Tomado pela “doença do dragão”, Peter Jackson destruiu a obra de J.R.R. Tolkien

A afirmação do título pode parecer demasiadamente pessoal, mas é necessária, afinal, “O Hobbit: a Batalha dos Cinco Exércitos” coroou uma trilogia feita com o único objetivo de atrair o acúmulo dos dólares da bilheteria

Peter Jackson conseguiu um lugar na Calçada da Fama, mas deixou a desejar na trilogia de “O Hobbit”

Peter Jackson conseguiu um lugar na Calçada da Fama, mas deixou a desejar na trilogia de “O Hobbit” Foto: Chris Pizzello/Invision/AP

Marcos Nunes Carreiro
Especial para o Jornal Opção

Foram necessárias duas sessões de “O Hobbit: a Batalha dos Cinco Exér­citos” para que este texto fosse escrito. Por uma razão: na primeira, ainda en­fadado do último filme — “A Desolação de Smaug” —, o preconceito não permitiu uma análise fria da obra; na segunda, embora o objetivo da “frieza” no olhar não tenha sido alcançado, foi possível perceber alguns pontos com mais clareza.

Peter Jackson é querido entre a grande parte dos fãs da Terra-média, devido ao seu trabalho à frente da trilogia “O Senhor dos Anéis”, que saiu dos cinemas há mais de uma década como uma das mais premiadas obras cinematográficas da história. Recebeu mais de 1 bilhão de dólares e um número considerável de estatuetas de Os­car: 17 — 4 para “A Sociedade do Anel”, 2 para “As Duas Torres” e 11 para “O Retorno do Rei”.

É possível dizer que, exatamente por esses números, Peter Jackson resolveu adaptar “O Hobbit”, primeiro livro publicado do escritor britânico J.R.R. Tolkien e que narra a história antecedente à de “O Senhor dos Anéis”, para os cinemas. E, ao assistir, a última parte dessa segunda trilogia da Terra-média, é possível tirar uma conclusão: o diretor neozelandês conseguiu o que queria, afinal fez muito dinheiro e conquistou um lugar na Calçada da Fama. Porém, no caminho, ele também tornou a Terra-média um lugar inabitável para aqueles que lá estiveram com “O Senhor dos Anéis”.

Thorin, o Rei Sob Montanha, e o hobbit Bilbo Bolseiro: a atuação dos dois é, possivelmente, a parte mais importante do filme, visto que é a partir de suas ações que a batalha do título se torna possível Foto: Warner Bros

Thorin, o Rei Sob Montanha, e o hobbit Bilbo Bolseiro: a atuação dos dois é, possivelmente, a parte mais importante do filme, visto que é a partir de suas ações que a batalha do título se torna possível Foto: Warner Bros

A questão é simples: ao contrário do que fez na primeira trilogia, que levou as pessoas à Terra-média, na segunda, Peter Jackson quis levar a Terra-média às pessoas a fim de adaptar o universo tolkieniano à juventude atual. O problema é que esta juventude está acostumada com filmes demasiadamente ruins. Essa “adaptação” pode ser vista, por exemplo, na inserção da personagem Tauriel, que não existe nos livros, com o único objetivo de formar um triângulo amoroso com o elfo Legolas e o anão Kili.

O diretor poderia ter sido feliz, se tivesse alcançado seu objetivo. Contudo, até nisso, Peter Jackson falhou. O romance entre os três não tem participação ativa no todo da história; sequer cativa o público. É fraco e chega a ser irritante. Sem exageros, está no nível de Stephenie Meyer — aquela da saga Crepúsculo. Além disso, o triângulo está a anos-luz das histórias de amor criadas por Tolkien em suas obras, que são fortes e, sem exceção, muito importantes para a narrativa que se desenvolve em torno delas. O maior exemplo é a história de Beren e Lúthien, um humano e uma elfa, cujo amor foi responsável por uma das maiores vitórias nas guerras das primeiras Eras da Terra-média, narradas em “O Silmarillion”. Sem falar em Aragorn e Arwën, humano e elfa, que se tornaram rei e rainha de Gondor ao fim de “O Senhor dos Anéis: Retorno do Rei”.

