Tradução de “O Carrilhão do Breguet”, conto do russo Yuri Kazakov

Nesta edição, o Jornal Opção publica conto do russo Yuri Kazakov (1927-1982), traduzido do francês exclusivamente para o Opção Cultural por Irapuan Costa Junior

De antiga e famosa fábrica, Breguet é um relógio de bolso. Alguns de seus modelos dispunham de um minúsculo carrilhão, que soava as horas, quando se apertava um botão | Foto: Divulgação

De antiga e famosa fábrica, Breguet é um relógio de bolso. Alguns de seus modelos dispunham de um minúsculo carrilhão, que soava as horas, quando se apertava um botão | Foto: Divulgação

De Yuri Kazakov

Traduzido por Irapuan Costa Junior

Vinha longe o dia, os carros de lixo balançavam e guinchavam ainda na penumbra, apenas algumas poucas lojas abriam rangendo suas portas e venezianas; as espaçosas janelas dos palácios e das mansões privadas permaneciam frias e sem vida.

Mas pelas ruas escuras, marcadas em alguns pontos pelo halo desbotado de um revérbero, a malta dos pequenos funcionários já se apressava. Nos subsolos e nos sótãos, nas casas miseráveis, degradadas, se acendiam luares fracos, amarelados, cujos reflexos incertos vinham cair sobre a neve, através dos vidros cobertos de gelo, enquanto, seguindo todos a mesma trilha, e todos em silêncio, os primeiros corvos zebravam o céu lilás. E vibrava acima da cidade, perto e ao longe, claro, cheio, e depois distante, apenas perceptível, unido e bem ritmado, o canto dos sinos. Soavam as matinas.

Foi preciso esperar as dez horas para que enfim aparecesse o sol; ele se levantou docemente, atrozmente frio e brumoso. Foi preciso esperar as dez horas para que a abóbada e as colunas de Santo Isaac se clareassem de um prateado rosa, que a fortaleza de São Pedro e São Paulo e sua seta sem brilho se cobrissem de bruma, que o Cavaleiro de Airan se endireitasse num movimento forçado, que emergisse o Palácio de Inverno e que projetassem sua sombra sobre a praça do Palácio os seis corcéis do arco do Grande Estado Maior.

Dir-se-ia que o sol havia se levantado apenas para se certificar de que a soberba capital não havia desaparecido, não havia desmoronado durante a noite. Constatando que ela lá se achava como sempre, ele havia logo se cercado de um rendado de nuvens. Assim começava esse dia de inverno em São Petersburgo, deslumbrante na manhã e logo ensombrecido.

Nesse dia, Liérmontov havia decidido ir até Púchkin.

Ele sofria há tempos a lassidão mortal de uma vida sem sentido. Além disso, que teria para amar?

As paradas militares e as trocas de guarda? Os bailes da corte, a saída das damas e cavalheiros?

As comendas que caíam regularmente nas datas solenes do aniversário do soberano, do ano novo e da Páscoa, as promoções dos regimentos da Guarda, a indicação das moças como damas de honra e dos rapazes como Kammerjunkers1?

Não propenso à cadência dos exercícios, ao som agudamente triste das flau­tas, ao rufar dos tambores, à voz mo­nótona dos comandos, à fúria fingida dos generais, ao treino e cheiro de suor dos cavalos na arena, às farras de solteiros dos oficiais, tudo isso já provara por uma existência.

E mais ainda: mulheres jovens e menos jovens, com os ombros nus e empoados, cheirando cremes de beleza, perfumes e odores de axilas, jogos de cartas, bailes com sua frenética movimentação, amor venal desesperadamente cínico, enterros com sua tristeza afetada. E seria assim por toda a vida.

A única coisa que Liérmontov ainda amava, com ardor e sofrimento, era a poesia. E o rei da poesia era Púchkin; não esse Púchkin inquieto, com a fronte já calva, que se via nas festas mundanas, e de cuja mulher se falava mal, nestes últimos tempos, mas do outro Púchkin, aquele em quem era impossível pensar sem que lágrimas lhe viessem aos olhos.

Liérmontov sentia uma inveja doentia daqueles seus conhecidos e enrubescia à citação de seus nomes. Ele também poderia ser um conhecido, e há tempos. Mas ele não desejava uma simples apresentação mundana. Ele almejava mais: queria ele próprio ser visto como também poeta, mas ainda não podia, não ousava, não se sentia preparado.

