Sua Majestade a Língua Espanhola

“Querem catalanizar a Espanha? Querem catalanizar-se a si mesmos? Querem fazer cultura? Pois terão de fazê-lo em espanhol, na língua em que escreveram Boscán, Campmany, Balmes, Milá, Piferrer, Pí e Maragall…, na língua em que hoje realizam obra de cultura política Maragall, Oliver, Zululeta…”

Miguel de Unamuno

Tenho à minha frente o discurso, em língua catalã, com que o prefeito de Barcelona se dirigiu a S. M. o Rei, dando-lhe as boas-vindas por sua chegada à cidade condal, e o discurso com que S. M. lhe respondeu, em língua espanhola.

Diz-lhe o prefeito: “Permiti-me que vos dirija no nosso próprio idioma, já que por meio dele damos plena expressão ao nosso sentir e dele nos servimos os filhos da terra catalã para nos dirigirmos a Deus e aos nossos seres mais queridos”.

Alto lá. Primeiro, nosso idioma. Nosso de quem? Di-lo mais abaixo: dos filhos da terra catalã. O prefeito de Barcelona, porém, não representa os filhos da terra catalã, mas apenas os habitantes de Barcelona, muitos dos quais não são catalães, e os habitantes de Barcelona, representados pelo prefeito, sabem todos o espanhol e nem todos sabem o catalão.

“Nunca mais oportuno — segue dizendo — do que nestes momentos, em que desejamos que o nosso afeto e as nossas aspirações cheguem sem as falsificações que exige a tradução do nosso pensamento…”.

Alto de novo! Isto é um dos muitos pedantismos catalanistas. Quer dizer que os deputados catalães falsificam o seu pensamento ao traduzi-lo para o espanhol no Parlamento? Pedantismo puro. Porque um dos muitos pedantismos catalanistas é pretender que em espanhol não sabem dizer bem o que pensam e querem. E como o dizem bem!… Sobretudo quando têm de pedir.

Um poeta maiorquino, e poeta de verdadeiro valor, que durante anos esteve cantando em castelhano, pôs-se a cantar na sua língua de infância assim que entrou em idade mais avançada; e dizia, para explicá-lo, que cantou em castelhano enquanto foi avaro com as lágrimas — a frase, de poeta, é muito bonita —; assim, porém, que sentiu a necessidade de dar voz a intimidades, teve de fazê-lo na sua língua íntima. Talvez haja outra explicação, e é esta: se tivesse obtido a fama e o renome que lhe apeteciam, e que talvez mereça, cantando em castelhano, teria continuado assim. É questão de público.

Mas vamos à resposta que o Governo de S. M. fez ler ao prefeito. Nela faz dizer que lhe são igualmente agradáveis ao ouvido todas as línguas nacionais, parecendo-lhe cada vez mais preferível a expressão que melhor conserve a intimidade ingênua dos corações que sente próximos ao seu.

Surpreende-nos que tenha feito que S. M. o Rei dissesse tal coisa o senhor presidente do seu Conselho de Ministros, que é, ademais, acadêmico da Real Academia Espa­nhola. Língua nacional? Na Espanha não há mais que uma, e é a língua espanhola ou castelhana. Língua nacional o catalão? De que nação? Da espanhola ou da catalã?
Não; a única língua nacional da Espanha é a língua espanhola; a única língua, língua integralmente espanhola e, ademais, língua internacional, língua mundial. Nela profere os seus discursos o senhor presidente do Conselho de Ministros, e não em língua da sua infância, não em língua materna, não em maiorquino.

Nada tenho contra as aspirações do povo catalão, e oxalá tivesse esse povo os anseios de expansão, de imperialismo que alguns dos seus filhos, com nobre empenho, lhe querem infundir.

Detesto os retraídos, os abstinentes, os que recusam ou temem influir nos demais, impôr-se a eles. O cerne da minha ética é que cada um deve tentar marcar os outros com o seu selo, esforçar-se por apartá-los do caminho em que vão, para trazê-los ao seu. Quem assim não age, ou é um egoísta ou um incapaz. Quem trate apenas de salvar a própria alma, perdê-la-á, e o melhor modo de salvá-la é cuidar da salvação dos demais. E isto fazemos impondo-nos a eles. Se o meu irmão caminha cego para um abismo, é meu dever desviá-lo da sua senda, ainda que à força. O inquisidor é mais caridoso do que o anacoreta.

