Somos todos Rocky Balboa

Inspirado em uma história real, o filme conta a história de um autêntico herói, aquele forjado na rotina diária, na falta de grana, e que tem problemas com o chefe, como eu e você

Rocky é um herói de carne e osso, que supera as limitações dessa sua condição para se tornar imortal. Rocky é o que todos queremos ser

Rocky é um herói de carne e osso, que supera as limitações dessa sua condição para se tornar imortal. Rocky é o que todos queremos ser

João Paulo Lopes Tito*
Especial para o Jornal Opção

Quando criança, os caras com superpoderes fascinam mais a gente. Preferimos mil vezes a habilidade de voar ou de ter visão de raios-x do Superman do que saber manusear uma Walther PPK, arma de James Bond, ou conquistar Pussy Galore, uma das mais famosas bondgirls. Porque, de resto, não precisávamos de mais nada na vida. O maior problema do mundo é aquele homenzinho dos Comandos em Ação que seu primo tem e não quer te emprestar, ou a pipa engarranchada na árvore — ainda hoje, prefiro o Homem-Aranha ao Jason Bourne, mas deixo as interpretações disso aí para os psicanalistas.

Mas com a idade, o amadurecimento pessoal (e social, e intelectual, e profissional e em todas as outras áreas humanas que nem sabíamos que existiam quando criança) nos leva a uma constatação terrível: somos falíveis. Temos defeitos. E a realidade impõe limites duros a nossos desejos.

O verdadeiro herói, digno de ocupar as mais altas cadeiras no Olimpo e conquistar a admiração e­terna não é aquele que possui su­perpoderes ou habilidades especiais.
Esse daí é o camper, o que usa manha e cheat code para zerar Street Fighter no modo easy — “camper” é um termo popularmente usado por jogadores de videogame de tiro e designa aquele jogador que acha um bom esconderijo, com vista de tiro privilegiada e não se arrisca mais no jogo; já “cheat code” são códigos especiais utilizados em jogos de videogame. Os jogadores que os descobrem têm acesso a privilégios, armas e golpes que outros não têm.

O autêntico herói é o cara que, acomodado a determinada realidade, supera suas limitações, atende ao chamado da vida e vai para a guerra. É o underdog. O falido, o nerd, o que usa botas ortopédicas. Mesmo com todas as dificuldades e barreiras e tendo o mesmo arsenal que qualquer outro humano (ou, às vezes, até menos), faz o que tem que ser feito e, por esse motivo, se torna uma pessoa melhor. Para o mundo ou só para si mesmo. Descobre seu enorme potencial, sua força interna.

E não pense que isso não vem acompanhado de uma boa dose de medo. Afinal, sair da posição cômoda de derrotado e enfrentar o desconhecido, em menor ou maior grau, é enfrentar a dúvida, o incerto, a possibilidade do erro: a morte. Coragem e determinação são as armas que interessam. É um pouco mais do que um sabre de luz ou uma armadura de ferro (ainda que todas essas coisas sejam legais pra caramba).

O Rocky Balboa é esse cara. Forjado na rotina diária, na falta de grana, na rejeição pela namorada, na ausência eventual da família. Caras como eu e você, que têm problemas com o chefe, ficam irritados no trânsito e perdem a cabeça com futebol. Não é à toa que foi inspirado em uma história real.

Sylvester Stallone, um então desconhecido (e falido) ator nova-iorquino, escreveu o roteiro de Rocky — e impôs, como condição para vendê-lo, atuar no papel principal — depois de assistir a um anônimo boxeador, o então Chuck Wepner en­frentar o mito da categoria Mu­ha­mmad Ali (no filme, retratado como Apollo Creed), com a única missão de sobreviver o quanto conseguisse.

Absolutamente ninguém previa que ele conseguiria aguentar o campeão do mundo por todos os 15 rounds. Na visão técnica do es­porte, a única diferença entre perder no primeiro ou no último round é a quantidade de hematomas que se leva para casa, mas Wepner tinha o objetivo pessoal de sobreviver ao maior boxeador de todos os tempos. E sobreviveu.

Rocky é o herói de carne e osso, que supera as limitações dessa condição para se tornar imortal. É o cara que não precisa provar nada para ninguém e que carrega a tranquilidade e a humildade de quem só tem compromisso consigo mesmo — isso, com suas limitações físicas, morais e espirituais. Pois, afinal de contas, a única vitória que interessa é ser o herói de si mesmo.

*João Paulo Lopes Tito é assessor jurídico no Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJ-GO).

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