Tônio Caetano: só agora busco pistas pra entender o porquê de ser um livro só com personagens femininas

O vencedor do Prêmio Sesc de Literatura revela os bastidores do livro de contos “Terra nos Cabelos”

Márwio Câmara

Especial para o Jornal Opção

Tônio Caetano nasceu em Porto Alegre (RS), em 1982. Trabalha como servidor público municipal e é especialista em Literatura Brasileira pela PUC-RS. Integra as coletâneas “Contos de Mochila”, “Minicontos de Amor” e “Morte e Planeta Fantástico”, pela Editora Metamorfose, e “Ancestralidades —Escritores Negros”, pela Editora Popular Venas Abiertas (BH). Em 2020, venceu o Prêmio Sesc de Literatura, na categoria Contos, com o livro “Terra nos Cabelos”.

Busca pela sintonia

A racionalização vem no fim do meu processo de escrita. No começo é mais o mergulho, o preencher, o encantamento com a ideia. Gosto de iniciar a semana com uma proposta de escrita, algo que eu possa farejar, procurar pelos dias. E procuro em mim, em casa, nas leituras, nas conversas com familiares e amigos, nos olhares das pessoas no ônibus, no aceno de tudo o que me rodeia no dia a dia. É uma busca da sintonia, do tom, do estado de ânimo daquela ideia. Quando a personagem começa a falar, então, o texto já está pronto para ganhar forma na escrita. Escrevo feito quem bebe algo. Tem vezes que só um gole, uma frase é suficiente; noutras é preciso de uma página, um conto inteiro para saciar a sede. Escrevo primeiro no caderno, faço pequenos desenhos, páginas de diálogos, pensamentos da personagem, cenas. Só depois, ao digitar o texto no Word, é que vem a racionalização, a estruturação sobre os aspectos da escrita. Há textos que funcionam como um quebra-cabeça, exigindo tempo maior, às vezes até distanciamento por dias. Mas também acontece de textos já nascerem inteiros, a voz da personagem se impõe e conta a história toda de uma vez, assim foi com o conto Terra nos cabelos.

Exercício de compreensão

Escrever os contos de Terra nos cabelos aconteceu de forma natural. Só agora busco pistas para entender o porquê de ser um livro só com personagens femininas. Sei que foi um exercício de compreensão, de refletir sobre outras perspectivas. Exercício difícil, pois a personagem feminina se mostrou mais complexa, com mais camadas, um desafio maior. Durante a escrita, pensava que deveriam ter motivações únicas e serem distantes física e mentalmente uma das outras. Também que a vida se dá no movimento, no percurso, interno e externo, que todo ser, mesmo inconscientemente, acaba fazendo. Também pensava – como penso até hoje – que não cabe ao autor resolver a vida das personagens a partir da sua perspectiva. Assim, tentei não sobrepor a minha visão de mundo a delas e acompanhei a mudança possível de cada uma durante o tempo da narrativa.

Insegurança

Escrever faz parte do meu dia a dia. Sempre foi uma conversa interna necessária. Tornou-se também desafio de olhar para fora, quando entrei na Metamorfose Cursos e no Grupo de Escrita da Ana Mello. Assim foram escritos os contos de Terra nos cabelos, em 2017 e 2018. Muitos como proposta do Grupo de Escrita. Depois se seguiu um período de leituras, de ouvir a crítica de leitores próximos e de buscar melhorar os textos. No início de 2019, pensei em publicar, até escrevi um projeto pra lançamento na Feira do Livro de Porto Alegre. Mas assaltou-me o medo de ser algo apressado. Passei a prestar atenção em escritores mais experientes falando sobre a relação com o primeiro livro, sobre esperar a hora certa, sobre a importância de aperfeiçoar o texto. Assim continuei buscando leituras e reescritas. Perseguia também a ideia de que o livro deveria ser igual a um bom vinil, com canções em diferentes tons, volumes e batidas. Quando publicaram o edital do Prêmio SESC, fiz a seleção dos contos pela diversidade de experiências das personagens, decidi o título do livro e submeti o conjunto.

Tônio Caetano: escritor | Foto: Divulgação

Sobre o prêmio literário

Receber a notícia do prêmio foi um susto. Antes eu havia participado de poucos concursos de conto, nunca de livro inteiro. Quando o Henrique Rodrigues do SESC me ligou, fiquei sem saber como agir. O vídeo oficial do anúncio do prêmio mostra bem isso, lá está o Tônio Caetano naquele julho dizendo “Que loucura. Que horror. Que loucura” ao saber do resultado. Tenho pensado sobre o que significa ganhar um prêmio dessa magnitude, por hora só sei que é uma alegria recebida aos poucos. Um pouco no anúncio do prêmio, um pouco depois no carinho que tenho recebido, um pouco mais no processo de edição do livro, que foi um aprendizado. Em novembro, com a cerimônia oficial do prêmio e o lançamento, serão outros momentos de grande alegria. O retorno dos leitores também é algo que espero com muita ansiedade. E tem ainda o circuito do SESC em 2021, que será mais um alegre aprendizado.

Bastidores

Bastidores é um quadro idealizado pelo jornalista Márwio Câmara, com o objetivo de registrar depoimentos de escritores brasileiros contemporâneos quanto aos seus respectivos processos criativos.

Márwio Câmara é escritor, jornalista, crítico literário e professor. Autor do livro “Escobar”. É colaborador do Jornal Opção.

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