Tradução do poema “The Raven”, de Edgar Allan Poe

O escritor Edival Lourenço aventura-se em fazer aquilo que nomes como Machado de Assis, Fernando Pessoa e Milton Amado fizeram: verter para o português o célebre poema do autor norte-americano

Edival Lourenço junta-se a Fernando Pessoa e Machado de Assis na condição de tradutor de “The Raven”, de Edgar Allan Poe | Foto: Divulgação

Edival Lourenço
Especial para o Jornal Opção

Na meia noite febril, clima funesto e sombrio
Lendo antigos alfarrábios de seita paranormal
Na madorna quase ao sono, um som que mal dimensiono
Como fosse algum gnomo no meu portal, toque! Toque!
O ruído me dá choque, quem seria e… toque! Toque!
— Algo do bem ou do mal?

Ah!Até hoje bem me lembro. Um pleno agosto em dezembro
Em que o abajur avoengo jorra sombra sepulcral
Me injeta pavor na veia, no que minh’alma incendeia
Pensei: Veio para a ceia o fantasma de Lenora!
Quanta hesitação agora! O além devolveu Lenora.
Será por bem ou por mal?

A cortina em fluidez, em macabra gravidez
A me pregar uma peça com seu truque fantasmal
Um susto paralisante, feito um inferno circundante
Mas eu buscava um calmante um lenitivo qualquer:
Um amigo (homem ou mulher) a pedir coisa qualquer
É só isso, nada mal!

E finalmente me ergui, ressabiado qual sagüi.
“Me perdoe aí quem seja, não fiz esperar por mal
É que eu estava entretido, em leitura de tempo ido
O som só me foi sentido, quando reparei a porta
No marasmo da hora morta.” E quando entreabri a porta
Escuridão infernal!

Espreitei a noite escura, não vi nada, que loucura!
Aquela noite aziaga sob o torpor hibernal
Horrorizado em pavor, ante o miasma e o negror
O nome do findo amor então sussurrei: Lenora!
E uma voz assustadora soou em eco: Lenora!
Depois, silêncio total!

Edgar Allan Poe (1809 – 1849), autor do poema “O Corvo” | Foto: Reprodução

Com a alma febricitante, quis transpor aquele instante.
Logo o ruído recomeça, quase arrombando o vitral
Eu penso: ah! não é nada, só o vento em debandada.
Por que a alma apavorada? É vento de mau agouro
Que quer me aplicar desdouro. Só vento de mau agouro
Que não me faz nenhum mal.

Abro a janela e em revoada, vem entrando a alma-penada:
Um litúrgico urubu, vindo de era imemorial
Qual lorde passa pimpão, verdadeiro assombração
Sobre o busto pousa então, uma escultura de Cristo
Com seu humor de Mefisto, sobre a escultura de Cristo
Se empoleirou, não faz mal!

Miro a ave de escuro manto, malcheirosa, sem encanto,
Bicho tosco avariado, até rio do animal
Sacrificado urubu, mal emplumado, mal nu,
Entre altivo e jururu. Um embaixador do inferno
Promotor do azar eterno, sócio emérito do inferno.
Crocita o urubu: foi mal.

Encabulei com a fala, duma ave daquela iguala
Um urubu infeliz, me retorquindo triunfal
Pois nunca vi criatura, tão metida na postura
E com sua caradura contrapondo o que eu dizia
Postulando primazia no argumento que eu dizia
Com arremate: está mal.

Outra coisa não falava, na escultura ali assentada
Sem dispor de outro roteiro a mascote funeral
Tão parada quanto um cacho, sem mover um só penacho.
Já cansado de esculacho, digo: por favor, vá embora.
Já é demais a demora, por amor, vá embora
Grasna o urubu: nem por mal!

Com aquele bicho anexo, fico ainda mais perplexo
É tão pouco o que ele diz e me faz débil mental
De um vocabulário mínimo, mas num tom um tanto cínico
Que parece sem equívoco, lhe ensinou antigo dono
Rebatê-lo não há como, com refrão do antigo dono:
Nunca, nunca foi tão mal!

E perante o bicho escroto ensaio um riso maroto.
Fiz girar minha poltrona, diante da ave no umbral
Qual será o secreto escopo, deste encontro assim tão oco
Que vai me deixando louco este urubu tão sinistro
Pressão maior não resisto, e então o urubu sinistro
Grasna de novo: está mal.

Com seu olhar fulgurante a me queimar o semblante
Me refugio no assombro de pensamento abissal
No meio da madrugada, com minh’alma incinerada
E sem entender mais nada, sob a luz que não lilás
Momento eterno e fugaz, sob a luz que não lilás.
E o urubu me diz: vai mal!

O tempo ficou avesso, em suspenso pó de gesso
Como fosse tosco incenso, de algum atroz arsenal.
Urubu desventurado, mafioso depravado
Vê se vai pra outro lado, se não me trouxe Lenora.
Ela é o bem que quero agora, minha querida Lenora.
E diz o urubu: vai mal.

Oh, profeta, ser das trevas! Fruto de forças malevas
Portador de sortilégio e tormenta atemporal
Servo da corte maldita, volta pro mundo que habita
E não mais aqui crocita. Mas antes, diga a verdade
Onde está minha beldade? Imploro pela verdade.
E o urubu me diz: vai mal.

Oh, bifronte, ser horrendo, outra coisa não desvendo
Você é tudo de péssimo, nada que sirva a um mortal
Mas se tem um bem restante em seu coração pulsante
Que traz de mundo distante, me conte algo de Lenora
Meu bem-querer desde outrora, me conte algo de Lenora!
E o urubu me diz: vai mal.

E nesta hora lhe despeço, ser monstruoso e funesto
Pegue a sua tempestade, sua corrente em espiral
Nem deixe aqui sua pluma, não fique mesmo nenhuma
Bicho de asco e verruma, alce voo inferno afora
Suma daqui sem demora, alce voo inferno afora
O impassível diz: vai mal!

Sem se mexer, tenebroso, um amuado revoltoso
Empoleirado no cristo, inerte estátua de sal
Bago de fogo em cada olho, anjo de horrendo refolho
Lá dos infernos o estolho, sob a luz sua sombra estira
Sobre minh’alma que expira, sob a luz sua sombra estira.
Por fim suspira: vai mal!

Edival Lourenço é romancista, contista e poeta. Presidente da União Brasileira dos Escritores – Seção Goiás (UBE – GO).

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

ADALBERTO DE QUEIROZ

Bravo!