Sylvia Plath: a sereia confessional dos mistérios abissais

“Sou pura demais para você ou qualquer outro./ Seu corpo/ me magoa como o mundo magoa a Deus./ Sou uma lanterna”. Trecho do poema “40 graus de febre”.

Ana Luíza Andrade

Sylvia Plath. Foto: Reprodução.

Foi um inverno trágico aquele. O silêncio da neve estendia um tapete austero e branco pelas ruas de Londres. Obviamente fazia frio. A calefação gorgolejava em solavancos pela superfície fina das estruturas enferrujadas de um velho apartamento em Primrose Hill. Poucos sabem, mas ali, anteriormente, viveu também William Butler Yeats, o poeta irlandês, que cantava o “Prazer do difícil”.

Com o orgulho desta herança, a então poeta americana Sylvia Plath zanzava pela cozinha diminuta e colorida naquele fatídico, 11 de fevereiro de 1963.  Dois sanduiches e dois copos de leite. Um para cada filho, ao pé de suas respectivas camas.

Antes do adeus, a poeta ainda teve o cuidado de deixar a janela do quarto aberta. O último beijo, o último olhar, a derradeira despedida. Hora certa: aquele encontro marcado tantas vezes iria finalmente acontecer. Estaria em paz? Ou ansiosa para este compromisso? O que se sabe, pelos seus movimentos, é que seu plano era calculista. Primeiro, vedou as frestas da porta das crianças com panos úmidos. Nada daquilo os atingiria. Estavam a salvo, pensou. A dor da poeta não a tornava menos mãe. Ainda tinha consciência e cuidava das crianças com delicadeza e maestria.

Depois, voltou à cozinha, o lugar onde tantas vezes sufocou a escritora com a máscara de dona de casa. Seu corpo se encolheu a procura de alguma coisa dentro do forno do fogão. Descansou a cabeça no lugar onde assava bolos. Ligou o gás. O silêncio se tornou mais grave. Um minuto. Depois nada.

Longas horas de um luto em suspensão. Ninguém sabia que o universo literário perdia naquele instante, uma das grandes poetas do século XX. Nem mesmo Plath poderia suspeitar o mito em que se transformaria, após a romantização de sua morte. Isso é injusto. Sua obra ainda teria o mesmo valor se seu final tivesse sido diferente. Ainda assim, a tragicidade literária de sua própria vida, se confunde no ritmo de sua poesia. 

Os leitores, ávidos de tragédia, famintos de drama e fatalidades, procuram impiedosamente – entrestrofes –, os indícios desta carta de despedida. É mais fácil viver a dor do outro. É prazeroso quando podemos assistir de longe, aquilo que poderia acontecer em nossas vidas. Ignoram, no entanto, que seu ex-marido, o escritor Ted Hughes foi o grande responsável por selecionar e organizar o trabalho de Sylvia a seu bel prazer. Em sua curadoria, nada fidedigna e desrespeitosa, muito foi deixado de lado. Hughes considerou alguns poemas dolorosos demais ou abaixo da média.

Em entrevista concedida à BBC em 1962, Plath afirma que seu mais famoso livro Ariel era um sintoma de seu renascimento, da superação de uma crise. O livro começaria pela palavra amor, com o poema “Canção da Manhã” e terminaria com o substantivo primavera, no poema “Hibernando”. O voluntarioso e egocêntrico Hughes, no entanto, decidiu que o livro deveria terminar com o trágico poema “Palavras”, para dar o tom de aceitação de morte que ele julgou mais adequado.

Sylvia Plath vai além da própria morte. Não devemos ler sua obra com piedade. A escritora nunca pediu desculpas, não abraçou o pieguismo, estava ciente de sua própria qualidade. Plath era dura, resistente como uma rocha. Ainda assim, esfarelava-se de propósito, abrindo vãos em seu espírito para que flores pudessem romper e atravessar suas próprias pedras.

Humanamente, Plath se confessava, todos os dias. Aos pés da máquina, a escritora fazia suas orações literárias. Sonhava. Também sorria. Como explicar o prazer doloroso da escrita? É preciso mergulhar fundo, tocar os mistérios & medos & gozos & culpas & delírios que o ser humano não ousa dizer, senão em sua própria companhia. A poeta expõe seus segredos entre metáforas. Ali está uma explicação para alguma dor da nossa própria vida. Tudo aquilo que não pode ser mensurado, explicado, quantificado: a poesia incita.

