“Todos sabem que paredes mal montadas não se sustentam, assim como um texto mal escrito”

Arquiteto e urbanista, o também poeta Eliézer Bilemjian lança “Da Capa ao Fim” e, em entrevista, comenta a relação entre as letras e demais artes

Eliezér Bilemjian acredita que é necessária uma veia precisa na poesia, mas diz: “às vezes, um pouco de loucura à solta no mundo também cai bem a quem escreve e arquiteta” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Ademir Luiz
Especial para o Jornal Opção

João Cabral de Melo Neto, o maior poeta brasileiro de todos os tempos, relacionava o fazer poético com a arquitetura e a engenharia. Media a qualidade de um poema por sua precisão formal, pela exatidão de sua estrutura. Se Cabral foi um poeta-arquiteto, o goiano Eliézer Bilemjian é um arquiteto-poeta. Autor de vários poemas premiados, como “Dona da Noite”, vencedor do Prêmio Sarau Brasil, e “Primeiro”, vencedor do Rima Rara, Bilemjian lançou o livro “Da Capa ao Fim”, laureado no concurso Coleção Vertentes promovido pela editora da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Arquiteto e urbanista graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e MBA Executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), professor na Universidade Estadual de Goiás (UEG) e na PUC-GO, fala, em entrevista ao Jornal Opção, sobre a poesia e sua íntima ligação com a arquitetura.

A literatura tem importância na formação de um arquiteto?
Peço a liberdade de estender um pouco mais o campo de discussão, pois acredito que não só na formação do arquiteto, mas principalmente na formação do ser humano, a literatura exerce papel fundamental, assim como as demais artes e suas expressões. Costumamos dizer incansavelmente, aos nossos alunos, que a arquitetura precisa ser vivida, sentida e experimentada. Acredito que o mesmo se aplique à literatura. Ela precisa ser sentida e, principalmente, digerida.

Temos o péssimo hábito de ligar literatura ao suplício dos livros de leitura obrigatória para ingresso na vida universitária ou em outra fase escolar, onde a leitura também só acontece quando de forma obrigatória, e este é um ranço difícil de superar. Fazemos uma ligação inconsciente de que é ruim praticar a leitura, de que ela é mais um dos pratos obrigatórios que nos servem no ensino médio e que podem ser substituídos pelas pílulas vitamínicas das “resenhas e resumos”. E achamos que, após esse período escolar, poderemos escolher nosso cardápio, mas simplesmente riscamos a literatura, e até a mais simples leitura, de nosso menu do dia a dia. Acho uma pena isso acontecer.

Para o acadêmico de Arquitetura e Urbanismo, a literatura deveria ser vista como um componente essencial (e é interessante percebermos que isso é tratado como item de pré-requisito) de sua formação. Deveria ser percebida a sua importância na abertura de horizontes linguísticos e textuais e por isso mesmo deveria ser valorizada. Nós, enquanto docentes, cobramos que nossos acadêmicos saibam ler, escrever, encadear ideias, assentar os tijolos de palavras de forma coerente e lógica, de modo a formar um conjunto textual firme como uma parede. E todos sabem que paredes mal montadas não se sustentam, assim como um texto mal escrito.

A literatura é também a grande incentivadora da nossa mente criativa. Ao ler, tiramos o foco visual do nosso entorno, e os amontoados de palavras que se formam, por mais descritivas que sejam, obrigam-nos a imaginar mundos, cenários e situações. Se este exercício criativo se distancia da arquitetura, não vejo como. A cada texto que leio, seja conto, poesia ou romance, figuro novas situação, sensação, cenário ou até mesmo um mundo, em minha mente.

No filme “A origem” (2010), é apresentada uma situação de criadores de mundos de sonhos, arquitetos do inconsciente. E é exatamente uma estudante de arquitetura a escolhida para moldar os cenários. Criatividade tem muito a ver com nossa base literária e acredito que bons leitores sejam bons criadores de sonhos.

No livro “Da Capa ao fim”, é difícil definir sua voz poética. Cada poema parece composto com um estilo diferente. Essa diversidade estilística é intencional?
Com relação às variações de estilos, uma coisa é interessante, pois é quase uma constante em praticamente tudo que faço. Gosto muito de experimentação e, para cada poema existente no livro, têm quatro ou cinco experiências malucas que ajudaram a formar o “monstro”.