Mas então hoje, enfim! Uma voz profética lhe havia soprado: “Vai!” – e um sentimento misto de alegria e de medo o havia arrebatado. Havia, em sua decisão algo de estranho, como uma mola de aço que acaba de se distender com grande ruído claro, de relaxar num assovio imperioso; ele havia sentido no coração um impulso violento e quente: tinha que ir!

E, ainda que sofresse, ele havia se levantado, havia dado a ordem de atrelar seus cavalos, saltado pela neve e no frio até seu trenó e partido a trote pela estrada de seu destino.

Esse encontro tinha que se realizar e nada parecia poder impedi-lo; contudo, ele não deveria se dar em seguida – ainda não era hora – mas depois, pela tarde.

Por hora – faltava uma hora para o meio dia – emagrecido pela resolução e pela febre secreta que o consumia e punha manchas vermelhas em suas bochechas, Liérmontov se encontrava no Dumay, o restaurante situado na esquina das ruas Gorokhovaia e Morskaia.

Ele ali havia chegado às onze horas da manhã, coberto de neve e rosado de frio. Tão logo adentrou, e tirou seu capote, sentiu-se envolvido do perfume quente dos molhos, dos guisados, dos vinhos e do tabaco do Oriente. Pela porta envidraçada, ele podia ver a luxuosa sala de pequenas janelas ovais, os guardanapos engomados, os garçons imponentes, o brilho dos cristais, o ar azulado de fumo e ouvir a vaga das conversações.

— Por aqui, monsieur, se faz favor. Há tempos não temos a honra de sua presença. Seus amigos estão em sua sala particular, disse o maître, que o precedia com um ar paternal.

Liérmontov, enquanto enxugava seus cílios, supercílios e bigode úmidos de neve, arranjava nos ombros sua pequena pelica, um leve tremor nas pernas metidas em seu estreito culote de montaria azul escuro, fazendo tinir suas esporas, contentando-se de uma inclinação ou um sorriso fugaz, quando cumprimentado. O maître abriu uma porta, afastou uma cortina de veludo, dobrou-se em dois, e Liérmontov entrou.

— Maiochka! – gritaram em coro os hussardos – então é você?
A sala particular estava cheia de fu­maça e resplandecia à luz dos candelabros. Lá estavam Mongault-Stolypine e dois ou três outros hussardos. Todos fumavam, tinham os colarinhos desabotoados, os rostos congestionados e os olhos brilhantes.

Percebendo Liérmontov, o elegante Mongault saltou, e foi beijar seu rosto gelado.

— Você já tem permissão de saída? Perguntou com um ar bonachão. Senhores, deem lugar para ele. Que quer beber?

Todo mundo se agitou, pediu-se champanhe, mais velas e um ca­chim­bo. Um pequeno hussardo louro, de olhos azuis salientes bradou:

— Maiochka! Pensamos em ir à vila dos ciganos, esta noite, ouvir a Stiocha, que vai cantar. Ela é maravilhosa! E, franzindo as pálpebras e sacudindo a cabeça:

— Eu morro! Você vem, Maiochka?

— Eu vou a qualquer lugar, mesmo ao diabo! Respondeu apressadamente Liérmontov, enquanto tomava o cálice de Château Lafite que lhe entregava Mongault. A menos que a febre não me obrigue a ir para cama de agora até a noite.

— Conversa! Falou com voz rouca um hussardo moreno, melancólico, soprando uma nuvem de fumo. Eu também estou febril, mas não irei para a cama, a menos que leve comigo uma cigana! Há-há.

Nisso, todos tomaram um gole de vinho, tragaram profundamente seus longos cachimbos turcos enquanto os olhares assumiam um brilho mais intenso e continuava-se a falar das mulheres, o que, quando solteiros se reúnem, pode se prolongar ao infinito.

À primeira onda de alegria passada, Liérmontov se sentia presa de um mal-estar, do tédio, da solidão. Suspirou e baixou os olhos.

— O que lhe aflige? – perguntou Mongault, agora com a fisionomia grave, olhando Liérmon­tov diretamente nos olhos, sem deixar, contudo, de estar involuntariamente atento ao que diziam os hussardos. Você ainda está sofrendo?

— Não, é simplesmente que tenho pensado muito, ultimamente – disse Liérmontov a meia voz.

— Há-há! – disse o hussardo moreno melancólico, que havia ouvido. Um hussardo não deve pensar. Tudo fica a critério da sorte. Quando a sorte quer, a gente quebra a banca. O amor é também uma questão de sorte. – Agora, ele se dirigia a todos os companheiros. — Bebamos à sorte!