E nada me aborrece mais do que o anacoreta que, encobrindo, sob a capa de cético, o seu egoísmo e a sua avareza espiritual, exclama: “E saberei por acaso qual o melhor caminho? Saberei se sou eu ou ele quem vai pior? Saberei se o que creio ser o abismo não é a salvação?” Com os que assim dizem, não nos resta senão o conselho de Dante: olhá-los ao passar, sem falar deles. Se cada um é por si, Deus está contra todos.

E o que digo dos homens tomados individualmente, digo também dos povos.

Aqui na Espanha, cada região deve esforçar-se por expandir o espírito que tenha, por dá-lo às demais, por dar a estas o ideal de vida civil pública que tenha e, se não o tiver, talvez só o possa adquirir buscando-o para dá-lo; por marcar as demais regiões com o seu selo. O dever patriótico e, ainda mais que patriótico, humano de Castela é tentar castelhanizar a Espanha e mesmo o mundo; o de Galícia, galeguizá-la; andaluziá-la, o da Andaluzia; basconizá-la, o do País Basco; e o da Catalunha, catalanizá-la.

É certo que os catalães se propõem catalanizar a Espanha? Oxalá! Mas a sua ação, até agora, não obstante algumas vozes isoladas, é puramente defensiva e puramente política, isto é, egoísta e mesquinha, não é nem ofensiva nem cultural. Esforcem-se por catalanizar a Espanha, a Europa e mesmo o mundo, por lhes dar o seu ideal de vida civil e cultural, e o adquirirão para si mesmos — já que hoje não o têm — e serão salvos.

Não o têm, não, pois a desorientação política e cultural não é menor na Catalunha do que no resto da Espanha, digam o que quiserem os que julgam o fogo pela fumaça. Querem orientar-se? Querem ter ideal? Tentem dá-lo aos demais, exportá-lo.

Esforcem-se nisso. Mas, ao esforçarem-se, logo se darão conta de que terão de fazê-lo em espanhol, em língua espanhola, na única nacional, não só da Espanha mas de uma vintena de nações espalhadas por todo o mundo, na língua hispano-americana, língua mundial.
Querem catalanizar a Espanha? Querem catalanizar-se a si mesmos? Querem fazer cultura? Pois terão de fazê-lo em espanhol, na língua em que escreveram Boscán, Campmany, Balmes, Milá, Piferrer, Pí e Maragall…, na língua em que hoje realizam obra de cultura política Maragall, Oliver, Zululeta…

Não conheço nada mais soberanamente ridículo do que essa tola tentativa de traduzir “El Criterio”, de Balmes, para o catalão. Se pelo menos fosse “El Liberalismo es Pecado”, de Sardá e Salvany, que nunca deveria ter sido escrito em outra língua!… Tal tentativa equivale a tentar pôr Renan em bretão, ou Burke em irlandês, ou Thiers em provençal, pois essas três línguas também tiveram as suas literaturas e houve tempos em que refletiram civilizações.

O prefeito de Barcelona recordava a S. M. o Rei que na sua recente visita a terras estrangeiras terá podido observar, em algumas delas, regiões pertencentes ao mesmo Estado expressando-se em línguas diferentes, sem que isto quebre ou enfraqueça no mais mínimo a cordialidade de relações que entre as mesmas deve existir. Referia-se, sem dúvida, ao império austro-húngaro. Mas que modelo! Que modelo de nação esse Estado corroído por ódios intestinos e no qual não há outro princípio de unidade senão um espírito de sombrio reacionarismo! Que modelo é a Áustria! Só isto nos faltava: austricizar-nos! Depois de tudo o que devemos a todos esses funestos Áustrias! Só nos faltava que em Barcelona houvesse duas universidades: uma em que se ensinasse em castelhano, outra em catalão, como há duas em Praga, onde estudantes de língua checa e alemã vão às vias de fato por qualquer ninharia. Vejam se na Fran­ça, na Alemanha, na Inglaterra ou na Itália dão a mesma importância às línguas regionais; vejam se se dirigem ao presidente da república francesa em provençal ou bretão, ao kaiser em plattdeutsch ou polaco, ao rei da Inglaterra em galês.