Na maioria das vezes, essas variações são intencionais. Outras vezes, são intuitivas. Não costumo me exercitar para escrever; tenho a má prática de divagar muito e me “desligar no mundo” e, nestas situações, normalmente são produzidas muitas joias brutas que precisam de uma lapidação em seguida, mas a essência da escrita já se define ali. É acordar e escrever, parar o carro e escrever, parar no meio da reunião de colegiado e escrever.

Já fiz outros exercícios de escrita também, mas acredito que, na maioria dos casos, eles soam mais artificiais que os que brotam naturalmente. Algumas vezes, digo para mim mesmo “agora preciso escrever uns sonetos” e pronto, um mês escrevendo somente sonetos. Mas nem sempre fica bom. Outras vezes, esses exercícios passam por um tema do tipo “vou escrever um poema começando cada verso com uma letra do alfabeto” (e, neste caso específico, gosto do resultado, este presente no livro “Maneira de Fugir – Alfabetizado”), já outras vezes é um jogo de palavras com os nomes de pessoas ou com a própria temática, definindo alguns assuntos para escrever. Acredito que seja isso que forme um emaranhado de vozes poéticas.

Quais poetas te influenciam/influenciaram?
Acredito que não só poetas, mas todos os livros pelos quais passo o olho me influenciam. E não só livros, mas também músicas, filmes, fotografias e, enfim, o dia a dia. “Incoerência”, que também está publicado em “Da capa ao fim”, é prova literal disso, possuindo inclusive algumas citações; ali, apesar de não citar literalmente, Manuel Bandeira também faz parte do subtítulo, diluído pelos versos.

Se formos falar dos poetas especificamente, a lista é grande, passando por algumas figurinhas carimbadas e outras nem tanto. Dois grandes e que nunca me canso de reler ou de relembrar mentalmente são Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, e gosto também dos textos de Cecília Meireles. Desde pequeno, muito me assombrou, pela construção métrica e formal, pela densidade da obra e pelas lendas (“deixe sua mulher afogar e salve seus originais”) Luís Vaz de Camões, principalmente “Os Lusíadas” que, apesar do apelo ufanista, é de uma construção única. Castro Alves me conquistou com “Navio negreiro”, simplesmente com um verso (“Senhor Deus dos desgraçados!”), do qual cheguei a decorar grande parte, assim como de “Os Lusíadas”, apenas para recitar para mim mesmo.

Outros que muito me marcaram foram Marcos Konder Reis (que também é citado em “Incoerência”, principalmente o seu poema “Balada dos suspiros”), Rabindranath Tagore, principalmente pelo conteúdo e pela forma de descrever as cenas. É importante destacar também Augusto dos Anjos, Edgar Allan Poe, Arnaldo Antunes, Chico Buarque e, cabendo por último e, na verdade,, sendo um dos mais importantes, Raul Seixas, com suas letras nada convencionais.

Especificamente um livro, e não um autor (apesar de que alguns citados estão por seus livros), que muito me marcou e influenciou é “Poemas do Amor Maldito”, cuja edição de 1969, foi por mim “roubherdada” de minha avó e que, na verdade, acredito que pertencia a algum tio ou tia. Minha memória não é muito boa assim, mas acredito que tenha sido este o meu primeiro contato com a poesia, entre revistas também “roubherdadas” de “Batmans, Mandrakes, Fantasmas e Super-Homens”.

Para além da arquitetura e da poesia, o sr. tem uma atuação artística múltipla (vídeo, fotografia, desenho e, entre outras coisas, artes plásticas). Onde fica o ponto de contato entre o artista e o professor?
Este ponto de contato é muito flexível e muitas vezes necessário. De todas essas experiências, trago um pouco, não só para a sala de aula, mas também para a vida. Uma das áreas de atuação que, quando estudante de Arquitetura e Urbanismo, não me imaginei atuando, foi a docência. No entanto, certo dia, convidado para substituir um colega em uma aula de cursinho preparatório para o vestibular, encantei-me pelo mundo da sala de aula. Meu contato com a docência se iniciou assim como meu contato com a arquitetura, através de uma habilidade artística e é assim que tenho me desenvolvido nesse meio.