— À sorte?

Liérmontov os olhou a todos, em volta:

— Quem pode garantir que nossa vontade…

— Mais uma vez, sua filosofia! – disse com ar de aflição o hussardo de olhos arregalados. Você está ficando impossível, Maio­chka! Será que você deixou de gostar das mulheres? Hein?

Todos riram, e Liérmontov também.

— Não, não há como ficar sério um minuto no meio de vocês – disse, levantando alegremente seu bigode sobre seus dentes reluzentes. Deem-me um cachimbo, há tempos que não fumo… E uma taça de champanhe! Ah, Mongault, acrescentou, passando rapidamente entre altos e baixos, você não sabe como estou feliz de lhe ver! Sonhei com você esta noite. Mais tarde lhe conto. Aconteceram-me várias coisas estranhas e não sei mesmo que caminho tomar: se o da libertinagem, ou se o da irracionalidade. Mas hoje, um e outro levam ao mesmo destino. Então, senhores, vamos às ciganas essa noite?

E pôs-se a conversar e a rir, tornando para cada um seu rosto jovem, abriu seu colarinho, bebericou seu vinho, e enviou ao teto anéis de fumaça azulada de seu cachimbo.

Russo de Pyatigorsk, Mikhail Liérmontov foi um dos grandes poetas e romancistas do país | Foto: Divulgação

Russo de Pyatigorsk, Mikhail Liérmontov foi um dos grandes poetas e romancistas do país | Foto: Divulgação

As velas tremeluziam, o fogo flambava e crepitava na pequena chaminé, e Liérmontov saboreava com um prazer de doente essa luz e esse calor. Num piscar de olhos ele havia se inteirado de todas as novidades do regimento, o que havia dito o grão-duque anteontem, o que se apresentava e o que seria apresentado na Ópera. Num piscar de olhos ele havia se imiscuído naquela conversa aberta, a fazer suas intervenções habituais, com o riso agressivo que lançava, inclinando para trás a cabeça.

Subitamente, lembrou-se de Púchkin e parou bem em meio a uma frase. Lançou um olhar furtivo à janela, sacou seu Breguet2 e apertou o botão de despertar. O Breguet soou as duas horas. Liérmontov se ergueu.

— Por que você se vai? – gritaram os hussardos.

— Impossível, meus senhores, tenho um compromisso.

— Que diabo! – praguejou Mongault com inveja. Uma nova paixão? Onde você encontra tempo?

— Uma velha paixão, muito ao contrário, falou Liérmontov e atravessou a sala em passadas rápidas, sem olhar ninguém, completou sua veste, pôs no lugar o sabre e se dirigiu para seu trenó. Sen­tou-se, não sem antes se envolver em seu capote, na traseira. O costado acolchoado do co­cheiro se distendeu, arredondou-se, os patins guincharam, qualquer coisa à frente bateu surdamente como um tambor, e São Pe­tersburgo correu a seu encontro.

Com seu elmo enterrado na cabeça, o rosto protegido pelo colarinho, aspirando o ar glacial e batendo as pálpebras, ele pensava em Púchkin. Sua imagem se apresentava tal e qual ele o havia percebido de longe, quando estava de guarda no Palácio.

As janelas brilhavam, os revérberos faiscavam em volta da coluna de Alexandre I e diante da entrada do Palácio. Carruagens e trenós chegavam sem cessar, e se lançavam com forte rangido na rampa pavimentada com madeira, paravam por alguns instantes diante da porta de entrada: algumas dessas viaturas eram novas, com seus grandes molejos, brilhavam em todos seus vernizes, enquanto outras eram velhas e baixas, mas confortáveis… As portas se abriam de par em par para o interior, para salas altas e profundas, resplandecentes de luz e calor, para dar passagem a generais aprumados, ministros plenipotenciários, velhas senhoras do tempo de Catarina II, senadores.

Mas eis que chega nova carruagem, de onde o Kammer­junker Púchkin, em pelica e cartola, ajudava a descer sua mulher, embrulhada em suas peles. Nessas noites, Natália Púchkin estava particularmente deslumbrante, jovem, de uma beleza a tirar o fôlego, mas Liérmontov pode-se dizer que não reparava nela, mas só tinha olhos para o pequeno homem ágil, de pele biliosa e lábios cinzentos. Tudo isso ele revia no presente, no rumor da cidade, no movimento elástico de seu cavalo, nos gritos do seu cocheiro, e um certo terror o invadia.

