Star Wars, uma outra Nova Esperança

Ao retomar os temas antigos da saga, sétimo filme mostra ao público uma história nietzschiana e deixa uma boa expectativa para o próximo episódio

BB-8: o dróide que se tornou símbolo da nova trilogia

Ademir Luiz
Especial para o Jornal Opção

Há muito tempo, em um cinema distante, mais precisamente no dia 25 de maio de 1977, quando estreou o primeiro episódio da saga Star Wars, o título do filme era simplesmente esse “Star Wars”; apenas em 1980, após o lançamento da continuação, “Episódio V: O Império Contra-Ataca”, foi rebatizado como “Episódio IV: Uma Nova Esperança”. Desde então, a marca Star Wars passou a representar o conjunto de filmes, desenhos, livros, quadrinhos, jogos, séries e brinquedos derivados da primeira obra. Incluindo a desastrosa trilogia prólogo, que tirou a esperança de muitos fãs da saga.

Mas como a esperança é a última que morre, ela ressurgiu com o novo filme: “Episódio VII – O Despertar da Força”, sob a tutela dos estúdios Disney. As previsões se confirmaram: retirando George Lucas da equação o resultado tende sempre a ser positivo. Lucas, inegavelmente um grande produtor e vanguardista tecnológico, perdeu o talento artístico no final da década de 1970 e nunca mais o recuperou. Mickey Mouse e sua turma fizeram melhor.

Porém, é sempre bom ter em mente que esperança não é realidade, mas a expectativa de que uma realidade positiva se concretize. A crítica, de modo geral, mostrou-se entusiasmada. Muitos qualificaram o Episódio VII como obra-prima de nascença. Sou um pouco mais cauteloso. Podemos estar testemunhando o começo de uma boa terceira trilogia? Quero crer que sim. “O Despertar da Força” é divertido, movimentado, repleto de boas ideias e novos personagens interessantes, mas está longe de ser impecável como “O Império Contra-Ataca”. É, sobretudo, promissor.

A principal característica do filme é ser referencial. Isso tanto por ser interpretado de modo positivo quanto negativo. Depende do humor do momento. Mas o que significa isso? Pode ser resumido da seguinte forma: Episódio VII é quase uma refilmagem do Episódio IV, com alguns elementos do Episódio V. Vamos aos fatos: temos um dróide perdido contendo informações vitais sendo procurado pelos vilões; uma protagonista de passado obscuro que sai de sua existência monótona para viver grandes aventuras de alto-descoberta; um mocinho sendo torturado por bandido vestido de negro; a ação começa em um planeta desértico e termina numa estação espacial; há um confronto entre pai e filho numa ponte; o vilão maior só aparece em holograma; planetas que são completamente destruídos; uma imensa estação espacial que precisa ser detida antes que esteja pronta para disparar sua rajada fatal; um cavaleiro Jedi eremita precisa ser encontrado e segue por aí.

É preciso reconhecer que apenas os mal-humorados vão interpretar essas filiações como falta de imaginação. Creio que tanto funcionam como rimas narrativas, em seu aspecto artístico, quanto como o rearranjar da saga de modo a apresentá-la para uma nova geração a partir de suas premissas básicas, em seu aspecto comercial.

Mas prefiro uma terceira possibilidade: a história dessa galáxia distante é nietzschiana. Ela se estrutura a partir da noção filosófica do Eterno Retorno. Ou seja: os elementos e fatos passíveis de acontecerem, bem como suas combinações, são finitos. Portanto, a história tende a se repetir ao longo das eras, de modo inapelável. Essa visão de um futuro cíclico teria ajudado a enlouquecer o bigodudo Nietzsche. No caso de Star Wars não é para tanto. Afinal, o “Episódio VI: O Retorno do Jedi” já era quase uma refilmagem do Episódio IV. No mínimo podemos considerar que revisitar temas é uma tradição da saga.

Quais os pontos fortes do “Despertar da Força”? Para começar, a direção de J.J. Abrams é bastante competente, mostrando ser uma boa escolha para esse reinício. Rey, a protagonista interpretada pela jovem atriz inglesa Daisy Ridley, revela-se muito carismática. John Boyega, o intérprete do stormtrooper renegado Finn, também está bem, mas num degrau abaixo de Daisy. O piloto Poe Dameron, vivido por Oscar Isaac, também é ótimo e tem potencial para ser o Han Solo dessa trilogia. Por falar no bom e velho Capitão Solo, Harrison Ford rouba a cena como só uma mega-estrela sabe fazer.

A direção de arte é impecável. A fotografia é belíssima e épica. Vários planos parecem quadros prontos para serem emoldurados. O maestro John Willians teve o bom senso de não querer reinventar a roda que ele mesmo inventou na década de 1970 e entregou uma trilha sonora empolgante e reverente aos temas clássicos. O dróide BB-8 nasceu icônico, fazendo o que parecia impossível: graças a ele ninguém sentiu falta do R2-D2.

