Tradução de poemas de Miguel D’Ors

O leitor perceberá que cometi algumas liberdades. Adaptei, suprimi, refiz a métrica. As poesias traduzidas pertencem aos seguintes livros: “Hacia outra luz más pura”, e “El misterio de la felicidad”

Miguel d’Ors, um dos mais importantes poetas espanhóis da segunda metade do século XX

João Filho
Especial para o Jornal Opção

Miguel d’Ors nasceu em 1946, em Santiago de Compostela, Espanha. Publicou vários livros de poesia, ensaio e estudos críticos. De poesia são mais de 13 livros. O último Manzanas robadas, foi lançado este ano. Sua linhagem biográfica é a da mais nobre do pensamento espanhol: filho do jurista Álvaro d’Ors e neto do escritor Eugenio d’Ors.

Na poesia de Miguel d’Ors, o domínio técnico das formas fixas e da métrica da tradição espanhola, sem jamais cair em rigidez formal, são renovados através da temática elegíaca, biográfica, religiosa, política etc. Numa das antologias dos seus poemas El misterio de la felicidad, 2009, Ana Eire, diz que: “Não parece necessário esclarecer criticamente uma poesia que se entende de primeira, mas a poesia de d’Ors cresce a cada leitura e é bom saber adiantadamente que estes poemas tão fluidos, tão naturais, ganham em profundidade se voltamos a eles. Eu não entendi sua poesia na primeira vez que a li e não a entendi porque parei no mais superficial: a infância idealizada, a má relação consigo mesmo, o desejo de evasão ou aventura, o sentimento de infelicidade. […] Parece uma poesia sem mistério. A leveza dessa poesia é enganosa: possui a limpidez do mais clássico embora esteja impregnada do peso – enorme – de nossa modernidade.”

O leitor perceberá que cometi algumas liberdades nos poemas traduzidos aqui. Adaptei, suprimi, refiz a métrica etc. Os poemas pertencem aos seguintes livros: Hacia outra luz más pura, de 2003, e a antologia citada acima – El misterio de la felicidad, ambos pela editorial Renacimiento.

O lirismo de Miguel d’Ors na versão de João Filho

Nostalgias amazônicas
Quem dera eu fosse um Yanomami:
sem roupas e inocente, viveria
longe de calendários e mentiras,
em paz com os vizinhos e com chuvas,
os deuses e meu corpo. Os meus únicos hábitos:
as espessas folhagens gotejantes
transpassadas por cantos de cores vivíssimas
– súbitas como flechas!
Sem invejas nem consumo,
ninguém me roubaria. Em uma esteira,
tecida com cascas e fibras,
fecundaria a minha índia sob
o olhar propiciador das estrelas.

Ah… Mas – nada é perfeito – nenhuma dessas coisas
teria para mim o menor interesse.

Nostalgias amazónicas
Quién fuera un yanomani:
desnudo e inocente, viviría
fuera de calendarios y mentiras,
en paz con los vecinos y las lluvias,
los dioses y mi cuerpo. Mis únicas costumbres
serían los espesos follajes goteantes
traspasados por cantos de colores vivísimos
rápidos como flechas.
No envidiaría, no consumiría,
nadie me robaría. En una estera
tejida con cortezas
fecundaría a mi fiel india bajo
la mirada propicia de los astros.

Pero — nada es perfecto — ninguna de esas cosas
tendría para mí el menor atractivo.

Tudo aconteceu para que você nascesse
E para a sua vida quantas vidas
foram necessárias… Pense nos quartos, nas festas,
nas guerras, nas cidades,
tudo que é secretamente seu ontem,
a confabulação milenar que fez
que você fosse.
O seu pai – Teruel, Brunete, o Ebro… –
lendo nessas trincheiras
hexâmetros desfeitos pelo fogo
de morteiro, também seu avô nas difíceis
alturas de Cerdedo ou Pedamúa
com um embornal convulso de perdizes,
teu bisavô em um entardecer
melodioso em Cuba, olhando o mar do Caribe,
vendo, porém, a doce Catalunha,
“Ferro Velho” pousando prum daguerreótipo
com leontina e cartola e puro e guarda-chuva,
e os Peix, os Vidal, os Estévez, os Orge,
os Pérez, os Rovira…, todos, com seus ofícios,
suas barbas, mulheres,
seus males, dissipando-se no tempo,
nesse fosso comum do esquecimento…
E avança,
mas penetre na névoa desse séculos,
suponha ser um peregrino
adivinhando Astorga, além, na madrugada,
imagine um mouro ferido, vendo a fuga
da poeira feroz do seu exército,
olhe um homem que estira, em uma rocha,
o couro fedorento de uma loba,
veja os centuriões resplandecentes
em torno da fogueira, e Aníbal e Cartago,
e a mulher sangrando, que arqueja
parindo sobre um feixe de feno, e o hirsuto
pintor de renas e bisões que por machados
médios troca uma fêmea… e tudo aquilo que teve
que acontecer pra que você nascesse
desde que aquelas Mãos amassaram
o barro primitivo. Modelado
também para que dele, esta manhã,
brotasse este poema.