Não consigo ver separação entre artista e arquiteto, entre arquiteto e artista. As ferramentas, produtos e objetivos são diferentes, mas a matéria prima é a mesma e é do mesmo modo intangível. Penso que o maior ensinamento que posso passar seja como organizar a mistura de todas essas expressões artísticas e converter em algo mais palpável, técnico e tangível.

Imagino que nem sempre a minha mistura de todas essas “loucuras” sejam inteligíveis para nossos acadêmicos, mas a função de professor nos faz sempre ensinar e aprender, testar e aprimorar, e este é o exercício que tento fazer a cada semestre.

Se João Cabral de Melo Neto era um poeta-arquiteto, Bilemjian se diz um arquiteto-poeta | Foto: Reprodução

João Cabral produziu diversos poemas sobre arquitetura e engenharia. Costumava relacionar seu fazer poético com a precisão do engenheiro e a imaginação lírica do arquiteto. O sr. se identifica com esta perspectiva?
Identifico-me sim. É bem próximo da questão do fazer inconsciente e lapidar consciente. É mais ou menos o que se espera de um texto bem estruturado; e vejo dois caminhos para isso: o trabalho à exaustão e a genialidade. Acredito na genialidade de grande parte dos maiores nomes da literatura, em especial da poesia; mas também acredito nos originais rabiscados. Longe de ser um gênio, faço muito isso. Rabisco muito os originais e, mesmo após definitivos, ainda me dá vontade de rabiscá-los mais. Acredito que esta seja a veia precisa e técnica; porém, é preciso deixar claro que nem sempre cabe tal caminho, já que, às vezes, é necessário deixar um pouco de loucura à solta no mundo. Sem ela, a maioria dos poemas não teria graça. Como disse Raul Seixas, “veja, um poeta inspirado em Coca-Cola/Que poesia mais estranha ele iria expressar”.

Do mesmo modo que às vezes brincamos que é preciso o arquiteto brigar com o engenheiro para que os pilares não fiquem no meio da sala, o lado imaginativo precisa brigar com o lado lógico, para fugir um pouco do convencional, engolir pontuações, criar novas palavras e até mesmo novos significados, deixando, principalmente, aberto o canal da interpretação para o leitor.

Lembro-me de uma história que não sei se verdadeira ou não, mas certa vez contada em minha turma de segundo ou terceiro ano por um professor de literatura, que dizia terem colocado um poema de Drummond em um vestibular (se não me engano do Rio de Janeiro) para questão de interpretação de texto. Ao procederem a correção da prova, os avaliadores precisaram recorrer ao poeta, pois todas as respostas eram diferentes umas das outras. Mil e não sei quantas respostas e estas de mil e não sei quantas interpretações diferentes. Ao ser questionado sobre a correção a ser considerada, o poeta respondeu “todas estão corretas. Cada leitor deve interpretar a obra como melhor lhe servir”.

Eu vejo essa questão assim. O fazer poético (e pode ser abrangido ao literário, de modo geral) e também o arquitetônico deve/pode ter a precisão técnica associada à imaginação lírica e criatividade; mas, tanto na obra poética quanto na arquitetônica, é o leitor/usuário que se apropria dela como melhor lhe aprouver, colocando seus móveis, pintando suas paredes, interpretando suas palavras, enfim vivendo a obra dentro do seu dia a dia.

Alguns de seus poemas, como “Praça Cívica”, citam explicitamente a cidade de Goiânia. A nova capital foi pensada por Pedro Ludovico para ser uma cidade das artes, tanto que sua inauguração foi chamada de “Batismo Cultural”. O sr. acredita que Goiânia cumpriu seu destino?
Goiânia meio que se perdeu do seu destino, que nem mesmo ela sabia qual era; pois, “projetada para 50.000” e com um nome de origem nebulosa e poética (voltamos aqui à poesia, teria realmente Pedro Ludovico retirado o nome, este não justificado, para a nova capital do poema “Goyania”, de Manuel Lopes de Carvalho Ramos?), foi solta no mundo sem rumo, ou melhor: com um rumo na mão de poucos.