O triângulo entre Tauriel, a fictícia, Legolas, o elfo, e Kili, o anão, não só não tem influência alguma na história do filme, como é completamente injustificado, literariamente falando. Não se encontra, em todo o conjunto de obras de Tolkien, uma relação amorosa entre um elfo e um anão. É possível que Peter Jackson, que também assina o roteiro, tenha se esquecido disso. E não foi por falta de informação, uma vez que os manuscritos de Tolkien usados pelo diretor para inflar a história de “O Hobbit”, tornando-a uma trilogia, são os mesmos que explicam o ódio existente entre anões e elfos e que, portanto, tornam irremediavelmente impossível um romance entre as raças.

O dragão

O dragão Smaug morre logo no início do filme, como era de se esperar. A questão decepcionou a muitos, mas era necessária, uma vez que não haveria a Batalha dos Cincos Exércitos se o dragão não tivesse sido assassinado. Contudo, as lamentações são justificadas, uma vez que, como escrevi na crítica de “O Hobbit: a Desolação de Smaug”, em 2013, “todos os milhões de dólares gastos na construção do dragão valeram a pena. Cada cent. O dragão é mais real do que os atores que participaram do filme. Além disso, Peter Jackson conseguiu trazer toda a sagacidade de Smaug para as telas. Ponto para ele nessa parte”.

Guerra

A guerra é a razão de ser do filme e os motivos que levam Thorin Escudo de Carvalho a provocar o conflito é forte. Pelo menos isso. Ao reconquistar Erebor, a montanha que serviu de lar para seu povo antes que o dragão Smaug a conquistasse, Thorin é, de imediato, acometido pela ganância sobre a enorme fortuna que há lá dentro. Em outras palavras, adquire a “doença do dragão”. E uma de suas falas no filme resume a questão: “Este tesouro não pode ser medido por vidas perdidas”, diz ele ao companheiro anão Dwalin, quando questionado se não ajudaria os outros anões na guerra que acontecia fora da montanha.

O filme gira em torno do conflito interno de Thorin, que só recupera seu bom senso um pouco antes de entrar na guerra para ajudar a vencê-la. A “doença” do rei anão é um dos pontos fortes do filme, talvez pelo fato de Peter Jackson entendê-la bem. A diferença é que, ao contrário do diretor, Thorin consegue superá-la, com uma grande ajuda “do” hobbit Bilbo Bolseiro, interpretado brilhantemente pelo ator Martin Freeman — talvez tenha faltado um hobbit na vida do neozelandês.

A “cura” da doença de Thorin guia o filme ao seu ponto alto, uma vez que a Batalha dos Cinco Exércitos — anões, elfos, homens, orcs e águias — é o clímax. Tomada por efeitos especiais, a guerra, embora esteja muito aquém da vista em “O Retorno do Rei”, prende o espectador à tela, fascina a todos e traz novamente aquela Terra-média a que todos estavam acostumados.

a“Elfa de Peter Jackson”, Tauriel, com Legolas ao fundo: parte de um triângulo amoroso injustificado no filme Foto: Warner Bros

A “Elfa de Peter Jackson”, Tauriel, com Legolas ao fundo: parte de um triângulo amoroso injustificado no filme Foto: Warner Bros

O fim

Após a guerra, “O Hobbit: a Batalha dos Cinco Exércitos” tinha tudo para fechar bem a trilogia, mesmo com todos os problemas de adaptação. Diálogos fiéis ao livro; personagens no lugar onde deveriam estar; orcs vencidos; os vilões Azog e Bolg, mortos. Tudo certo e os espectadores prontos para ver os resultados da guerra e a resolução de todos os problemas apresentados até então. O bom seria se Peter Jackson tivesse se lembrado de resolvê-los.
Pontuemos:

1) Thorin morre na luta contra Azog, seu caçador desde o primeiro filme da trilogia, a quem também mata. Ele é o Rei Sob a Montanha, dono de todo o vasto tesouro, motivo principal da guerra. Sua morte foi devidamente valorizada, mas não houve funeral. Por quê? O que aconteceu?