Todo ocurrió para que tú nacieras
Para tu sola vida cuántas vidas
hicieron falta… Piensa las alcobas, las fiestas,
las guerras, las ciudades,
todo lo que es tu ayer secretamente,
la confabulación milenaria que hizo
que tú fueras.
Tu padre –Teruel, Brunete, el Ebro…–
leyendo en la trinchera
hexámetros desbaratados por el fuego
de mortero, tu abuelo por las arduas
alturas de Cerdedo o Pedamúa
con un morral convulso de perdices,
tu bisabuelo en una atardecida
melodiosa de Cuba, mirando el mar Caribe
pero viendo la dolça Catalunya,
“Ferro Velho” posando para un daguerrotipo
con leontina y sombrero y paraguas y puro,
y los Peix, los Vidal, los Estévez, los Orge,
los Pérez, los Rovira…, todos, con sus oficios,
sus barbas, sus mujeres
y sus males, desvaneciéndose en el tiempo,
en la fosa común del olvido… Y avanza,
adéntrate en la niebla de los siglos,
suponte un peregrino
adivinando Astorga allá en la madrugada,
imagínate un moro que, herido, ve alejarse
la fiera polvareda de su hueste,
mira un hombre que extiende en una roca
la fétida pelleja de una loba,
mira los centuriones rutilantes
en torno a la fogata, y Aníbal y Cartago,
y la mujer sangrienta que jadea
pariendo en un brazado de helechos, y el hirsuto
pintor de renos y uros que cambia por seis hachas
medianas una hembra… y todo lo que tuvo
que suceder para que tú nacieras
desde que aquellas Manos amasaron
el limo primigenio. Modelado
también para que de él esta mañana
brotara este poema.

Rima
A Enrique García-Máiquez

Saí sem guarda-chuva, mas chovia
e com má intenção,
cheguei ao carro igual à Gil de Biedma
naquela ocasião

que eterniza na página 157
na primeira edição
d’As pessoas do verbo,
com invejável precisão.

E como todos os problemas,
segundo mostra a experiência, são
gregários, do lugar que surge um,
num minuto, se forma um batalhão,

estava ali, fechando a saída
mais tirada do que um baiano em gozação,
uma dessas peruas de encanador, de um bom f…
não o digo por boa educação.

Procurá-lo nas lojas – cada vez mais retado –,
e ficar de plantão
por quase dez minutos, vê-lo chegar, flertando ao celular,
por fim, ter que aguentar a frustração

de não ter dito a ele umas tantas coisas,
porque em pleno Dilúvio, e já tão tarde, então
com embaçados óculos me era quase impossível
enxergar o bom f… sim (sem perdão).

Abrevio o que segue: a marcha ré travada,
os engarrafamentos, sinais, um caminhão
de verduras que quase me esbagaça, e os guardas
perfeitamente piorando a situação.

Assim, cheguei muito atrasado ao compromisso,
e comigo toda uma inundação.
E não faltou a carta venenosa
que, por não sei que estranha maldição,

em casos semelhantes
na caixa dos correios nos espera de antemão.
“Que belo panorama”, já começava a dizer-me.
E, de repente, zás, a Inspiração;

sim, sim, o endeusamento, o furor, a mania,
a loucura divina da qual falou Platão
em umas puras páginas do Fedro
e em outras de Íon.

E eu embrulhado, ensopado, e, arre!,
carrancudo com tanta chateação.
A Musa, porém, não escolhe hora ou lugar,
e, aqui, estou, terminando feliz minha relação.

Feliz. Oh! Poesia, poder que nos permite
deitar todas as sombras fora do coração, e
de um dia que começa tão cacete
fazer uma canção.

Rima
A Enrique García-Máiquez

Salí sin el paraguas, y llovía
com muy mala intención,
así que llegué al coche igual que Gil de Biedma
en aquella ocasión

que eterniza en su página 157
la primera edición
de Las personas del
verbo con envidiable precisión.

Y como los problemas,
según demuestra la experiencia, son
gregarios, y en el sitio por donde surgió uno
al minuto hay formado un batallón,

allí estaba, tapando la salida
más chula que un gitano con bastón,
la furgoneta fontanera de un
no digo qué por buena educación.

Buscarlo por las tiendas –cada vez más calado–,
aguantar un plantón
de casi diez minutos, verle llegar, pelando la pava con el móvil,
y al fin quedarme con la frustación

de no haberle soltado cuatro cosas,
porque en pleno Diluvio, y ya era tarde, y con
las gafas empañadas me era casi imposible
verlr al muy… eso mismo (sin perdón).

Abrevio lo que sigue: la marcha atrás anfibia,
los semáforos locos, el atasco, el camión
de Albacete que casi me lamina y los guardiãs
empeorando perfectamente la situación.