Não sei se já podemos dizer que Goiânia cumpriu ou não seu destino; acredito que ela ainda é muito jovem para ter certeza do caminho que vai escolher seguir. Se pensarmos no destino de ser um marco político, através da transferência da capital do Estado, acredito que sim – principalmente em comparação ao Centro Oeste de 90 anos atrás –, já em se tratando de Urbanismo, temos muito chão pela frente. Há muita coisa a ser corrigida, principalmente devido ao desvio ocorrido com as reais intenções “urbanísticas” da cidade. As grandes vias, os pontos de encontro, as vielas, as visadas, as perspectivas, as alamedas… nada disso teve continuidade e as existentes foram desfiguradas. O que se perpetuou foi maximização de espaços “loteáveis”, em detrimento a vias de circulação públicas (independentemente do modal), como praças e parques, dentre outros.

Hoje, nossas praças são rotatórias e, depois de rotatórias, são fatiadas ao meio e “semaforizadas”. Tenho uma fotografia de um postal que traz uma perspectiva artística; de título “Construção de Goiânia – Zona Sul – Vista Panorâmica da Praça Principal”, dá pena imaginar que aquela perspectiva era o sonho inicial da Praça do Cruzeiro. Brinquei muito lá quando criança, mas hoje só contorno parte dela (ou melhor, engarrafo) por lá de carro, já que é impossível se chegar a pé até lá.

É assustadora a diferença de traçado de bairros vizinhos dentro da malha urbana, e mais assustador ainda o que o mal planejamento (se é que seria esse o termo, porque acredito mais em um “não planejamento”) proporcionou. Goiânia, na maioria das vezes, foi tratada como uma colcha de retalhos, uma terra sem lei (sempre me referindo às questões de desenvolvimento urbano), e isso é bastante visível se a compararmos a outras cidades (nem sempre capitais) com até mesmo menos da metade dos habitantes que temos hoje em Goiânia.

Infelizmente, esta realidade tende sempre a se agravar. A maioria das medidas imediatistas e “disfarçadoras de problemas” tem vida curta e demanda novas medidas paliativas em um curto espaço de tempo. E vemos tais “soluções miraculosas” e bizarras se multiplicarem pela cidade. E, literalmente comendo calçadas, comendo ilhas, comendo praças, comendo lotes, comendo a vida e o dia a dia de seus habitantes, o monstro do “progresso” vai engordando às custas do bem estar do falso urbanismo da cidade.

Tenho medo de que, com o tempo, o destino que o sr. pergunta, se cumprido, se perca mais do que já se perdeu hoje. Muitas vezes, esse “não planejamento” urbano é um caminho sem volta ou com um custo muito alto a ser pago.

Avô do sr., o fotógrafo Eduardo Bilemjian, foi um dos pioneiros na área em Goiânia. Como foi a atuação dele, registrando os primeiros anos da nova capital?
Sou muito suspeito para falar de meu avô, tanto como fotógrafo quanto como avô. Quando pequeno, voltava muito do colégio a pé e a casa dele ficava entre meu colégio e a casa de meus pais, e eu sempre tinha uma paradinha por lá para visitar, “roubherdar” alguma revista ou para um lanche.

Neste meio tempo, pelo fato de ser ainda muito novo, não tinha muita noção do acervo fotográfico por ele produzido – coisa que só vim a tomar conhecimento algum tempo após sua morte. As fotografias, que ele produziu nesse período de início de Goiânia, têm muito de artístico e de compositivo, e não somente de registro. Ele trabalhou inclusive diversas peças com montagens de duas ou mais fotografias, desenhadas à mão, recortadas em montagens e em composições de cartões-postais. A maioria dos trabalhos à época era feito para o Governo ou para registros de família, e ele sempre tentou incorporar a arte aos seus registros, trabalhando luz, sombras, perspectivas e composição. Sempre a bordo de sua inseparável bicicleta, que usava para todo tipo de deslocamento e para divulgação publicitária de seu ateliê “Goiânia Foto”, tendo esta bicicleta várias vezes figurado nos seus registros históricos.

Pelas histórias que já ouvi e pelos registros que temos da época, ele teve também vários momentos de tensão com relação à realização de alguns trabalhos. Falta e desvios de pagamento e de apoio e incentivo são fatos que aos poucos foram minando suas expectativas de continuar fotografando e que, com o tempo, fizeram com que ele “pendurasse a câmera”, o que considero uma pena.