O que é mediano em “Des­per­tar da Força”? O roteiro assinado pelo trio J.J. Abrams, Michael Arndt e Lawrence Kasdan, embora tenha qualidades é exageradamente episódico, possui diversas cenas inúteis, deixa pontas soltas desnecessárias e falha na apresentação do contexto político da narrativa. A interpretação de Carrie Fischer como a General Léia Organa é apenas burocrática, estando desconectada do que a própria atriz realizou antes, fazendo Léia parecer outra personagem. Não chega a comprometer, mas poderia ser melhor, assim como a galeria de vilões: de Kylo Ren ao mestre do mal Snoke, passando pelo general Hux, parecem amadores se comparados aos profissionais Darth Vader, Palpatine e Jabba, o Hut.

Quais os pontos fracos do “Despertar da Força”? A capitã Phasma é a Boba Fett do filme: o visual é fantástico, mas não faz quase nada e, quando faz, revela-se medíocre. O uso de computação gráfica na construção de Maz Kanata, uma espécie de Yoda sem a Força. Como J.J. Abrams privilegiou o uso de efeitos práticos, a aparência sem peso da personagem destoa do restante do filme.

Mas o grande problema do longa é que ele não consegue estabelecer de maneira clara como a galáxia está organizada politicamente. Na trilogia clássica sabíamos que existia um Império maligno e que uma Aliança Rebelde pretendia derrubá-lo para reerguer a República. Na trilogia prólogo sabíamos que havia uma República um tanto decadente e que forças separatistas pretendiam se retirar dela, numa clara alusão à Guerra Civil Americana. Neste episódio VII citam de modo esparso uma nova República sem deixar claro qual papel administrativo ela exerce. Do mesmo modo, fica no ar o que exatamente é a “Resistência”. Resistência contra o quê? É um braço armado da República? Se sim, por que parecem guerrilheiros renegados e não forças oficiais de manutenção da paz? Por que usam sucata como nos tempos da Aliança Rebelde? Fizeram voto de pobreza? Estranho!

O inimigo da vez é a chamada Primeira Ordem, aparentemente erguida a partir dos escombros do Império. Mas em momento algum temos noção do tamanho de sua influência e, sobretudo, como ela é mantida. É patrocinada por planetas rebeldes? Como conseguiram construir uma estação espacial ainda maior que a Estrela da Morte sem ser status quo? De onde vieram os recursos? Como a República não ficou sabendo em tempo de impedir? De onde surgiu o tal mestre Snoke, o grande líder da Primeira Ordem e Sith de plantão? Parece idoso. Era um discípulo secreto do Imperador Palpatine?

Outro ponto fraco indesculpável está nos duelos de sabre de luz. Basicamente ocorrem três. O primeiro é entre Finn e um stormtrooper genérico (poderia ter sido contra a desperdiçada capitã Phasma). Desnecessário define a cena. O segundo é entre o mesmo Finn e o Darth Vader Jr. Kylo Ren. Por que Kylo Ren simplesmente não cortou o adversário ao meio no primeiro golpe? O personagem estabelecido até então não teria dificuldades nem pudores para fazer isso, como pareceu ter durante o combate. Pior, por que não decepou nenhum de seus membros quando “finalmente” conseguiu atingir Finn? Mal escrita e dirigida define a cena.

O terceiro duelo é entre Kylo Ren e a heroína Rey. Por mais poderosa que potencialmente Rey seja ela jamais pegou em um sabre de luz antes. O sabre de luz é um instrumento de precisão que exige treino para ser manipulado, não é um objeto movido pela Força. Portanto, a simples intuição não seria capaz de explicar a maneira como Rey se defendeu, atacou e derrotou o relativamente experiente Kylo Ren, uma criatura capaz de parar no ar um disparo laser. Inverossímil define a cena.

Os duelos de sabre de luz, em grande parte, foram responsáveis por manter Star Wars no imaginário co­letivo por quase quatro décadas. Precisam ser tra­tados como prioridade em qualquer filme da saga. Aqui entraram de forma gratuita e pouco lógica. Um retrocesso em comparação com os filmes anteriores. Até Geor­ge Lu­cas conseguiu fazer melhor.

Mas ainda há esperança. Se “O Despertar da Força” foi bem-sucedido em alguma de suas intenções foi em suscitar expectativas quanto ao Episódio VIII. Nele teremos o lendário Jedi Luke Skywalker. O grande mestre espadachim vai mostrar para esses amadores como se faz. l

2 respostas para “Star Wars, uma outra Nova Esperança”

  1. Avatar Pedro Terrarum disse:

    Bondade do autor usar Nietzsche para tentar salvar as graves falhas de enredo do filme. Aliás, para o filósofo alemão o tempo não era bem cíclico (uma mera repetição), mas era em espiral (repetição das estruturas, mas a mudança dos elementos). Seria, então, possível evoluir e aprender com os erros. No caso da República, a experiência histórica não foi suficiente nem para criar um serviço secreto. Será que não existia memória em Star Wars?

  2. Excelente essa análise do filme. Só achei incongruente a analogia com o Boba Fett, que também nunca foi nenhum personagem tão importante assim. A imagem do Boba Fett foi tomando maiores proporções no inconsciente coletivo dos fãs nem sei por quê.

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