

“É espantoso constatar quão diminuta é a capacidade das pessoas em admitir a validade do argumento dos outros, embora esta capacidade seja uma das premissas fundamentais e indispensáveis de qualquer comunidade humana.”

Isto que tanto se aplica aos nossos dias cybernéscios de total envolvimento opiniático com toda espécie de assunto, encastelados e enredados nos limites dos grupos e redes na internet – encapsulados nas crenças e profissões de fé tanto nossas quanto dos demais das tribos a que pertencemos.

Sem falar que cada um aferra-se aos seus pontos de vista, sem ter olhos nem ouvidos para considerar a validade possível dos argumentos contrários aos nossos.

Jung, o psiquiatra abridor de caminhos na psicanálise, fez tal consideração sobre a incapacidade humana de verdadeira comunicação com os outros na década de 1930 — muito antes, portanto, da nossa era hiperconectada e povoada de falantes de tribos e comunidades virtuais, em que todos falam ao mesmo tempo, e ninguém obtém mínima atenção ou consideração.

“O Grito”, de Munch

Jung segue em sua fala profética: “Na medida em que o indivíduo não reconhece o valor do outro, nega também o direito de existir do ‘Outro’”.

A boa e antiga licença poética dá permissão a versos belos ou ruins. Uma destas, em bela canção de João Caetano, diz: “A casa tem dono/outra vez/”.

Em sentido literal, sugere que enquanto amado ou amada estiveram ausentes, não havia um gerente, ente ou amo, que fosse seu dono.

É útil lembrar que a casa do Ser tem de estar sempre habitada. De preferência, que tenha um governo ditado pelo Eu Profundo, que não se sente abandonado e desprotegido, seja qual for a situação de vida que aconteça.

A educação meramente jornalística e superficial — aquela que a maioria das pessoas tem — embora exista larga percentagem da população que não tem acesso nem mesmo a esta, não constitui substrato de cultura.

Por fundamentar-se em pensamento automático e informações elementares e ligeiras (instinto de sobrevivência e alguns outros aparatos, que permitem o funcionar no campo da existência), não fornece elementos que alicercem uma governança consciente e alerta.

Ao contrário do que aconteceu no passado, onde existia e fluía a formação cultural de alicerce humanístico, em que as pessoas eram levadas a ter uma visão universal das coisas.

Hoje muitos batem no peito, dizendo que estão atentos a uma insabida e confusa “chamada do tempo”. Que é constituída somente de imitação e culto ao supérfluo, de platitudes e banalidades, formando uma bolha de mediocridade e falácia, barulhenta e gritante, que se esvai em si mesma, sem deixar em seu rastro nada de útil às pessoas em particular, e à sociedade em geral.

Os “debates do dia”, travados na gritaria histérica das redes sociais, apenas roçam, deblateram sobre acontecimentos do cotidiano, e têm a duração das notícias velozes, que os suscitam.

Equivalem à importância que possa ter o pum de uma pulga. Do mesmo modo como reboam, com estridência, somem no ar, sem mostrar a utilidade possível que possam ter tido.

Sou um cidadão do mundo dos mais antigos e matusalêmicos da praça associada. Vivi o suficiente para ver toda essa revolução cybernética chegar, a todo vapor, a partir das cidades turbulentas e vertiginosas, atingir as mais pacatas e longínquas tribos, comunidades, brocotós de morros, grotões onde o Judas perdeu as botas.

Em todos os lugares todos têm suas traquitanas tecnológicas, de maior ou menor preço, configuração, qualidade e alcance. Não há quem não esteja falando pelo zap, quem não tenha o seu Instagram, que não tenha conta no Facebook e Twitter.

Há uma obrigação compulsória de se ter blog, site, reserva de domínio, e o escambau. Tenho saudades do tempo em que sítio era tão somente uma glebazinha de terra que se tinha, como casinha de campo, onde se ia plantar e colher, conversar com estrelas, simplesmente ser, estar feliz.

Porém, é inegável que foram engolfados pela avalanche, e tornaram-se usuários, cybernautas à beira de ataques de nervos, desde criancinhas de tenra idade, até gente de idade provecta ou centenária.

Redes sociais têm poder para levantar ou derrubar governos, eleger presidentes, ou destronar mandatários. Podem quebrar grandes empresas, de todo tipo. Podem fazer jornalões e poderosas redes de televisão sair piando fininho, e pedindo penico.

Os não-existentes

No futuro próximo — ou já agora — será declarado não-existente quem não baixar músicas, filmes, documentários da Netflix e Youtube. Ou quem não viva a fazer selfies narcísicas, muitas delas delirantes, surrealistas, humorísticas ou simplesmente ridículas.

Foi criada até uma nova profissão, a de youtuber — da qual muitos tiram milionários proventos, dada a profusão de seguidores, simpatizantes fanáticos que têm.

Há yotubers de toda qualidade e conteúdo, falando horas seguidas, sobre quase tudo de que se possa falar e comentar, neste planeta tomado pelo vício da falação compulsória, caudalosa, imperiosa, avassalante, irrestrita. E, claro, cybernautas para fazer dar likes e acionar o sininho.

Com tudo isso, e há quem, mesmo sendo usuário contumaz de toda espécie e estilo de traquitanas eletrônicas, diga em alto e bom som, que não acredita em magnetismo, hipnose coletiva, e ressonância quântica.

Vivesse hoje o trepidante coronel Ponciano de Azeredo Furtado, o boquirroto e pletórico “caçador de lobisomem”, diria, com rompante, e estilo “deixa que eu chuto”: “Um mundo assim já não está por conta de Deus. Só está funcionando por conta do Capeta”.

Fahrenheit 451 e o apocalipse

Estamos próximos de realizar o apocalipse previsto no romance “Fahrenheit 451” — em que o romancista de ficção científica anunciou um mundo em que bombeiros, em vez de apagar incêndios, iriam queimar livros e bibliotecas, vistos como causas de grande parte dos problemas e conflitos do mundo.

De outro modo, não tão dantesco, mas igualmente perigoso, já estamos neste mundo em que privacidade dos indivíduos é apenas uma hipótese — sem que nada a possa garantir, em ambiente virtual, ou de corpo presente, em qualquer lugar onde se esteja.

Já estamos no mundo em que redes sociais, com seus algoritmos, é que ditam, direcionam, censuram ou impulsionam posts, textos, subtextos e mensagens trocadas entre empresas, governos, corporações e pessoas.

Tempos estranhos, em que todos são levados a saber, por caminhos tortuosos, que cada um deve achar significado nos sofrimentos por que passa —  e tendo o dever de glorificá-los.

Thomas Hobbes foi complacente e bonzinho, ao descrever o Leviatã — o Moloch estatal – que nos vigia, taxa, fiscaliza e atormenta.

Monstro de mil olhos eletrônicos, que se torna a cada dia mais invasivo, mais coercitivo e totalitário, mesmo nas sociedades ditas humanistas e democráticas.

Aconteceu tragédia pior do que a queima obrigatória de todos os livros, profetizada pelo escritor Ray Bradbury, em seu livro “Fahrenheit 451”.

Bibliotecas foram preservadas, em toda parte, mas a tragédia é ter restado tão pouca gente disposta a os ler.

De Henry Miller e Hemingway as feministas não gostam, mas ninguém se importa mesmo. Não irão para a fogueira, mas ninguém, nem mulheres nem homens, vai tirá-los das estantes.

Brasigóis Felício, escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras, é colaborador do Jornal Opção.

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