Enquanto isso, um combate se livrava no céu: nuvens cinzentas e sombrias ora se afastavam ora se juntavam, e a cidade se enchia de uma luminosidade ora cor de cobre, ora banalmente invernal.

Às duas e meia, Liérmontov chegou à casa de Madame Rostopkine. Era uma mulher jovem, esbelta, ombros nus, rosto fino, grandes olhos cinzentos, que ela deslocava de um objeto para outro com uma graça real e que permaneciam sempre inexpressivos, quer se pousassem sobre o canal do Neva, prisioneiro dos gelos, sobre seu mordomo, sua mãe, suas tias ou as velhas senhoras silenciosas que ela mantinha.

Era preciso que esses olhos caíssem sobre Liérmontov, e só sobre ele, para que tomassem um colorido mais profundo e tremessem, desfechando uma centelha se­creta. E Liérmontov estava, nesse instante, mais que nunca, moreno, feio, pequeno, curvado, cabeçudo, como se quisesse mostrar todas suas imperfeições. Estava particularmente nervoso, agitado, desenvolto, não parava em um mesmo lugar, caminhava, se imobilizava em frente às janelas, lançava um olhar sobre o Neva, coxeando sobre suas pernas tortas enfiadas em seu culote justo de montaria, e fazendo tilintar suas esporas.

— Sem dúvida você ainda não está recuperado de sua doença, para estar de tão mau humor, disse enfim Madame Rostopkine, com um suspiro. Fez alguma provisão de novos versos? Dê-me o prazer de recitá-los…

Liérmontov se aproximou de uma janela e contemplou o rio. Cruzou as mãos sobre o peito, levantou as espáduas.

— A senhora gosta de interpretar sonhos, condessa…, falou.

— Ora, cale-se! Interrompeu Madame Rostopkine. Vamos lá, Michel, vejamos esses versos? Na verdade, parece que você só veio aqui para me contrariar!

— Explique-me meu sonho, insistiu Liérmontov. Sonhei que abria uma porta e entrava em um grande salão, mas depois havia outro, e depois um terceiro… Eu os atravessava, esperando encontrar algo surpreendente, temendo a descoberta, mas, acredito, desejando-a com impaciência. Cheguei enfim a um quarto onde jazia um caixão. Vi que ali estava minha avó. Ela estava deitada no caixão e me olhava. Aproximei-me do caixão e falei com ela, não me lembro o quê, e ela se assentou e nos abraçamos. Ela me olhava avidamente, e eu beijei suas mãos geladas. Então ela também beijou minhas mãos. E eu senti que ela me mordia… Por que a senhora está pálida? – perguntou tranquilamente Liérmontov. É um sonho de mau augúrio?

— Estou convencida de que os maus sonhos são sempre sinal de felicidade. Mas você precisa me prometer que não vai mais me falar desses horrores, tão despidos de interesse. Eu lhe perdoo por uma só razão.

— Qual?

— Eu sei que você quer ver esse pobre Púchkin.

— E como a senhora sabe?

— Para que uma mulher adivinhe as coisas, não é preciso que ela ame, mas que seja amada.

— A senhora tem razão, condessa. Eu bem creio que o mundo seja malvado, mas hoje estou feliz como nunca estive – Liérmontov batia o pé. Eu estou mais alegre do que o primeiro bêbado que veio gritar na rua.

E ele se precipitou quase correndo escada abaixo, diretamente ao balcão do porteiro, que rescendia a café e a pelica.

Ainda que seu trenó sacolejasse e cambaleasse, a ele parecia por momentos que não avançava; contudo, o assento do cocheiro jogava de um lado para outro, o cavalo refugava e trocava as pernas; de cada lado, casas, vitrines brilhantes, fachadas e colunas, esculturas, cercas, pessoas, trenós, cartazes, deslizavam a toda velocidade; e seu cocheiro parava bem alto, para que ele descesse no cascalho, com uma alegria e volúpia animais, gritando como de costume: “Vai, Va-a-a-i”.

— Pare! Gritou ele ao cocheiro depois da terceira ou quarta visita, tirando do bolso seu Breguet. Vamos ao Moika3, na ponte Pevtcheski! Rápido!
Às cinco horas, ele chegava à casa da princesa Volkonski, sobre o Moika. Às cinco horas, ele chegava ao Moika. Às cinco horas, o rosto vermelho como o de um garoto, prendendo suas esporas nos tapetes, ele saltava de seu trenó defronte às grades da mansão Volkonski.

— Não há ninguém! – disseram.

— Ele volta logo?

