Tornar-se homem! A que será que se destina?

Publicado pela Nega Lilu Editora, A morte de Silvério Reis, de Abel Vargas, desenrola ao longo de um causo o testemunho de um jovem, nascido no cerrado, acerca dos impasses na construção de sua masculinidade. Projeto de artes integradas, obra contempla três linguagens: literatura, artes visuais e música

O escritor goiano Abel Vargas | Foto: Divulgação

Henrique Alves Lopes
Especial para o Jornal Opção

Um causo, como definido pelo subtítulo, sobre “o fim do amor inocente e suas desenvolturas”, é disso que se trata A morte de Silvério Reis, do escritor Abel Vargas, publicado pela Nega Lilu Editora. Se é que o amor pode ser de fato inocente, uma vez que parece sempre resguardar resquícios de um crime, ainda que pavimentado pelas trilhas do inconsciente. No caso de Silvério Reis, inocente ou culpado, desde o nascimento o vemos se debater com um veredito enunciado por seu pai: “Lá em Goiás, todo mundo tem que ser homem! Mulher tem que ser homem, homem tem que ser homem e viado tem que ser homem! ‘Simples e básico. A filosofia de uma vida comprimida em uma frase’”. (p. 6).

À semelhança de um Brás Cubas a narrar suas memórias póstumas, o livro se abre com Silvério nos narrando o momento de sua morte ao levar um tiro e a sensação desse tiro, nas páginas que seguem vemos se desdobrar de trás para frente quais foram às circunstâncias que o levaram ao instante de sua execução. E nos entremeios dos relatos desses momentos que antecederam o tão alardeado tiro, flashbacks de sua infância nos são revelados, sobretudo trazendo ao conhecimento do leitor a relação que ele mantinha com as meninas, suas namoradas. Dessa maneira, o que vemos se desenrolar ao longo do causo é o testemunho de um jovem nascido no cerrado acerca dos impasses na construção de sua masculinidade. “No começo eu não queria aprender nada disso com meu pai, mas depois virou coisa de homem, se é que com quatorze anos alguém já é homem. ” (p. 6).

Com proposta multimídia, livro vem acompanhado de um vinil laranja, produzido por Pedro Zamboni, com a trilha sonora da história e com pôsteres lisérgicos da dupla Bicicleta Sem Freio | Foto: Divulgação

No entanto, o caminho para o sujeito ascender diante do Outro o gênero que se é, o gênero que se tem, não é um caminho sem certa vertigem, como que causada por um percurso na beira de algo próximo a um desfiladeiro. Isso diante do fato do que já apontava Freud em 1925 no texto Algu­mas consequências psíquicas da distinção anatômica dos sexos: “concordaremos de boa vontade que a maioria dos homens também está muito aquém do ideal masculino e que todos os indivíduos humanos […] combinam em si características tanto masculinas quanto femininas, de maneira que a masculinidade e a feminilidade puras permanecem sendo construções teóricas de conteúdo incerto. ” (p. 286, Volume XIX, Obras Completas, Editora Imago). Ou seja, onde encontrar a consistência do que se chama ser homem ou ser mulher, quando tanto o sexo biológico quanto cultura podem falhar em nomear estes lugares?
Existem duas vias comuns no trato do gênero, uma que acredita numa determinação natural por meio do que designa o sexo biológico, e outra que se opõe a essa primeira, que acredita ser o gênero um papel social enrijecido pela cultura, diante do qual os sujeitos o internalizam ou sofrem caso se furtem de assumi-lo em sua forma convencional. Partindo destes paradigmas, a psicanalista francesa Clotilde Leguil postula em seu livro O ser o e gênero, homem/mulher depois de Lacan uma terceira via, que conceberia o gênero como algo além de uma norma imposta, fosse biológica ou cultural, mas como um percurso de indagação do sujeito que o levaria às suas conjunturas mais íntimas, as origens do seu Ser, pela maneira como se relaciona com os outros a partir das marcas que o constituíram, levando em conta seu desejo em sua singularidade.

A morte de Silvério Reis: o causo do fim do amor inocente e suas desenvolturas

É entre essas tateadas e tropeços que Silvério segue seu caminho. Conforme dá testemunho a partir da escolha do nome pelo qual escolhe se representar: “Precisei de um nome forte e me inspirei no Erasmo que virou Carlos só depois de grande. Diz a lenda que ele escolheu assinar Carlos porque leu numa revista que este nome carrega seis reis: ‘C’ de Cristo, rei de todos os reis; ‘A’ de Águia, rainha dos pássaros; ‘R’ de Rosa, rainha das flores; ‘L’ de Leão, reis dos animais; ‘O’ de Ouro, rei dos metais e ‘S’ de Sol, rei dos astros. Achei que Silvério Carlos era demais, mas como eu também queria ter tudo isso no nome me transformei em Silvério Reis.” (p. 56). Munido dessas máscaras que a cultura lhe dá (o romântico cantor de bolero, um gentleman, um cavalheiro) é que ele se sente seguro para abordar as mulheres.

Por vezes, Silvério não se furta de recorrer a todos os clichês de uma determinada vertente de homens, numa pose piegas de Raul Seixas misto de Baudelaire (referências enunciadas pelo próprio personagem), passando pela composição de canções melosas inspiradas numa musa misteriosa, uma morena, que sequer conheceu; murmurando um portunhol ao fim de um show enquanto sobre si caem as rosas lançadas pelo público, mas financiadas pelo próprio patrão; e declarando frases como: “Verona me contava como era importante para ela o casamento e a monogamia e cada vez que ela falava eu, mais e mais, me apaixonava. […] O Pafúncio, meu violão, tinha se cansado há muito tempo de tocar músicas românticas sobre minha espera pelo seu coração e de como nosso amor seria a chuva para fazer minha horta crescer”. Os clichês, por sua vez, vêm sempre em socorro do sujeito que se angustia frente à vacilação das normas do gênero que outrora lhe garantiam estabilidade.

Dessa maneira, é cambaleando entre a namorada que o trai e a figura do chefe, o qual inclusive enriqueceu em parte à custa de seus shows, que Silvério nos narra sua história após uma morte, na expectativa de encontrar o que restou de si, após ver furada pela bala a ficção de homem que lhe vestia. Quem é ele por trás da máscara, do grande ideal “Silvério, o rei dos cantores de bolero”? Como a singularidade de um sujeito está justamente onde algo seu não corresponde aos papéis, onde ele difere das normas, talvez Silvério seja mais do gênero que assume no momento em que vacilam os papéis que respondiam a este gênero do que quando estava tão certo de seu destino de homem. Como podemos testemunhar quando ao fim ele relata uma preciosa lição que aprendera, a qual expressa da seguinte forma: “Agora também toco ukelele. Homem que é homem toca o instrumento que quiser”.

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