2) Com a morte do rei e de seus dois herdeiros diretos, os sobrinhos Kili e Fili, alguém deveria assumir o reino de Erebor, sob a montanha. Quem foi? Aqueles que leram o livro sabem que foi Dain, o primo de Thorin, senhor das Montanhas de Ferro, a quem Thorin recorre para ajudá-lo na guerra e cujo exército é parte importante na batalha. Ele aparece no filme e quem assistiu apenas supõe que ele poderá ser o rei.

3) Bard, o matador do dragão, o líder do povo de Esgaroth, a Cidade do Lago, um dos principais do filme e parte importante da guerra. O que aconteceu com ele e seu povo? O filme não mostra. A resposta ficou no livro: Bard se torna rei de Valle, a cidade aos pés da montanha, e ajuda o povo a reconstruir a Cidade do Lago. Seria bom ter visto isso no filme.

4) Thranduil, o rei élfico, encampou a guerra contra o anões para reconquistar joias pertencentes ao seu povo e que estavam em meio ao grande tesouro dentro da montanha. Porém, ao ver a morte de tantos dos seus, o elfo praticamente desiste de seu objetivo principal. Ele consegue as gemas brancas, ou apenas volta para seu reino na floresta, após a guerra? Não se sabe, uma vez que Thranduil termina sua participação se despedindo do filho Legolas.

5) Falando em Legolas, o que acontece com Tauriel, sua amada e motivo de sua partida? A personagem termina com o anão Kili nos braços lamentando sua morte para Thranduil. Acontece que o rei élfico a havia banido de seu reino. Com a partida de Legolas, e sua “reconciliação” com o rei, terá ela voltado para o reino dos elfos, ou partido também para outro lugar? Adivinhem: só Peter Jackson sabe.

6) Na despedida entre Bilbo e Gan­dalf, já às portas do Condado, o Hobbit carrega um baú. O que tem nele? Será que os anões, de fato, concederam uma parte do tesouro para Bilbo como o prometido? Ou esse baú faz parte do tesouro encontrado por eles na caverna dos trolls no primeiro filme, “Uma jornada inesperada”? Ah, meus caros, também não se sabe.

Ou seja, a “doença do dragão” de Peter Jackson deixou-o com febre e isso fez com que esquecesse como se faz um bom filme. O diretor disse certa vez, em uma entrevista, que geralmente só assiste a seus filmes depois de 20 anos. Talvez, se tivesse assistido “O Retorno do Rei”, ele se lembraria da coroação de Aragorn, do reconhecimento atribuído aos hobbits — Frodo, Sam, Pippin e Merry — e do anúncio de paz na Terra-média. Pois esse foi o resultado da jornada que motivou a trilogia de “O Senhor dos Anéis”.

aAzog, o comandante das forças orcs dando ordem de ataque contra os exércitos de elfos, homens e anões

Azog, o comandante das forças orcs dando ordem de ataque contra os exércitos de elfos, homens e anões

Em “O Hobbit”, não houve fim. To­dos saem do cinema com a sensação de que há algo inacabado. Essa pode ter sido a intenção? Até pode, visto que o derradeiro fim de “A Batalha dos Cinco Exér­citos” faz um retorno à primeira cena de “A Sociedade do Anel”, como a criar uma hexalogia, nos moldes do que George Lucas fez com Star Wars. Porém, faltou. Algo ficou por terminar.

Como bem disse J.R.R. Tolkien em uma carta enviada a Forrest J. Ackerman, em junho de 1958, “o fracasso de filmes ruins com freqüência está precisamente no exagero e na intrusão de material injustificado que se deve a não-percepção de onde o núcleo do original se situa”. À época, Tolkien criticava justamente uma adaptação de “O Senhor dos Anéis” para o cinema. É impossível não pensar que ele teria uma opinião semelhante em relação ao “O Hobbit” de Peter Jackson.

Por esses motivos, mesmo que Peter Jackson tenha conquistado um lugar na Calçada da Fama, ele provavelmente não ganhará outro Oscar. É importante dizer que o filme não é um fracasso completo, pois há muitos pontos positivos. Tanto que assisti duas vezes e, provavelmente, comprarei as versões estendidas em DVD/Blu-ray. Porém, infelizmente, é necessário dizer: ainda bem que a jornada da Terra-média chegou ao fim nos cinemas.

