Salatiel Soares Correia

Especial para o Jornal Opção

Sob qualquer parâmetro de análise literária, a respeito dos livros com temática voltada para entender a realidade dos brasileiros que vivem nos sertões de um país como o Brasil, que tem grande parte de seu território imerso na área rural, sabe-se da importância das obras “Grande Sertão: Veredas”, de autoria do mineiro João Guimarães Rosa, e “Os Sertões”, do carioca Euclides da Cunha. (Vale a leitura do livro “Grandesertão.br — O Romance de Formação do Brasil” (Editora 34, 478 páginas), do alemão Willi Bolle.

Um leitor mais aguçado perceberá que o olhar de Guimarães Rosa sobre o sertão difere da visão que teve Euclides da Cunha — em “Os Sertões” — ao descrever o conflito de Canudos.

No sertão de Guimarães Rosa, tal como na “Odisseia”, poema do grego Homero, dá-se a travessia de personagens, como Riobaldo e Diadorim, por uma região desértica como é o caso do Liso do Suçuarão. A paixão reprimida entre Diadorim e Riobaldo é um tipo de sentimento que pode acontecer em qualquer lugar do planeta, e coisas como essa demonstram a universalidade de uma obra-prima. O sertão-mundo rosiano é construído por meio de uma linguagem absolutamente inovadora.

Itamar Vieira Júnior: escritor brasileiro publicado em vários países | Foto: Reprodução

Embora não tenha a mesma universalidade de Guimarães Rosa, o olhar de Euclides da Cunha não é uma travessia, e sim um conflito localizado, “Os Sertões” dele descrevem, ao Brasil litorâneo, um país composto por realidades dualistas: a do litoral e a do interior de um mesmo Brasil. O mundo euclidiano localiza-se na região de Canudos, no interior baiano. De lá, ele, na condição de enviado do jornal “O Estado de S. Paulo”, relata questões inéditas como a liderança mística de Antônio Conselheiro — que impôs inúmeras derrotas ao governo. Canudos foi, enfim, derrotado pelas tropas federais, sem jamais se render.

Posto isso, procurei, de forma absolutamente sucinta, pontuar os dois livros que se firmaram com o passar das areias do tempo como importantes clássicos voltados para o entendimento da alma sertaneja, que representa uma parcela significativa da sociedade nacional.

Ciente da importância de Euclides e Guimarães, entrei na livraria que costumo frequentar, a Leitura. Cumprimentei a funcionária que conheço há mais de 20 anos, por isso, sabe, como ninguém, meus gostos literários.

— Boa noite, Salatiel — disse ela.

— Boa noite, Beth. Alguma novidade? —indaguei.

— Tem, sim. Nós temos um livro que está fazendo o maior sucesso de vendas.

— Qual o nome? Quem é o autor?

— O livro chama-se “O Torto Arado”. O autor é um tal de Itamar Vieira Júnior.

— O tema muito me interessa. Tanto o autor quanto o nome do livro, simplesmente, nunca ouvi falar.

Assim recebi das mãos da Beth o livro e sentei-me no sofá para avaliar a qualidade da obra. Não precisei mais que meia hora para perceber que tinha nas minhas mãos um novo olhar sobre o sertão. Um olhar concebido por um autor desconhecido, ao menos para mim, naquele momento. “Torto Arado” tornou-se um sucesso de crítica e de venda no Brasil e no exterior. Ganhou os prêmios de maior prestígio da literatura de Língua Portuguesa: Jabuti e Oceanos. Vendeu mais de 800 mil exemplares e já foi traduzido para mais de 20 países.

Já respeitando bastante o livro, comprei para entender a história de um jovem autor que tem suas raízes fincadas naquilo que o país possui de mais verdadeiro: os Sertões.

Um novo olhar sobre os sertões

O novo olhar de Itamar Vieira Júnior sobre o sertão revela um mundo de pobreza, no qual os excluídos são os filhos de humildes trabalhadores rurais de ancestrais negros.

