Thiago Pethit: “Canto um rock esquecido, que faz contraponto ao mundo ‘caretão’ que temos vivido”

Em novo álbum, cantor relembra o rock esquecido de Nick Cave, Jagger, Jim Morrison, Iggy Pop e Bowie

Thiago Pethit: “O mercado só está interessado no novo quando ele se torna velho. A música independente é onde surge o novo e, por isso, é tão importante que exista valorização desta cena no Brasil e no mundo”

Thiago Pethit: “O mercado só está interessado no novo quando ele se torna velho. A música independente é onde surge o novo e, por isso, é tão importante que exista valorização desta cena no Brasil e no mundo”

People need it. They really need it. A down to earth rock’n’roll superstar. A rockstar thats hustles on the same street´s they do. They need a street angel. An angel with a cowboy mouth. Hey Pethit, why don´t you show us some rock’n’roll sugar, my Darling.

Joe Dallesandro

Aos que tragam, que se consomem. Aos que se aniquilam, que se evaporam. Aos que se deterioram, que se despedaçam. Aos que se desmedem, que se transbordam do copo. Aos que se esvaziam, que se desfazem. Aos que metem, que dão. Aos que vêm, que não ficam. Aos que não se vão. Aos que amam. Que me sopram. Aos que me mordem, sem dente algum me tocar. Aos que nunca, nem o rastro do riso no canto de minha boca, ganhará. Aos que eu mastigo, remoo e sopro. Aos que são fumaça, sem vento. Aos que trepam, cariciam e se desfiguram. Aos que se fodem. Aos que não sabem o caminho de volta, só de ida. Aos que se perdem. Aos Romeos. Aos meus.

Yago Rodrigues Alvim

Yago Rodrigues Alvim

Depois de “Mapa-Mún­di” e “Nightwalker”, com passinhos apaixonados e Alice Braga que te levava para dançar por aí, ambas do álbum “Berlim, Texas”, o cantor Thiago Pethit agitou as guitarras e deixou tudo mais pop. Era “Estrela Decadente”, seu segundo disco, que trazia Mallu e Cida Moreira. Em 2014, mostrou seu “Rock’n’Roll Sugar Darling”, a quem quisesse ouvir ou (chupá-lo, como canta).

No domingo, 23, Pethit volta a Goiânia com sua nova turnê, a de “Rock’n’Roll”, pelo Drops do Vaca Amarela, festival que chega à sua 14ª edição neste mês de setembro. A seguir, você confere a entrevista que o cantor concedeu ao Jornal Opção. Ele conta sobre sua trajetória, do que representam seus discos, sobre sua teatralidade, citando referências como Bertolt Brecht e David Bowie, e sobre seus videoclipes. Pethit também fala da importância do cenário da música independente e do mercado mainstream, onde sucesso e fracasso são a mesma coisa.