Um dos projetos em que ele buscou, sem sucesso de recursos e apoio, junto ao poder público era chamado de “Vistas de Goiânia”, o qual trazia a ideia de fazer uma coleção de postais numerados com fotografias identificadas dos edifícios e de outras vistas importantes da recém-implantada capital para divulgação da cidade. Mesmo sem conseguir apoio, ele chegou a fazer o projeto, porém sem muita divulgação e abrangência, ficando a coleção de fotos restrita às vendas em seu ateliê.

Hoje, muitas das fotografias conhecidas dele trazem a numeração e identificação das fotos, justamente por serem parte desta coleção de “Vistas”. Este é um projeto que tenho ainda em mente, de resgatar esta sequência de fotos e montar um pacote de vistas da cidade. Ele também chegou a fazer essas sequências para a cidade (hoje, bairro) de Campinas.

A arquitetura goiana é prosa ou poesia?
De modo geral, gosto de prosa e poesia em medidas iguais e acho ambas, quando bem trabalhadas, espetaculares; o problema é quando não são bem feitas. Acredito que a cidade um misto dos dois, tanto bem quanto mal trabalhados, e com algumas pitadas de contos de terror por entre os parágrafos/versos. Acredito que temos uma produção muito grande e diversificada, sem muita identidade cultural, emocional ou técnica, porém vejo isto mais como um reflexo da arquitetura brasileira de modo geral. Estamos muito restritos às condições mercadológicas predatórias e, raras vezes, nos deparamos com arquitetos que têm a oportunidade de realmente aplicar a veia criativa nos projetos, ficando estas oportunidades muito restritas. Assim como o planejamento da malha urbana, o planejamento dos edifícios (quando existe) peca em atender a uma necessidade de programa, sem explorar o verdadeiro potencial do projetar arquitetônico.

Bilemjian: “Goiânia é um misto de prosa e poesia, tanto bem quanto mal trabalhadas, e com algumas pitadas de contos de terror por entre parágrafos e versos” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

E a poesia goiana, ela está mais para Calatrava [arquiteto espanhol muito reconhecido atualmente] ou puxadinho sem planta?
Sempre esteve mais para Calatrava. Temos diversas pérolas poéticas, tanto as mais conhecidas quanto as menos conhecidas; o reconhecimento é que, às vezes, tem cara de puxadinho. Principalmente nos dias de hoje, temos diversas divulgações não-convencionais que trazem a cara dos novos tempos para as poesias, estas em redes sociais, declamações públicas e até mesmo em postes. Percebo que a maioria dos poetas, principalmente por falta de reconhecimento e divulgação, guardam para si mesmo sua produção, muitas vezes com o discurso de “sempre escrevi para mim mesmo”; mas acredito que, na maioria dos casos, é a falta de incentivo que promove esta atitude.

Encarnando o “advogado do diabo”, o Centro Cultural Oscar Niemeyer, em Goiânia, está mais para “poesia feita com concreto”, “versinho de pé quebrado” ou “um poema inacabado”?
Sem sombra de dúvida, verso de pé quebrado. A gente ficou na expectativa de que seria um marco na capital enquanto Centro Cultural, mas quando se consolidou a estrofe os versos finais quebraram e, hoje, adota uma carapuça de adaptação para lazer. Não que não seja um marco, não tenha beleza ou não tenha uso, porém tudo foi desfigurado desde seu início, a começar pelo acesso da cultura do automóvel e a terminar pela apropriação de pátio de lazer feita pela população aos finais de semana.

O Centro Cultural é a prova viva de uma apropriação pública desconexa do programa apresentado. O público do centro usa patins, skate e bicicleta e, na maioria das vezes, desconhece a existência de uma galeria de arte, de um teatro, enfim, do Centro Cultural. O uso se restringe à esplanada. Me dói perceber que os usos solicitados não foram os da demanda existente e que a maioria dos acontecimentos no local tem contado com o improviso.

Não que os versos de pé quebrado sejam ruins, na maioria das vezes são divertidos e geram surpresa, a questão é: provocam uma expectativa que, quando ouvimos (ou lemos), o último verso faz falta. Mas damos risada com eles e nos divertimos mesmo assim. E, como diria Joãozinho, “joguei uma pedrinha/na janela do meu bem/o pai dela abriu a porta/e disse: vai jogar na mãe”.

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