No mundo do Sertão reina uma espécie de consciência mágica alimentada pelas tradições religiosas afro-brasileiras. Esse pequeno universo rural, repleto de misticismos, revela um outro sertão que se difere do sertão-mundo de Guimarães Rosa e do sertão-guerreiro de Euclides da Cunha (vale ressaltar que o escritor peruano Mario Vargas Llosa incursionou pela história de Canudos). Integra a cultura dessa gente o Jarê, por exemplo, que é uma prática religiosa existente na Chapada Diamantina e pode ser considerada uma espécie de variação do Candomblé. Em ambientes assim impera o uso de velas, incensos e ladainhas.

Cabe reproduzir o testemunho de uma das principais personagens do romance — Bibiana — quando relata a maneira como fora criada pelos pais. “Cresci em meio às crenças de meu pai, de minha avó, e mais recentemente de minha mãe. Os objetos, os xaropes de raízes, as rezas, as brincadeiras, os encantados que domavam seus corpos, tudo era parte da paisagem, do mundo em que crescíamos.”

A narrativa, fluída e clara, torna a leitura agradável e altamente entendível. Talvez seja pela facilidade que tem o leitor de penetrar no mundo descrito pelo autor, uma das razões do sucesso de vendas do romance.

Certamente, o leitor não encontrará a mesma facilidade nos livros de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa. No caso da obra de Euclides, prevalece uma linguagem científica de difícil compreensão. Já em Guimarães Rosa, o incompreensível atrela-se a uma narrativa que exige dos leitores certo esforço de entendimento, sobretudo por causa da sutileza da linguagem (que é o grande feito do romance). O fato é que aqueles que conseguem ler e entender os escritos de Euclides da Cunha e João Guimarães voltados para construção do romance saem engrandecidos do processo de leitura. Por sua vez, a facilidade de contar uma história entendível agrega considerável número de leitores, sendo assim, uma grande diferença evidencia-se quando o assunto é a comparação entre o modo de contar a história desses três autores.

Dostoiévski e a capa de Os Irmãos Karamázov | Fotos: Reprodução e Jornal Opção

 Em síntese: Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, por um lado, são mais densos que Itamar Vieira; por outro lado, o autor de “Torto Arado” é mais comunicativo que seus colegas de escrita.

A história do romance

A fascinante história que dá sustentação ao romance gira em torno de duas irmãs — Bibiana e Belonísia — e o acidente que ocorreu com elas no momento que encontraram uma faca na cama da avó.

A curiosidade das irmãs em conhecer o sabor do metal desse instrumento cortante levou Bibiana a puxar a faca da boca da irmã. Resultado: provocou uma lesão que resultou na amputação da língua de Belonísia; Bibiana, movida pela mesma curiosidade da irmã, colocou a faca ensanguentada na boca, então, provocando uma grave lesão na sua língua, mas de menor intensidade. Bibiana escapou de algo que sua irmã não teve como se livrar: a amputação da língua.

A respeito desse incidente, deixemos que Bibiana nos dê maiores detalhes sobre o episódio.

“‘[…] me deixa pegar, Bibiana’ [a faca], disse Belonísia à irmã dela. ‘Espere’, respondeu Bibiana para em seguida agir impulsivamente. Foi quando coloquei o metal na boca, tamanha era a vontade de sentir seu gosto e, quase ao mesmo tempo, a faca foi retirada de forma violeta.”

A partir desse triste acontecimento, a comunicação de Belonísia com o mundo tornou-a completamente dependente da irmã Bibiana. E essa relação manteve-se estreita até o casamento de ambas — Belonísia uniu-se a Tobias, este um marido violento e alcoólatra; já Bibiana uniu-se ao primo Severo e foi conviver em outras realidades desconectadas daquele microcosmo rural.

Tanto uma irmã como a outra materializam seus sonhos em diferentes caminhos: Bibiana segue o caminho da razão e torna-se professora. Ciente da realidade explorador-explorado passa a exercer o papel de uma espécie de ativista política. Belonísia, por sua vez, manteve-se presa ao mundo da fazenda e a seus afazeres diários.