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Ulysses De Castro Silva

Eu gostei mais do Bilbo Bolseiro do que do Frodo porque o Bilbo é mais valente e imprudente. Já o Frodo sempre tem alguma Elfa carregando ele, o Sam carregando ele nas costas porque ele só sabe reclamar que o anel é um fardo. E o Bilbo mesmo não querendo deixou o anel para trás, já o Frodo não abandonou o anel para ser destruído se não fosse o smeagol ele estaria com o anel ainda ou com Sauron. Por isso até gostei mais do Hobbit do que do Senhor dos anéis.

Daniel Henrique

O Um Anel, no fim da Terceira Era (quando a trilogia O Senhor dos Anéis se passa), por querer voltar para a mão de Sauron, lançava seu poder de corrupção com maior força sobre todos ao seu redor, e também sobre seu portador.

Rose

Também gostei muito mais do Bilbo Bolseiro,do que do Frodo.
Frodo era covarde.Lembro de uma cena em que ele,Sam Merry e Pippin,se vêem cercados e mesmo em desvantagem,os três últimos pegam suas espadas e enfrentam o inimigo e Frodo,simplesmente foge.Covarde,até não poder mais. Bilbo,é muito corajoso,apesar de pensar que não é.

Fernanda Sousa

Bom, posso apenas dizer que o funeral de Thorin aconteceu, sim, mas apenas na versão estendida – o que é uma pena pois parece que em O Hobbit decidiram cortar cenas que responderiam muitas dúvidas a fim de faturar mais com a venda de dvds.

Rose

Talvez algumas perguntas fiquem sem respostas,exatamente porque essas 3 histórias acontecem antes da trilogia do Senhor dos Anéis,e as respostas estão neles.Eu gostei de todos os 6 filmes.Eu li os livros,mas acho que foram muito bem adaptados.Melhor do que outras adaptações que deturpam totalmente os livros.Esses pelo menos,são mais fiéis.

WILTON SANTOS DE OLIVEIRA

um mistério fácil de se resolver e sobre a caixa que bilbo leva para casa no ultimo filme da trilogia.. no 1 filme uma jornada inesperada ao converça com frodo sobre a festa.. frodo fala que os sacolas bolseiros acham que bilbo tem tuneis de tesouro.. então bilbo diz que tem apenas um baú e que ele ainda cheirava a troll.. oque quer dizer que ele volta a caverna dos troll e pega a caixa que os anões esconderam de baixo da terra… caso resolvido..

André Luiz Marinho

Bom, na versão estendida do filme conseguimos alguns desfechos que você disse que o filme não possui, achei falho sim, por parte do PJ, tirar tantas partes importante do filme e só coloca las na versão estendida, mas já. que foi isso que ele fez, veja ela pois acrescenta bastante a história.
E a parte do baú que você disse, acho que ficou meio óbvio que o tesouro era do contrato com os anões, porque eu duvido que ele faria toda a aventura carregando um baú depois que saiu da caverna dos trolls, como não fez

Wallace

Esse era ja ta sulturada,tem que se explorar historias da primeira era tipo as de Hurin e Turin

Adriano

Olá!!!
As respostas 1 e 2 estão na versão estendida!!!
Achei bem legal essa versão….. tem muita coisa boa demais
Vale a pena assistir

Paulo

Acho que 1/14 um quatorze avos da riqueza da montanha não caberia em um pequeno baú !!!
Hahahahaha
Acho que pegou no túnel dos trolls

pedro

Dain se torna rei no filme…. na versão estendida kkk
Bom, eu gostaria de uma versão boa dos outros livros de J.R.R. Tolkien nos cinemas, apesar da possibilidade de ser um desastre total com a história. ENTRETANTO, se fosse tão boa quanto merecido de acordo com os livros, seria um ótimo filme.

Kauan Vargas

Bom eu olhei os 6 filmes e li também os 6 livros eu achei muito bem feitos os filmes como também achei muito bem feito os livros. Eu só não gostei muito do último filme do hobbit por que três dos anões morreram , na minha opinião eu acho que nenhum dos anões deveria ter morrido e que Thorin junto com todos os outros anões deveriam ficar na montanha solitária, isso tudo na minha opinião. Bom eu também acho que deveriam fazer mais filmes dessas trilogias só que desta vez fazerem sobre a história da primeira ou da segunda era… Leia mais