“Como explicar a Bob que minha felicidade depende de arrancar um pedaço da minha vida, um fragmento de aflição e beleza, e transformá-lo em palavras datilografadas numa página? Como ele poderia entender que justifico minha vida, minhas emoções ardentes, meu sofrimento, ao passá-la para o papel?”, ela questiona em seu diário.

No poema Lady Lazarus, um dos poemas de Ariel, a poeta comenta sobre esse custo alto e mal pago da escrita. “Há um preço para olhar minhas cicatrizes,/ há um preço para ouvir meu coração – /Ele realmente bate./ E há um preço, um preço muito alto/ Para cada palavra ou toque/ Ou mancha de sangue/ Ou um pedaço do meu cabelo sobre minhas roupas. […]”, ela diz. E desafia: “Morrer é uma arte,/ Como todo o resto./ Eu o faço excepcionalmente bem/.

Quem teria a ousadia de dizer o mesmo? Elizabeth Bishop cantava a arte de perder com elegância. Enquanto Sylvia, como monges tibetanos, nos ensina a morrer com mais dignidade. Não se trata do suicídio da escritora, mas sim da morte cotidiana. Todos os dias morremos um pouco, nos doamos infinitamente. Alguma coisa se perde para sempre. Nunca somos os mesmos. No outro dia, ressuscitamos do sono. Estamos prontos para mais este sacrifício. Este tabu imperscrutável e assustador: sabemos da morte e ela ainda é um espanto!

Como Rimbaud, Sylvia Plath vai embora justamente no instante em que começa a ser elevada profissionalmente, aos 31 anos. No auge de sua maturidade criativa, a escritora desliga o interruptor e coloca um ponto final em “A Redoma de vidro”. Tudo já foi escrito? Não há mais pontas soltas? É isto? Nunca saberemos. O que deve perpetuar perpetua.

Não há nada a ser lamentado. Temos apenas que aprender. E para isto, para ler Sylvia, é recomendável uma grande e boa dose de ironia. Nem tudo aqui é tristeza e lamentação, e mesmo quando a leitura perpassa as dores e cicatrizes da poeta, seu punho de ferro mordaz nos mostra sua força feminina, que precisa atravessar muros masculinos, a exemplo de Ted Hughes, para sobreviver.

Ainda em Lady Lazarus, a poeta chama pelo “Herr Doctor, Herr Inimigo” e se diz “sua obra-prima/ seu tesouro/ o bebê de ouro puro/ que se confunde num grito”.

Barras de sabão, o anel de casamento, a obturação de ouro, tudo vira cinza nessa poesia. A personagem, aqui, é “um tipo de milagre ambulante”, seu pé direito “é um peso de papel”, o rosto “é um inexpressível, fino linho judeu”. E ela, “uma mulher sempre sorrindo”, com “apenas trinta anos”, é como um gato, “tem nove vidas para morrer”. “Esta é a número três”, ela conta.

No fim do poema, a personagem alerta para termos “Cuidado” duas vezes. Inesperadamente, ela então se levanta “com seu cabelo ruivo” e devora “homens como ar”. Onde está a fraqueza de Lady Lazarus?

Em introdução ao poema, recitado por Sylvia à BBC, a poeta explica que a narradora é uma mulher que possui o grande e terrível dom de renascer. Para isso, é preciso enfrentar a morte primeiro. Ela é o mito de Lázaro, o milagre de Jesus Cristo, ao ressuscitar o morto depois do quarto dia.

Assim também é Sylvia e sua literatura, que deve ser revisitada com respeito e sabedoria. Para os mais sensíveis ela poderá ser um soco no estômago, para as mulheres, um meio sorriso torto, malicioso. Para os mais dispersos e literais, talvez, Plath continuará sendo o enigma da própria dor. Ela é, de fato, Ariel, a sereia que não tinha medo de grandes profundidades, mas que também soube apreciar estrelas, revisitar o passado, expurgar sua mágoa sem perder o orgulho.

Aqui está uma escritora confessional, uma mulher que se entrega, que não tem medo. Aqui está sua vida, resumida em estrofes. Aqui está uma obra que morre e renasce todos os dias. O milagre da poesia, que se faz e se ajusta a medida da leitura. Aqui está a poeta: Sylvia Plath, a Senhora Lázaro, a fênix indestrutível.

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