Acompanho há algum tempo seu trabalho, desde 2010, com algumas regravações que fez com Tiê, até o Rock’n’Roll Sugar Darling, seu novo álbum. Gostaria que você contasse um pouquinho da sua trajetória.
Eu sinto que meus três discos traçam um caminho tortuoso, po­rém de uma evolução pessoal, de mim mesmo. O “Berlim, Texas” era um primeiro disco com muita característica de primeiro disco. Um artista que está começando, cheio de vontade de se expor, de se mostrar para o mundo, de dizer quem ele é e, ao mesmo tempo, muito puro, ingênuo. O disco reflete bastante isso. É um disco mais cru, em que eu me sinto muito mais exposto que hoje em dia, pois ele é um disco em que qualquer falha vocal, qualquer coisa está lá desmascarado, não tem efeito de voz, de nada. Não tem um pinguinho de reverb. Na sequência, fiz o “Estrela Decadente”, que já era um disco de quem já tinha começado, de quem já passou por muitas histórias, depois do primeiro disco. O “Estrela Decadente” refletia muito mais as dores e prazeres do meu sucesso e do meu fracasso e, principalmente, celebrando um fracasso. Lógico que tudo é um ponto de vista, ainda mais hoje em dia e num mercado independente em que não temos métricas de vendas, é muito difícil entender o que é sucesso e é fracasso. O segundo disco era justamente uma compreensão disso, do sucesso e fracasso, e, ao mesmo tempo, eu sabia que era muito difícil ser um artista independente, que era uma coisa que, quando lancei o “Berlim, Texas”, eu não tinha ideia. E não é que eu achava que era mais fácil, é que os discos não refletem só quem eu sou, eles refletem o mundo em que a gente está, em cada momento do tem­po. Em 2010, por exemplo, existia uma cena muito frutífera, com muito espaço, com muita gente aparecendo e, em 2012, quando lancei o “Estrela Deca­dente”, já não existia isso. Era uma cena médio-consolidada, os espaços estavam ficando cada vez menores para os artistas novos despontarem e o meu último disco, o “Rock’n’Roll Sugar Darling”, reflete justamente o mesmo aspecto do “Estrela Decadente”, ainda com uma questão encima do que é sucesso e do que é fracasso, mas olhando pelo outro ponto de vista. Olhando pelo ponto de vista que eu consegui me manter independente, lançar um terceiro disco, de forma independente, como um artista consolidado. Meus discos refletem esta trajetória de fracasso e sucesso, que são a mesma coisa.

Você volta a Goiânia com a turnê “Rock’n’Roll Sugar Darling”. Como é musicalmente seu último álbum?
Eu diria que ele é exibido, afetado, provocador de certa forma, justamente porque é afetado e exibido, e ele fala de um rock esquecido. Quando digo “rock esquecido” é um rock que tinha uma função mais ousada e provocativa em que cabia mais falar sobre libido, em que se fazia insinuações sobre o mundo e sexualidade. É um disco meio em contraponto ao mundo “caretão” que temos vivido, cheio de politicamente-corretos e proselitismos, e é um disco que tenta fazer uma reflexão mais para bagunçar as ideias do que para organizá-las.

Foto: Gianfranco Briceno

Foto: Gianfranco Briceno

Perto do lançamento do álbum, você comentou sobre a Lana Del Rey. Por referências próximas que vocês têm, como você vê o trabalho da Lana Del Rey?
Ela é uma artista muito interessante, especialmente porque ela é uma artista dos nossos tempos, tanto em qualidades e nos defeitos. O que enxergo como qualidade nela é, principalmente, o fato de que ela sabe muito bem fazer um remix de ideias do passado e eu fico admirado com isso, porque é uma coisa que eu gosto de fazer também; é o nosso maior ponto em comum. Olhar para o passado, colocar tudo no liquidificador, uma série de referências de outros tempos, e usar isto para falar do aqui e agora; isso é algo que ela faz e faz muito bem. E, ao mesmo tempo, ela é uma artista “instagrâmica”. Ela é uma boneca “photoshopada” que é muito um reflexo do tempo que nós vivemos. É engraçado que isso, que muitas vezes acho que é um defeito dela, muitas vezes também vejo como qualidade, justamente por refletir o nosso tempo.