Resposta:

— Logo.

Ele saiu de volta para o frio, enxugou o rosto com seu lenço; sentia um certo desconforto com a ideia de que a entrevista não se daria logo em seguida; subiu em seu trenó e partiu lentamente, pensando em casa de quem poderia ainda passar.

Mas, após ter deixado a ponte Pevtcheski e quase chegar à rua Millionnaia, deu bruscamente a ordem de parar e aguardar, desceu do trenó e começou a fazer as idas e vindas ao longo do canal do Inverno, que a cada passagem, o levava ao Moika.

Estava pensando na poesia?

Ou pensava que nessa noite iria a Pavlovsk, galoparia numa troika pela estrada deserta, e depois, em meio ao ardor rutilante das velas e das lâmpadas de azeite, ouviria cantar as ciganas?

O dia começava a morrer: tudo empalidecia, entorpecia, emudecia, e uma neve macia, lenta e rara, começou a cair. Liérmontov ultrapassou a rua Millionnaia e se dirigiu ao Neva. Divisou os muros negros do Ermitage, a linha reta, azulada pela neve e pelo gelo, do canal do Inverno que passava sob a ponte e se unia ao rio, um raio de adeus ao poente, cortado pela mancha escura de uma ponte e do arco do Ermitage.

Os funcionários da iluminação cumpriam já sua tarefa nas ruas. Luares apareciam nas janelas, cujo brilho alaranjado projetava sobre toda essa friagem e esse azul um aquecer e uma graça particulares.

O vento, que havia assoprado em várias ocasiões no correr do dia, estava agora completamente calmo. A neve caía na vertical, tão leve e tão seca, que não permanecia em seu elmo ou em seu capote, e se espalhava ao menor movimento.

De todos os lugares vinha o ranger da neve, o relinchar dos cavalos, os brados dos cocheiros, as vozes de seus passageiros, os risos das mulheres… Por duas vezes, alguém interpelou Liérmon­tov, que se absteve de responder, e mesmo de voltar a cabeça.

Ele voltou ao Moika e examinou a mansão Volkonski. Acen­diam-se as luzes do apartamento de Pú­chkin. A franja dourada de uma vela vogava de um cômodo para outro, enquanto crescia a luminosidade dos candelabros. Mas logo se baixaram os cortinados, as grelhas escureceram e não refletiram mais que o frio azulado.

Considerado o maior poeta russo e apontado como precursor da literatura moderna no país, Alexandr Púchkin nasceu em 1799, em Moscou, e faleceu em 1837, em São Petersburgo | Foto: Divulgação

Considerado o maior poeta russo e apontado como precursor da literatura moderna no país, Alexandr Púchkin nasceu em 1799, em Moscou, e faleceu em 1837, em São Petersburgo | Foto: Divulgação

Pela última vez, Liérmon­tov tirou do bolso seu Breguet, e com uma mão fria apoio no botão do carrilhão. O relógio soou às seis horas. No mesmo instante, Liérmontov percebeu uma carruagem negra que, vindo da praça do Palácio, atravessava a ponte Pevtcheski. Ele a reconheceu de imediato e estremeceu; faltou-lhe a respiração: era a carruagem do barão Heeckeren. Num piscar de olhos, tudo o que ele havia ouvido nestes últimos dias de um duelo iminente entre Púchkin e d’Anthes lhe veio à mente, e naquela carruagem, ele acreditou ver um ataúde.

Liérmontov se dirigiu para a ponte. Suas passadas, antes hesitantes, se faziam mais e mais rápidas, e ele tropeçava nas abas de seu capote.

Quando ele a atravessou, já o fez quase correndo. Mas chegou demasiado tarde: a porta da carruagem, sob a cobertura, estava já aberta, e as pessoas carregavam qualquer coisa, algo pesado e embaraçoso que as fazia arfar, e ouvia-se uma voz baixa, entrecortada, percebia-se uma luz fraca sob a cobertura. Afas­tando-se, as costas dessas pessoas permitiram ver, pelo espaço de um instante, recostada para trás, a cabeça balouçante de Púchkin, que tentava se levantar.

— O que aconteceu? – perguntou Liérmontov, como num sonho, a um oficial alto, que se arfava perto da viatura. Está morto? Fale, em nome dos Céus!

Danzas, a testemunha de Púchkin, nada respondeu.

— Ah! – disse Liérmontov com uma voz rouca e depois agarrou Danzas pelo reverso de seu capote e o sacudiu tão fortemente que seu chapéu quase caiu. — Ele está morto!

