Thriller psicológico de Flávio Carneiro, “A Confissão” é uma viagem pelos meandros obscuros do ser humano

A forma com que o escritor constrói palavras e frases e sua prosa impecável vão envolvendo o leitor no emaranhado da vida do narrador anônimo

Mariza Santana
Especial para o Jornal Opção

Um homem sequestra uma mulher e a mantém amarrada e amordaçada na poltrona de uma casa localizada à beira de uma praia deserta. Durante todo o tempo do cativeiro, ela é obrigada a ouvir a longa história da vida dele, sem, contudo, poder interagir com seu algoz.

O monólogo, ao invés de ser tedioso, vai se enredando, como um verdadeiro thriller psicológico, por um labirinto de sentimentos obscuros. Por meio dele, o protagonista mostra que não é um ser humano comum, ao contrário. A partir de seus relacionamentos amorosos, ele consegue absorver as experiências e conhecimentos de suas parceiras, que não têm um final feliz.

Essa é a linha mestra, resumida em poucas frases, do livro “A Confissão”, do escritor Flávio Carneiro, nascido em Goiânia e radicado no Rio de Janeiro. É uma narrativa densa, mas ao mesmo tempo envolvente. O leitor vai seguindo as páginas com voracidade, em busca de saber o motivo que levou o anti-herói a sequestrar a mulher, e o que ele pretende fazer com ela.

Outra dúvida é saber por que ele faz questão de contar toda sua trajetória à refém, de forma tão detalhada, desde os tempos em que era um rapaz pobre vagando pelos bairros do Rio de Janeiro, passando fome e roubando livros em bibliotecas e livrarias para revendê-los, e assim poder garantir sua sobrevivência.

Flávio Carneiro e seu livro “A Confissão” | Foto: Reproduções

Os parágrafos são longos, a narrativa em forma de monólogo não é das mais fáceis de ler. Mas o poder da literatura produzida por Flávio Carneiro, a forma com que o escritor constrói palavras e frases, sua prosa impecável, tudo isso, aos poucos, vão envolvendo o leitor no emaranhado da vida desse narrador anônimo, sobre o qual se tem poucas referências.

Não se sabe nada a respeito do seu passado, de suas raízes, de sua família, e menos ainda sobre o que, de fato, pretende. Na sua narrativa, parece vagar sem rumo pelas ruas da Cidade Maravilhosa, até finalmente encontrar Emma, sua primeira amada e também primeira vítima, momento em que se dá a virada na vida do personagem.

Seguem-se outras aventuras amorosas — a médica Agnes, a mulher chinesa, a fotógrafa francesa e outras mulheres sobre as quais se tem poucos detalhes. E assim, de mulher em mulher, de país em país, até o retorno ao Rio de Janeiro, o narrador vai desvelando os labirintos de sua alma e de sua vida, enquanto permanecem algumas questões em aberto.

Por que ele precisa contar tudo detalhadamente para uma mulher sequestrada e mantida como refém? Qual é, afinal, seu objetivo? As respostas a essas perguntas o leitor vai encontrar somente no último parágrafo do livro.

Mas, obviamente, não pretendo adiantar aqui mais nada, justamente para não tirar do leitor o sabor de ir seguindo pelas páginas dessa obra tão bem elaborada pelo escritor Flávio Carneiro. A narrativa envolvente vai levando mais e mais adiante, de forma que se possa entender um pouco do perfil psicológico do protagonista, o que o move a praticar a ação de manter uma pessoa imobilizada apenas para ouvir a história de sua vida.

O livro “A Confissão” possui, de fato, um enredo peculiar, denso, que tira o leitor de sua área de conforto, tão acostumado está com os romances escritos com diálogos entre personagens e que abordam temas bem mais amenos. Entretanto, vale a pena aceitar o desafio de sorver a obra ímpar desse escritor goiano.

Mariza Santana, jornalista e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.

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