Penso que esse contrastado mundo em que vivem as irmãs Bibiana e Belonísia reflete questões maiores relacionadas a uma espécie de mais-valia social que é presente em grande parte do universo rural brasileiro. Além disso, esse mundo dicotômico das duas irmãs relata episódios de violência contra a mulher, de uniões prematuras de jovens mal saídos da adolescência.

Guimarães Rosa e Euclides da Cunha: os “reinventores” do Sertão-Sertões | Fotos: Reproduções

Vejamos o que apresenta o romance a respeito dessa violência presente no mundo rural e seus reflexos na vida das crianças: “Algumas das crianças pareciam com a mãe, outras com o pai, mas todas, sem distinção, carregavam as marcas de abandono: barriga grande, corpo frágil e, principalmente, tristeza e medo, que recendiam em seus olhos pela rotina de violência que tinham na própria casa”.

Como já se expôs sobre o livro de Itamar Vieira Júnior, é possível perceber a grandeza da obra por algo comum entre os grandes livros: sair do microcosmo de uma comunidade para, mediante a relação, no caso, das irmãs, transcender para questões maiores presentes em grande parte do subdesenvolvido mundo rural.

Tudo indica que o autor tenha bebido em uma fonte suprema da literatura universal chamada “Os Irmãos Karamázov” (Editora 34, 1038 páginas, tradução de Paulo Bezerra), do genial escritor russo Fiódor Dostoiévski. Tive essa desconfiança quando comparei o modo de agir das irmãs Bibiana e Belonísia com a personalidade antagônica dos três filhos de Fiódor Karamázov: Dmitri, um libertino como o pai; Ivan, o niilista; e Aliocha, o sublime — esses são a coluna vertebral desse grande romance.

No caso do romance “Torto Arado”, na história das irmãs Bibiana e Belonísia, o antagonismo faz-se presente no momento que as personagens tomam rumos diferentes, com visões absolutamente díspares. Ante o fato, Itamar Vianna parece-me uma espécie de Dostoiévski do sertão.                                   

A simbologia do Torto Arado

Torto Arado é um instrumento arcaico e obsoleto originário do Brasil colonial. O autor foi muito feliz ao atrelar esse instrumento numa típica relação significado-significante. Nesse contexto, o significante é o que materialmente é perceptível, no caso, o Arado; todavia o que de fato é importante é o significado representado pelo que está invisível aos olhos, que expressa a mais-valia social do opressor sobre o oprimido.

Quanto a essa simbologia, deixemos que Belonísia expresse seu grito de revolta quando se refere ao arado que passa a ser qualificado como torto.

“Durante todos esses anos, somente quando estava só, e mesmo assim muito raramente, ousava dizer algo. Era um tipo de tortura que me impunha de forma consciente, como se o arado velho e retorcido percorresse minhas entranhas, lacerando minha carne. Se esvaía toda coragem de que tentei me investir para viver naquela hostil de sol perene e chuva eventual de maus tratos, onde gente morria sem assistência, onde vivíamos como gado, trabalhando sem ter nada em troca, nem mesmo o descanso, e as únicas coisas a que tínhamos direito era morar lá até quando os senhores quisessem e a cova que nos esperava fosse cavada na viração, caso não deixássemos Água Negra [A Fazenda].” E assim o velho arado torna-se torto ante o sofrimento humano que imperava sobre aquele micromundo rural que vivia na fazenda Água Branca.

Principais personagens do romance

Apresenta-se, a seguir, os principais personagens que integram o todo do romance. Desse modo, os personagens centrais que se fazem presentes no transcorrer da narrativa de Bibiana e Belonísia são os seguintes:

1

Bibiana

Personagem nascida em uma fazenda no interior da Bahia. Narra a primeira parte da história, bastante próxima da irmã Belonisia, porém vai, com o tempo, distanciando-se dessa irmã à medida que adquire consciência política.

2

Belonísia

A personagem nasceu no interior da Bahia. Narra a segunda parte da história. Próxima da irmã, Belonísia perde a língua num acidente na infância. A proximidade da irmã é intensa, mas vai diminuindo ante a preocupação relativamente ao interesse de Bibiana pela política. Belonísia apreciava, de fato, o trabalho cotidiano da fazenda.

