Três contos de Carlos de Edu Bernardes

O hospital

Eu moro perto de uma estação aonde chegam e partem pessoas todos os dias: é um hospital imenso. Às vezes, à noite, olho pela janela, acordado que estou pela minha inseparável companheira insônia, e vejo sempre muita movimentação no seu interior. Em meio a luzes quase opacas não é difícil imaginar que ali alguém está morrendo, ou nascendo.

É um hospital público, o seu expediente é ú­nico e sem pausas. Nele, muitas vidas en­tram na fila para se extinguirem pois, tão ca­rentes de médicos e medicamentos, quando vêm até um hospital dessa natureza é porque a saúde já suportou de tudo. E desoladamente, já vi acontecer, algumas abandonam de vez e silenciosamente seus corpos debilitados ali mesmo no corredor, porque morrer não espera.

Por outro lado há vidas que entram na fila para dar à luz outras vidas. Instantes em que prorrompem novíssimas e frágeis presenças, delicadamente transportadas pelos mesmos corredores, porque nascer também não espera.

Nalgumas vezes, percebo crianças já crescidinhas nas janelas esboçando um tchauzinho entre um sorriso e uma careta, inocentes das coisas que acontecem ao seu redor. Vívidas, porque protegidas pelas suas infâncias, dão a impressão de estarem no assento traseiro de um carro de passeio ou simplesmente indo para a escola num banco de ônibus. Mas, naquele hospital público e superlotado, elas não me parecem estar repetindo esses gostosos momentos.
De repente, pressinto algo que, apesar de corriqueiro, ainda me soa incomum: é quando os quartos estão vazios exalando um previsível anúncio da chegada de alguém, que já sem sorrisos, aguardará serenamente a sua partida.

Por isso, poucos entram nos quartos e saem pela mesma porta que entraram. E assim, voam madrugada a fora pelas janelas, pelos vãos dos prédios, leves e tranquilos e, talvez, até se espantem ao me notar concentrado em algo que não posso ver…

Daí eu sempre me pergunto: serão somente pessoas todos aqueles seres de branco a transitar por aqueles recintos? Serão apenas doentes, moribundos ou enfermeiros a caminhar para lá e para cá, alguns tão levemente, outros tão pesadamente, mas todos se movendo incansáveis e resignados num mesmo lugar?

Ademais, flutuarão perto da minha janela as alminhas puras de bebês desembarcando ali tão cheias de esperanças? Subirão as almas de pessoas, agora isentas das suas histórias, bebendo o espaço numa outra dimensão? Creio que Fernando Pessoa estava certo ao escrever: “A vida é uma estrada. Só porque você fez uma curva e ninguém mais o vê não quer dizer que você deixou de existir”.

A partir de hoje colocarei flores na minha janela.

Uma palavra

Estava eu no rio quando uma palavra boiou perto da sombra de uma árvore. Era uma palavra feia, embolada, tinha um cheiro de coisa estragada, era viscosa e escura.

Pelo jeito, ela nada sabia sobre córregos, bichos e matas, porque por onde passava, e ao seu redor, era apenas água, lambari e planta se sujando e pronto.

De todas as palavras do meu parco repertório e de muitas pronúncias saltitantes no vilarejo, essa era ruim de falar e tinha um semblante ambicioso e mau, como se suas letras conspirassem macular também o dicionário.

Sob o sol e o céu ainda azul, pressenti a sua certeza em desfilar altiva por cursos d´água e em dançar inconteste pelos ares e pétalas. Ao mesmo tempo, nenhum esboço de receio em ser impedida por humildes e simples ribeirinhos, homens de bem. Pelo contrário. Sendo abusada e apadrinhada da ganância, não exalavam dúvidas sobre sua presença em todos os lugares daqui para diante.

Incrédulo, e como quem agradece to­dos os dias por esse abençoado mundão de meu Deus, além de respeitoso com as poucas palavras conhecidas, eu a segurei pelos lados e tentei clarear suas sílabas oleosas de substantivo. Porém, nesse instante e com espanto, constatei que ela não ficaria limpa e sim que contaminaria os panos da minha canoa e os corpos dos meus peixes sadios de natureza.

Assim, com o seu rastro turvo nas mãos e nas roupas, estremeci ao vê-la facilmente retornar para as águas. Logo, outras do mesmo álbum de sinônimos vieram acompanhá-la.

Agora, de cada cin­co palavras ditas nos arredores e nos açudes, três são ‘poluição’ e as ou­tras duas, pelo visto e sentido, nem multiplicadas por mil acabarão com ela não.

A casa dos meus brinquedos antigos

Eu me mudei. E, por uma dessas coincidências imobiliárias, ou simplesmente por coisas que têm que acontecer, o meu novo lar é vizinho da casa dos meus brinquedos antigos.
Ontem, percebi que eles me reconheceram, pois me olharam demoradamente pela janela quando cheguei tarde e cansado do trabalho.

Agora, dá quase para apalpar a surpresa de cada um deles ao me no­tarem assim tão sério, tão grande, tão opaco, tão gordo. E talvez de­du­zam, resignadamente, que acabei me transformando em mais um a­dulto com um arremedo de rosto. Quem sabe até sofram por esses, nós, seres que jogam fora pipas, ca­sinhas e bolas de gude – ou vidros de maionese para colocar um pe­que­no peixe. É… Toda infância deveria ter um céu e um riacho à prova de esquecimentos, ou exigir alarme no despertador para serem visitados.

Vejo que a casa dos meus brinquedos antigos não tem mais, nos seus espaços, a sensação de que irmãos e amigos vão chegar a qualquer momento e espocar sorrisos e assovios. Suas brincadeiras e pantomimas, adubos imprescindíveis para qualquer estágio da vida, devem ter ficado de vez nas fotos amareladas de álbuns perdidos e jamais reclamados, ou regularmente encaixotados. Bi­sonhamente, alimentos assim não estão nas televisivas e sérias regras de nutrição…

Por isso, muito menos há indícios de que os meus brinquedos antigos possam vir a pertencer ao meu mundo atual. Aqui, na nova casa, com horários tão rígidos, há home-banking, ao invés de um vira-lata que necessita de um banho e carinho. Casas de adultos não brilham o bastante pa­ra guardar um jogo de queimada, nem para continuar pulsando a lembrança do primeiro toque na mão de uma garota durante uma matinê do Jerry Lewis.

E lá, do outro lado da rua, reverbera, por fim, a constatação de que não há mais o que fazer sobre os meus primeiros e fascinantes espantos.

Certos de não haver resquícios de criança nos meus olhos, os meus brinquedos antigos recolhem-se calmamente, sem interesse qualquer pelos lugares por onde tenho andado.

Carlos Edu Bernardes é graduado em Filosofia e autor do livro de contos “Minhas Mulheres, Essas Ventanias”.

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Carlos Edu Bernardes

Obrigado por publicar, Carlos Willian! Abraços!

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