Você tem uma formação teatral e traz em suas músicas apresentações e performances, traz certa teatralidade. Como é isso e, também, quais são as suas referências mais marcantes? Até porque você regravou “Surabaya Johnny”, que é de Bertolt Brecht e Kurt Weill.
É engraçado, pois eu fiz teatro por muitos anos e, hoje ainda, quando estou no estúdio, eu me sinto muito pouco à vontade para cantar, em relação a quão em casa me sinto nos palcos. Em geral, eu tento fazer músicas em que eu consiga, depois de se tornarem músicas para tocar ao vivo, em shows, explorar a ideia de performance, a ideia de ser um artista mais performático que cantor, simplesmente. Normal­mente, quando eu componho músicas ou no caso do “Surabaya Johnny” que é uma regravação, eu sempre tento fazer a escolha por músicas em que eu consiga explorar a possibilidade de performance. Os artistas, em geral, performáticos acabam me influ­enciando muito de antemão. O “Surabaya Johnny” é uma música do Bertolt Brecht e Kurt Weill, um diretor e autor de teatro e outro maestro que compunha as músicas para as peças; e, quando eu me formei em Teatro, eu formei no que justamente chamam de “teatro de cabaré”. São teatros musicais que não têm nada a ver com a Broadway, na verdade são absolutamente anti-Broadway. Não são comerciais e que seguem a ideia de bagunçar ao contrário de organizar. Portanto, são peças que tratam sobre temas bem marginais e que bagunçam nossa ideia social e política. E, não à toa, a minha trajetória na música vai do cabaré ao rock’n’roll, pois para mim são a mesma coisa, são movimentos muito parecidos em lugares e tempos diferentes. O que o David Bowie fazia nos anos 1970 é muito parecido com o cabaré do Brecht. Aliás, o David Bowie se inspirou muito em Brecht, que tem uma peça que se chama “Ascensão e queda da cidade de Mahagonny” e o David Bowie utilizou do título para construir a ideia do “Ziggy Stardust”. Então, são referências muito próximas. Portanto, artistas que trabalham com essas ideias, rock e cabaré, me interessam muito. Tem o Nick Cave, Tom Waits, Mick Jagger, Jim Morrison, Iggy Pop, o próprio Bowie, Cida Moreira aqui no Brasil; as figuras que são muito explosivas.

Você fez alguns lives, como pelo Rdio, o Rdio Session, e os lives próprios do álbum, que são diferentes, tem uma liberdade e espontaneidade sua diferente do estúdio. Como foram esses trabalhos?
Os meus lives do “Rock’n’Roll” são em geral vídeos de shows, uma série de vídeos que fiz de apresentação da turnê; e eles apresentam esse lado em que eu estou realmente à vontade nos palcos. A graça dos vídeos é justamente passar um pouco a ideia do que é o disco ao vivo, o que pode acontecer quando ele tem público e existe uma interação.

Dos seus trabalhos visuais, você tem o primeiro clipe com a atriz Alice Braga, em “Nightwalker”, e já gravou duas vezes com o ator e também modelo Lucas Verissimo, em “Moon” e “Romeo”, que é tal qual Joe Dallesandro de Andy Warhol e Lou Reed para você. Como são esses trabalhos e, também, vem algo novo por aí?
Eu gosto muito de fazer videoclipes, pois eles são uma forma de explorar uma série de ideias que são difíceis de explorar musicalmente. “Uma imagem diz mais que mil palavras”. Então, a ideia de trabalhar com imagens e vídeos e de contar histórias é um ótimo jeito de situar as pessoas com mais informações de quem eu sou e sobre o meu trabalho. Desde o começo, os videoclipes são uma coisa que eu me interesso muito em fazer e que eu gosto e quebro muito a cabeça para chegar a vídeos que possam falar tanto quanto as músicas ou até mais que elas. Eu tenho alguns projetos de vídeo e eu espero que eles saiam ainda em 2015. Estou estudando as possibilidades de realizá-los. A produção é algo bem complicado, por isso, sempre demoro pelo menos um ano até ter um vídeo novo.

Foto: Gianfranco Briceno

Foto: Gianfranco Briceno

E quanto aos festivais? Você vem pelo Vaca Amarela, que valoriza a musica independente. Como você vê isso, a importância deste cenário?
Música independente é sempre onde surge o novo. O mercado só está interessado no novo quando ele se torna velho. Quando digo “mercado” quero dizer o mainstream. Eu sinto que o cenário de música independente é onde podem surgir novas possibilidades, sempre. Por isso é tão importante que exista uma valorização dessa cena em todos os lugares do Brasil e do mundo. É onde surgem coisas novas e onde o mundo pode evoluir. Em Goiânia mesmo tem uma série de festivais independentes muito fortes e é uma cidade que tem crescido muito. À medida que os festivais crescem, as bandas goianas também crescem nacionalmente; como várias bandas de que sou fã, que vão de Boogarins à Banda Uó. O mercado tradicional, obviamente, preza pelo tradicional e o independente é isso, ele preza por novidade.

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