Só então viu o rosto de Danzas: ele chorava. Seu grande corpo sacudia de soluços, e no seu rosto, que estava desfigurado pela dor e que não tinha aparência humana, as bochechas tremiam.

Liérmontov se afastou coxeando. Antes de chegar à ponte, parou, pousou as mãos na balaustrada e seu olhar se dirigiu para baixo, para o Moika gelado. “Então foi isso! Parecia dizer uma voz dentro dele. Então foi isso!”

Ele prosseguiu seu caminho, atravessou a ponte, rumou para seu cavalo, deslizando sobre suas pernas enfraquecidas, os olhos cravados diretamente em frente. Uma vez, caiu e demorou bastante, em tempo e embaraço, para se levantar. Passava sem cessar sua língua sobre seu bigode, que estava frio e salgado. Seu cocheiro, encolhido sob a neve, ao ver sua expressão, saltou de seu assento e apressou-se a instalá-lo, a envolvê-lo nos pesados cobertores, com um ar preocupado.

— Para casa! – disse Liérmontov em voz baixa e rouca, apoiando-se no encosto de seu assento, e enviando pontapés furiosos à bainha de seu sabre.

O trenó partiu como uma flecha. Dir-se-ia que nunca havia galopado dessa maneira; contudo, não era suficiente, as luzes da avenida Nevski o ofuscavam, ele fechava os olhos e gritava sem descerrar os dentes, com uma voz a um só tempo raivosa e queixosa:

— Mais rápido! Mais rápido!

Ao chegar, sem mesmo um olhar para seu cavalo extenuado, coberto de um vapor glacial, apenas tirando o capote, ganhando seus aposentos com um andar apressado, arrancou a pelica das costas, sacou o colarinho e mergulhou no divã.

Ficou sem uma palavra em posição incômoda, pálpebras cerradas, respirando lentamente, e bem que não querendo, revivia toda a jornada: o restaurante Dumay, as visitas, os salões, as escadarias, as conversações, os risos, as ruas e ele mesmo, em meio a tudo isso.

Depois, lembrou-se do Palácio de Inverno, o som de uma música ao longe, que tocava sem cessar a monótona repetição de uma mazurca repleta de alegria artificial, o zum-zum das pessoas que iam todas no mesmo sentido, feito de um zumbido respeitoso e doce, de um frotamento leve, de um murmúrio de vozes.

Tradução de “O Carrilhão do Breguet”, conto do russo Yuri Kazakov | Foto: Divulgação

O escritor Yuri Kazakov nasceu em 1927, em Moscou, onde veio a falecer com 55 anos de idade. Também musicista, ele se dedicou à literatura, para além dos contos, também a novelas | Foto: Divulgação

E, entre essas pessoas, um entre elas e a elas semelhante, dando o braço a algo deslumbrante, pálido, brilhante, envolvida com arte em um tecido claro e vaporoso, e que era sua mulher, ia, como iam os outros à sua frente ou atrás, para o interior do Palácio, atravessando um sem número de salões, ia um Kammerjunker de rosto descontraído e lábios grossos de africano, cor de cinzas.

Nessa mesma noite, Liérmontov escreveu seu poema sobre a morte de Púchkin4.

Seis semanas depois, após a detenção na Ordonantzhaus, o julgamento na corte militar e a condenação ao exílio no Cáucaso, vestindo um uniforme de dragão brilhante de novo e usando um grosso boné de pele de carneiro, ele partia.

Os sinos do cavalo-guia soavam sob o arco da atrelagem, cidadezinhas vinham ao encontro, manchas negras ou cinzentas, ao longo da estrada, os ramos desnudos dos vimeiros tremiam ao vento. A estrada estava varrida pelas rajadas, a neve escurecida, granulosa. A kibita5 atolava, glissava pesadamente, lentamente.

Liérmontov deixava atrás de si uma São Petersburgo erma, por haver perdido Púchkin. Ele sentia a alma arrasada. Partia para longe, partia para ser, cinco anos depois, tal como havia acontecido com Púchkin, morto por um tiro de pistola em pleno coração.

1 Cadetes da Academia Militar em serviço na Corte.
2 Relógio de bolso, de antiga e famosa fábrica. Alguns modelos, como o de Liérmontov, dispunham de um minúsculo carrilhão, que soava as horas, quando se premia um botão.
3 Um dos canais de São Petersburgo.
4 Sabe-se que esse poema valeu ao seu autor a ira do poder.
5 Trenó coberto.

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