3

Zeca Chapéu Grande

Pai das irmãs Bibiana e Belonísia. Zeca Chapéu, além de líder comunitário, por ser o parteiro da fazenda é considerado um homem encantado.

4

Severo

Marido de Bibiana, é um trabalhador da fazenda, com o falecimento do pai de sua esposa, ele se torna líder da comunidade e é assassinado.

5

Donana

Avó das irmãs Bibiana e Belonísia. 

6

Tobias

Marido violento de Belonísia.

Terra em transe no Sertão

O clima de tensão entre o capital, representado pela família Peixoto e o excluídos explorados pela voracidade capitalista, senhora dos destinos da fazenda Água Negra. A dura realidade de um sertão bravio, onde pessoas trabalhavam de sol a sol, sem direito a um salário, nem de uma casa feita de tijolos, expressa a difícil realidade da chamada “mais-valia social” a que eram submetidas essas pessoas egressas da ainda recente escravidão, que acabara há apenas 30 anos. Nesse sentido, o sertão de Itamar Vieira constitui-se em uma verdadeira bomba-relógio que, certamente, iria – mais dia, menos dia – explodir. Essa realidade chegou para transformar aquele microcosmo num verdadeiro “rio de sangue”. O motivo para essa súbita transformação de realidade deve-se à mudança de postura do novo proprietário da fazenda. Com os antigos donos, a relação de conflito manteve-se relativamente sob controle devido à presença de líderes religiosos conciliadores, como Zeca Chapéu Grande, e dos próprios proprietários, de certa forma, pacíficos. A bomba-relógio explodiu com a entrada de Salomão, o novo proprietário.

O vazio de liderança deixado por Zeca Chapéu Grande foi ocupado por quem de fato e direito deveria ocupar a liderança dos oprimidos. Falo de Severo, marido de Bibiana.

O espírito conciliador do genro de Zeca Chapéu Grande contrastava com o estilo aguerrido do de Severo. Resultado: Severo tornar-se-ia uma das vítimas do rio de sangue que se transformou a Fazenda Água Negra. Posto isso, passo a palavra ao autor, para ele, numa narrativa clara e envolvente, relatar a face trágica desse conflito:

1

A Morte de Severo

“Me desfiz numa fina chuva que aguou as vidas que pelejam para salvar Severo, no meio do nada. Entrei por sua boca para lavar o sangue que esvaía. E dividi nos ombros, cabeças e costas dos que rodeavam marido e mulher no chão. Vi uma carruagem de fogo correr pela estrada. Levaram Severo para a cidade, mas não houve tempo para salvá-lo. Em Água Negra correu um rio de Sangue.” Assassinato de Severo, líder combativo que se indispôs com o dono da fazenda.

2

A Face Cruel da Barbárie

“Vi senhores enforcarem seus escravos como castigo. Cortarem suas mãos no garimpo por roubarem um diamante. Acudi uma mulher que incendiou o próprio corpo por não querer ser mais cativa de seu senhor. Mulheres que retiravam seus filhos ainda no ventre para que não nascessem escravos e muitas delas morreram também por isso. Mulheres que enlouqueceram porque as separam dos filhos, que seriam vendidos. Vi um senhor cruel deitar-se com mulheres negras e abandonar seus corpos castigados à morte, como se quisesse expurgar o mal que o fazia cair.”

Revolta dos oprimidos contra os opressores

O final do romance “Torto Arado” culmina com uma revolta dos oprimidos contra seus opressores. Naquele microcosmo social expresso pelo universo da fazenda Águia Negra, ocorre aquilo que sociólogos definem como uma espécie de “curto-circuito social”, em que o oprimido se torna um sujeito da história, capaz de tornar em ação um grito de revolta. A partir desse ponto, parabenizo Itamar Veira Júnior pela competência de construir um romance sob outro olhar. Um olhar pelo qual o sertão africano da Chapada Diamantina é contado não a partir daqueles que habitam a Casa Grande, mas, sim, a senzala.

Salatiel Soares Correia é engenheiro, mestre em energia pela Unicamp. Autor de oito livros relacionados aos temas energia, economia, política e desenvolvimento regional. É colaborador do Jornal Opção.