E, se me falam da Suíça, a Suíça não é uma nação, mas uma confederação de nações, e a Espanha não pode ser federal; colméias não regridem a corais. Em nenhuma nação una, como é a Espanha, ocorreria algo assim. Será político buscar um êxito passageiro para o chefe de Estado em prejuízo da augusta majestade da língua nacional?

Nesta questão da língua nacional temos de ser inflexíveis. Cobrem toda a autonomia municipal e provincial que quiserem, portos abertos, liberdades e privilégios e foros de toda classe; mas tudo oficialmente e em espanhol, em espanhol as leis, em espanhol os contratos que obriguem, em espanhol tudo quanto tenha força legal civil, em espanhol, sobretudo e antes de tudo, o ensino público em todos os níveis.

A Igreja pode e deve doutrinar cada um na sua língua materna, pois tenta salvar-lhe a alma, e para isso não faz falta a cultura; mas o Estado, que é e deve ser antes de tudo um órgão de cultura, deve impôr a língua de cultura. E de cultura moderna não há senão uma língua na Espanha: a língua nacional, a espanhola.

E não só por razão de estrita justiça, já que dar valor oficial ao catalão seria obrigar injustamente os habitantes não catalães da Catalunha a aprendê-lo, mas também para o bem deles, dos catalães.

Para o bem espiritual da Catalunha, para o bem da sua maior cultura, é preciso manter a oficialidade irrestrita e exclusiva da língua espanhola, da única língua nacional da Espanha. Ao sentimento, sempre respeitável, fica como asilo e refúgio a literatura. Em catalão canta, e canta notavelmente, Maragall; mas quando, a seu modo, teve de fazer política, fê-la quase sempre em espanhol, e num espanhol muito fogoso e saboroso.

Isso de que os catalães não conseguem expressar-se bem em espanhol é um pedantismo de muitos dos próprios catalães e de não poucos castelhanos infectados por esse casticismo pestilento, que é uma das maiores pragas da língua e o que mais impede a sua difusão. E a língua espanhola ganhará sendo a de todos os catalães, pois ao falá-la dão-lhe o seu espírito e a ampliam desde dentro.

E talvez seja em espanhol que a Catalunha chegará a descobrir o mais profundo das suas profundezas espirituais, assim como a Prússia não o descobriu em lituano, mas em alemão, e Provença talvez mais em francês do que em provençal. Se a Catalunha quer traduzir-se e quer traduzir a Espanha para o europeu, tem de fazê-lo em espanhol, que é a sua língua futurista, a do seu porvir. Falar de futurismo em catalão é um contra-senso; em catalão podem-se cantar nostalgias íntimas e falar arqueologicamente de ideais do tempo do rei D. Jaime ou de Raimundo Lulio; mas não da vida civil do porvir. Não se pode falar bem de futurismo numa língua do século XV; para falar disso há o espanhol, que viveu vida civil, européia, moderna, nos quatro grandes séculos, do XVI ao XX, nos séculos do Renascimento, da Reforma e da Revolução, séculos durante os quais a língua castelhana, a língua espanhola, civilizou a Catalunha.

Sim, civilizou-a; quer dizer, liberalizou-a. Pois a civilização catalã moderna é espanhola e liberal, é, quanto à língua, castelhana. Em espanhol aprenderam ciências e filosofia e pensamento moderno. O seu próprio catalão, a sua língua regional, a que falam, e não esse produto galvanizado em que escrevem alguns eruditos e escritores profissionais que o povo entende mal, a sua língua regional corrente e habitual, é um catalão castelhanizado. E não se descastelhaniza com ridículas medidas adotadas por votação num Congresso da Língua, cujo espírito diretor, o apóstolo Mosén Alcover, não parece ter idéia do que seja uma língua viva. Não; quando querem pedir algo de valor, têm de pedi-lo em espanhol, e quando têm de influir sobre o seu próprio povo, não sobre os pedantes do renascimento da velha língua, escrevem no parlar municipal de La Veu de Catalunya, que como catalão é detestável. Quer dizer, excelente, pois é o catalão vivo e corrente, castelhanizado, em vias de se fundir no espanhol, como já está fundido quase de todo o valenciano.