Llegué tarde a mis cosas, por supuesto,
y conmigo, toda una inundación.
Y no faltó la carta venenosa
que, por no sé qué extraña maldición,

en casos semejantes
suele estarme esperando en el buzón.
“Fermoso panorama”, comenzaba a decirme.
Y de repente, zas, la Inspiración;

sí, sí, el endiosamiento, el furor, la manía,
la locura divina de la que habló Platón
en unas puras páginas del Fedro
y en otras del Ión.

Y yo con tales pelos, y empapados, y con vaya
cabreo de primera división.
Pero la Musa llega cuando y donde le place,
y aqui estoy, terminando feliz mi relación.

Feliz. Oh Poesía, poder que os permites
echar todas las sombras fuera del corazón
y de un dia que empieza tan coñazo
hacer una canción.

Bolero de aniversário
Quando iniciou toda essa história,
já não consigo me lembrar;
mas dá na mesma: “Quando se ama
ah… sempre temos vinte anos.”

Éramos jovens, muito loucos,
pois nossos gestos denunciavam.
Desobedientes aos preceitos
da prudência, bem…, nos casamos.

(Para que tudo harmonizasse
aquele marco incomparável
numa remota igrejinha e um
mês de julho dos mais paulistas.

Foi de verdade inesquecível:
ao padre e aos convidados
ainda hoje dói na memória
o feroz frio que passamos.)

Nossas reservas de futuro
também estavam bem abaixo
de zero, mas em sonhos éramos
mais milionários que Bill Gates.

Éramos tão ecologistas
e naturistas que já estávamos
chamando-nos papai, mamãe,
antes de haver passado um ano.

Ela era linda, eu bem bestinha,
e dois péssimos matemáticos,
assim que um dia, de repente,
um mais um, já éramos quatro.

E logo cinco e seis e nove,
cada vez maior o escândalo.
(E, se é verdade, os sentimentos
são os mais revolucionários.)

O povo que é mui generoso
com seus conselhos, sempre dando-nos
ânimo: — “Filho, neste mundo!,
apartamentos são tão caros,

como vão pagar os estudos,
e o problema demográfico”,
no final de todas as contas
nós dois estávamos ferrados.

Tinha o povo suas razões:
pois claro está que era insensato
tudo isso, e a bem da verdade
poucas e boas nós passamos;

e houve grunhidos, maldições,
lágrimas, gritos e insultos.
(A vida mais se parece
a um dramalhão mexicano).

Mas, apesar de tantas coisas,
atravessamos esses anos,
aqui, está hoje aquele amor;
cheio, é certo, de esparadrapos,

mas o mesmo daqueles sonhos
radiantes (algo distraídos);
o mesmo…, contudo, hoje o tempo
multiplica por vinte e quatro.

Bolero de aniversario
Cuándo empezó toda esta historia,
ya no consigo recordalo;
pero es igual: “Cuando se ama
siempre se tienen veinte años”.

Que éramos jóvenes y locos
lo proclamaban nuestros actos.
Desobedientes a las reglas
de la prudência, nos casamos.

(Para que todo armonizase,
en el incomparable marco
de una remota ermita y un
febrero de lo más navarro.

Fue de verdad inolvidable:
al cura y a los envitados
aún hoy les muerde en la memoria
el feroz frio que pasamos.)

Nuestras reservas de futuro
también estaban por debajo
del cero, pero en sueños éramos
Onassis juntamente y Niarchos.

Éramos tan ecologistas
y naturistas que ya estábamos
llamándonos papá y mamá
antes de haber pasado un año.

Ella era guapa, yo algo bobo
y los dos malos matemáticos,
así que un dia, de repente,
uno más uno éramos cuatro.

Y luego cinco, y seis, y nueve,
y cada vez mayor escândalo.
(Si son verdad, los sentimientos
son lo más revolucionario.)

La gente, que es muy generosa
con sus consejos, siempre dándonos
ánimos: que cómo está todo,
y que los pisos son tan caros,

y que pagarles los estudios,
y que el problema demográfico,
y al final de todas las cuentas
los dos estábamos chiflados.

Lo que es razón no les faltaba:
pues claro está que era insensato
lo nuestro, y es verdad que a veces
aún más que negras las pasamos;

y hubo gruñidos, maldicones,
lágrimas, gritos y portazos.
(La vida es lo más parecido
a un culebrón venezolano.)

Pero, a pesar de tantas cosas,
hemos podido con los años,
y aquí está hoy aquel amor;
lleno, es verdad, de esparadrapos,

pero el mismo de aquellos sueños
radiantes (y algo despistados);
el mismo, pero que hoy el tiempo
multiplica por veinticuatro.

João Filho é poeta e tradutor. Autor do livro de poesias “Auto da Romaria” (Mondrongo, 2017).

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ADALBERTO DE QUEIROZ

Bravo!