Tattoo Rock Fest valoriza a cultura underground na capital goiana

Além de mais de cem tatuadores, a 11ª edição do evento traz no headline: Matanza, Filipe Ret e Móveis Coloniais de Acaju

No hall de atrações, ainda tem o Mercado dos Sabores e o bazar Mix Gyn | Foto: Guiulherme Leite

No hall de atrações, ainda tem o Mercado dos Sabores e o bazar Mix Gyn | Foto: Guiulherme Leite

Yago Rodrigues Alvim

Em 2002, o produtor cultural Danilo Gonçalves tatuou na capital goiana um dos maiores festivais de tattoo e rock‘n roll do país. A 11ª edição do Tattoo Rock Fest não só comemora uma line-up para lá de prestigiada ou até mesmo as parcerias que diversificam as atrações do festival. Uma das maiores conquistas tem sido a valorização do mercado underground, a troca de conhecimento e técnicas entre os tatuadores e, principalmente, a superação de preconceitos e estigmas com quem é todo tatuado.

A primeira história que o produtor cultural contou foi do então superintendente da Caixa Eco­nômica Federal em Goiás. Ele e sua esposa, não mais tão jovens –– Danilo arriscou 70 anos –– participaram de uma das primeiras edições do festival e resolveram colorir a pele. Segundo ele, na época, a informação era escassa. Principalmente devido à falta de acesso. “Não tinha internet que mostrava o quão é simples uma tatuagem.” Ninguém sabia bem como era feita, nada disso.

Os senhorzinhos então se tatuaram. Foi o inicio de uma jornada que desvela, seja em vídeos espalhados pelo canal YouTube, ou relatos de amigos, conhecidos próximos e as próprias convenções, que tatuagem não faz de uma pessoa alguém mau. Podem ser formados em Medicina, Direito, Artes, qualquer curso, e ter um trabalho formal. Ser alguém de boa índole, que pensa e vive o mundo. “Muitos têm preconceitos e quando vão a convenções, eventos como o Tattoo, percebem que são simplesmente seres humanos”, conta.

Conviver, participar é um jeito de ir acabando com os estigmas que a tatuagem carrega. Tanto que nem só de rock é feito um tatuado. Nas primeiras edições, o produtor conta que o público era mais underground. Atualmente, mais esclarecidas, as pessoas entendem que a tatuagem não é algo marginal e muito menos de roqueiros e só. Tem quem goste de sertanejo, samba, reggae. A linha de frente do Tattoo ainda é o rock. Ainda assim, o local é para todas as pessoas. “É um evento que começou com o rock agregando a tatuagem e continua. Mas é multicultural, está aberto a todo tipo de público.”

Quanto aos tatuadores, Danilo ressalta que o Tattoo surgiu no intuito de trazer informações para os tatuadores. Filho de Sampa, o produtor conhecia muitos tatuadores da cidade e até mesmo de Goiânia. Com dois anos morando já em sua nova cidade, Danilo conversou com tatuadores e assim peitou criar um festival que agregasse tattoo e rock – hoje, formato já popular nos diversos cantos do Brasil. Assim, embalados não só pelo ruído das máquinas de tatuagem, os profissionais iam crescendo, trocando técnicas e experiências.

–– Até hoje é assim; deu muito certo. Não tinha nada parecido em Goiânia. E, ainda hoje, com vários festivais do mesmo formato espalhados pelo país, temos um dos maiores públicos. É um jeito dos tatuadores exporarem seu trabalho no mercado e das pessoas terem conhecimento desse trabalho. Com as bandas da mesma forma. Como atraímos muitos visitantes, é um evento de peso, muitas bandas se tornam conhecidas, pois têm a oportunidade de mostrarem seus sons.

Neste ano, Danilo está com parceria. A seleção das bandas e toda produção envolvida ficou por conta da Monstro Discos. É que Danilo, além de produtor, é chef. Ele comanda o Lá em Casa – Tragos e Grelhados. E como se não bastasse dois filhos, está inaugurando mais uma filial do restaurante, o Lá em Casa Express. A habilidade que não só deu um cardápio inteirinho assinado por Danilo para os restaurantes, também o instigou a criar uma feira gastronômica no festival.

–– Eu comecei a cozinhar nas horas vagas, por brincadeira, e hoje tenho o restaurante. A ideia de fazer a feira gastronômica é antiga, só que faltava tempo. Por viver neste cenário, participar de outros festivais gastronômicos, conheci o pessoal do meio e incluímos essa vontade dentro do Tattoo para dar um start, como uma experiência para o Mercado dos Sabores, que pretendemos que se torne um evento à parte do Tattoo e tenha outras edições.

Além da feira, o projeto Merca­do Mix Gyn agita o festival. É um bazar, um mercado mais informal de roupas e artesanato. “Muitas pessoas não têm onde e como divulgar seu trabalho, por isso estamos com o projeto, tentando criar espaço no Tattoo”, diz. Freak Show e suspensão são outras atrações. Sempre ligadas a tatuagens e piercings, as atividades partem da galera que gosta de bodypiercing e se especializou na área. Segundo Danilo, eles foram agregando essa cultura ao evento.

Existe uma premiação simbólica pelas tatuagens. São vinte categorias. Em 2015, algumas categorias cederam espaço a novas. Existe agora a “New Tradicional”, “Aquarela”, “Caligrafia”, que são tipos de tatuagens que têm crescido muito no gosto do público, e têm as tradicionais que são “Tribal”, “Comics”, dentre outras. “Tem um julgamento pelo qual são escolhidas as melhores tatuagens, inclusive a melhor tattoo feita dentro do evento; as demais não necessariamente precisam ser feitas durante o festival, pois tem trabalhos que demandam cem horas de trabalho, são fechamentos de costas e pernas, por exemplo. É impossível pela complexidade e qualidade do trabalho”, conta.

Além do ingresso, que podem ser adquiridos como passaporte para os três dias de Tattooo, existe o valor da tatuagem, caso o visitante queira se tatuar. É negociado com o próprio tatuador. Danilo diz que é uma boa oportunidade para o público descolar um valor mais em conta ou uma promoção, já que são muitos tatuadores juntos e que, para mostrar trabalho, fazem um preço mais razoável.

A expectativa para os shows é a melhor possível. Ele destaca o head­line que é composto pelo rock‘n roll dos cariocas Matanza, o também carioca Filipe Ret, Móveis Coloniais de Acaju, do Distrito Federal, e pelos shows internacionais com os americanos do Lord Bishop Rocks e australianos do Pimpin’ Horus. Ainda aparecem na line-up, as bandas Carne Doce, Ressonância Mórfica, Project 46, dentre outras. O Tattoo começa na sexta-feira, 11, e vai até domingo, no Jaó Music Hall.

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