Para esta grande língua internacional e mundial, a língua espanhola, convergem os verbos de uma multidão de povos espalhados por todo o mundo; para ela convergirá o catalão. É o nosso mais precioso tesouro comum.
É o castelhano uma língua dura? — Depende de quem a pronuncie. — É pobre em sons? Melhor; a perenidade de Velázquez depende da sua sobriedade nas cores. É enfática? E daí? É… Tolices de pedantes, que não faltam em nenhuma parte, e em algumas se encontram mais do que noutras, e de literatos condenados a não ser nada e a não encontrar aplauso e eco senão expressando-se na língua caseira, a da mesa e da alcova.

Está bem, muito bem, guardar carinho pela língua em que primeiro se pediu comida ao pai e em que se fez amor com a noiva; mas não é nela que se pode fazer amor com o mundo nem pedir-lhe civilização. “É a língua em que nos dirigimos a Deus”, diz a S. M. o Rei o prefeito de Barcelona, como se fosse o catalão a língua em que se dirigem a Deus todos os habitantes de Barcelona, catalães e não catalães, por ele representados; “é a língua em que nos dirigimos a Deus”. Mas, além de que Deus ouve melhor o nosso silêncio do que as nossas palavras, pois com estas tentamos encobrir o nosso pensamento ante Ele, o Rei não é Deus, como o Estado não é a Igreja, nem a cultura a religião. Não pode haver mais que uma língua para dirigir-se pública e oficialmente ao chefe de Estado, que é órgão de cultura, e essa língua é a língua de cultura, a única língua de cultura moderna que há na Espanha, a sua única língua nacional, a língua espanhola.

Não é à toa que essa importância concedida à língua catalã seja aplaudida pelos anti-liberais do resto da Espanha. Sim; a língua espanhola é veículo de liberalismo, como tudo o que une e relaciona intimamente os povos. O ideal de certas pessoas seria cada povoado com a sua língua rústica, aquela em que o cura lhes pregasse, e portanto o latim litúrgico como língua universal dos doutores da Santa Madre Igreja, dos que saberão responder àquilo que não se deve perguntar a nós, que somos ignorantes.

Deixo de lado, claro está, tudo o que toca a essa arqui-ridícula disputa escolástica, puramente verbal, sobre ser o catalão dialeto ou língua. É discussão que já não cabe senão entre mentecaptos, dá na mesma sustentar uma coisa ou outra, pois é apenas questão de nomes. Dialeto ou língua é a mesma coisa; não daremos importância capital a questões de nomes, coisa nada estranha num país de frases, em que se inventa esse mote do futurismo para uma particular retórica política em catalão. Traduzam-no para o espanhol, se querem exportá-lo. E se não o exportam será tudo, menos futurismo; será sempre preterismo. Deixem, por amor à cultura, o catalão para as pastorais do senhor bispo de Vich, que não necessitam, decerto, de unção e de força. Mas futurismo em catalão…?

E ante o perigo que representa para a cultura, e ainda mais para a pátria, haver-se permitido ao prefeito de Barcelona dirigir-se em língua regional ao chefe de Estado espanhol, e o perigo que representa ter-se feito este chamar nacional a uma língua que não o é de nenhuma nação hoje em dia, já que a Espanha, graças a Deus, ainda não é o império austro-húngaro, ante isto têm de se unir todos os verdadeiros futuristas, todos os amantes da cultura, para defender a augusta majestade da língua espanhola.

Tradução de “Su Majestad la Lengua Española”, publicado originalmente em “Faro”, no dia 01 de novembro de 1908, por Demian Gonçalves Silva. Revisão de Ronaldo Barreto Leite Filho.

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ADALBERTO DE QUEIROZ

Que pretérito e que atualidade neste artigo. Parece ter sido escrito ontem para que a Espanha (e os revoltosos catalães) o lessem hoje cedo. “Para o bem espiritual da Catalunha, para o bem da sua maior cultura, é preciso manter a oficialidade irrestrita e exclusiva da língua espanhola, da única língua nacional da Espanha. Ao sentimento, sempre respeitável, fica como asilo e refúgio a literatura. Em catalão canta, e canta notavelmente, Maragall; mas quando, a seu modo, teve de fazer política, fê-la quase sempre em espanhol, e num espanhol muito fogoso e saboroso. Isso de que os catalães não conseguem… Leia mais