A solitária contemplação de Adalberto de Queiroz

“Cadernos de Sizenando” vem de longe, com anotações tomadas no dia a dia, de um tempo que não pede lamentações, mas o fluir da mais doce alegria, contida em pequenos lembretes, cartas, e-mails, milhares de textos, blogs e grupos de amigos

Adalberto de Queiroz, autor de “Cadernos de Sizenando” | Foto: Valdemy Teixeira

Adalberto de Queiroz, autor de “Cadernos de Sizenando” | Foto: Valdemy Teixeira

Sônia Maria Santos

Ardentes são os mistérios na roda implacável do tempo, de um Deus, de um esplendor, cuja trama atravessa com a sua luz, a luz de um poeta, ao ler e reler os dias, desde os mais longínquos e primordiais. Olhos que veem, vigiam, indagam. Mãos que apalpam húmus, minerais, argilas, e ainda carregam uma espécie de pureza e virgindade; vontade de conter belezas, ternuras e as indecifráveis músicas que põem o universo a girar.

“Cadernos de Sizenando” vem de longe, com anotações tomadas no dia a dia, de um tempo que não pede lamentações, mas o fluir da mais doce alegria, contida em pequenos lembretes, cartas, e-mails, milhares de textos, blogs e grupos de amigos. Nesses achados, a longa beleza da sua história, essencialmente rica, em conteúdo e caminhos percorridos, sem perder sequer um grão de areia.

Vejo nesse livro relíquias que se acomodam por necessidades, as mais antigas. Sizenando, seu avô, razão suprema, seu mote e alegria, intitula o livro. Daí, o sagrado direito de por ele se deixar levar. Adalberto de Queiroz sustenta na sequência do seu livro a poesia desejada, por vocação e destino: indispensável. “Keats escrevera que o poeta deve dar poesias naturalmente, como a árvore dá folhas (…)” (Borges, 1999, p. 104). Assim, fluindo, nascem os poemas do autor, jamais deixando de saltar aos olhos os seus saberes, linguagem apurada, e suas viagens no reino da boa leitura.

Impregnado dos guardados, das gavetas encantadas, versos do poema “Água limpa”:

“Se da água limpa dos rios,/ O poeta alcança – incólume/
as fontes d’água viva…/Oh! Claro lume:/
bebe em sanga clara./Bebe c’o as mãos/na vertente rara/
sequioso estro./Não se abaixa/À flor d’água,/
feito um cão:/Lambendo a água.”

Transcrevo ainda, da memória do autor, versos do poema “A. E. G…” Três letrinhas para evocar a infância, seus sonhos, intensidades, seus sedimentos profundos:

“Dora, você se lembra?/Recorda-te, Laíde?/
Onde está dona Modesta?/Onde, o sêo Roque?
Onde estão todos, Meu Deus —
Que não me ouvem mais?”

Simplicidade e beleza coexistem nos seus poemas e revelam ainda um estado de solitária contemplação. Não seria diferente. Adalberto tem o seu deserto, suas dimensões simbólicas, seu óleo sagrado, o altar das manhãs. Numa época de valores tão contraditórios, o autor se aproxima de Rilke: “A arte não é um fazer-se compreensível, mas um urgente compreender-se a si mesmo (…)” (Rilke, 2007, p. 145). Por isso, versos bem desenhados, como em “Azul de Matisse”, de doce encantamento. Ainda, em “Prece ao Anjo-mago Manuel”, o Bandeira, versos assim:

“Diga sêo Manuel, ao menos
Faça aí no alto uma prece
À Santa Terezinha do Menino Jesus
Em meu nome e de todos nós —
Os poetas menores;
Que advogados não temos, senão Tu
E o Quintana, com um sapato florido
Passeando na imensidão do paraíso
E mijando nos muros cheios de heras
De nossa esperança infinita
Amém.”

Ainda, levado ao fogo sagrado das lembranças, o poeta refaz a sua “criação”, experiência genuína ao cantar as mães — infinitamente pronunciadas por Adalberto, como numa lista de chamada — uma a uma — feito contas de um rosário:

“No princípio foi dona Cecília e nasceu Elza e vieram Modesta e Helenir e Maria Nazaré e Carmelita e Laíde e Maria do Carmo e Eleusa-Alice e de novo Modesta e Helenir e Maíra e Cecília e Veridiana e Luzia Isabel e Maria e Faustina e Adélia e Ormi e Luciana e Deusa e Vilna e Mariza e Cida e Maria e Divina e Sônia e Santinha e Fátima e Lueli e Cristina e gerações sucessivas: Mães.”

“(…) — doces nomes em emes em colos em beijos, regaços e seios.
Na imagem do anjo: Mammi…”.
No poema, “Poesia falada”, assim canta o autor nos primeiros versos:

“palavra à noite cantada/c’o a manhã se desfaz
em palavra granulada:/matinal achocolatado
já não se sente a poesia/tal qual ressoara Clara
na madrugada alta
— Et pourtant, fala!/Será a escrita fogo fátuo?/
marca gravada em gado,/ou cardo na sua pata?/
(o poeta-boi rumina,/mas não é vaca sagrada).”

“No caderno de Crônicas”, são latentes ainda as expansões da alma do autor. Reflexões, experiências, autores e inserções tão significativas, quanto o “sonho da tigela de sopa quente que nos põe diante do mistério da Sagrada Família”. O leitor, nessa fração do livro vai encontrar matizes e sabores diferentes, mas sempre relacionados e maturados na busca dos afetos, da beleza, do sagrado, da compreensão da vida, como se vê na crônica “O quinhão da alegria”. Nela, Adalberto faz referência ao livro “Manhãs de São Lourenço” de Alceu de Amoroso Lima. Dele transcreve precioso texto:

Na capelinha feita “de pau a pique, sem reboco, com o sininho no vão em cima da porta de entrada, o telhado em duas águas, tudo com vinte e sete braças por dezesseis” explica o cronista do que aprendera com o mestre-de-obras… “naquele silêncio somos poucos — mais do que as graças, menos do que as Musas” e aí se dá o milagre do grande sacrifício: a missa e o batismo de dezenas de crianças.

Nos “Cadernos de Sizenando”, a lírica presença do autor e suas dilatadas possibilidades. Do avô, recebe a graça da sabedoria, da palavra, da aproximação com todas as coisas, grandes ou pequenas, até a última gota e sacrifício.

Enfim, a leitura total do livro, e o seu propósito, despertará no leitor surpresas, encantamento, tal o engenho e arte do autor. “Do Prólogo, até Sonatas & Cafeína — posts — Blogs”, raro e especial caminho a percorrer e desvendar.

Novos Cadernos de Sizenando hão de vir, promete o autor, que há de inaugurar com o ofício exato de suas mãos uma nova catedral, onde entraremos contritos e felizes, num dia de paz.

Nota: o texto publicado nesta edição integra o livro “Cadernos de Sizenando”, de Adalberto de Queiroz.

Sônia Maria Santos é escritora e poeta.

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