A solidão como metáfora e destino do mundo real na ficção de Márwio Câmara

Obra está meticulosa e artesanalmente erguida sobre um vigoroso tripé estilístico – densidade, pungência e prosa poética – conduzindo o leitor a uma leitura epifânica, coadjuvado pela destreza de um domador de palavras

Máwio Câmara, estreia no campo ficcional com o livro de contos “Solidão e outras companhias”| Foto: Cris Torres

“…é assim a solidão, esse animal migratório.”
—Rui Nunes, “Os deuses da antevéspera”

Ronaldo Cagiano
Especial para o Jornal Opção

“Solidão e outras companhias” (fi­nalista do 1° Prê­mio Rio de Litera­tu­ra, na categoria Novo Autor Flu­mi­nense, em 2016), publicado pela editora Oito e Meio, reúne 13 contos e marca a estreia em grande estilo do jovem escritor, jornalista, crítico e agente cultural carioca Márwio Câmara, que vem se fazendo presente no cenário cultural e literário brasileiro nas diversas frentes em que vem atuando.

Embora seja estreante, Câmara traz a segurança e maturidade dos veteranos, tal a habilidade com que maneja não apenas a linguagem, mas a temática, cuja diversidade de enfoques, ao final, funciona como amálgama de um fenômeno contemporâneo cada vez mais sintomático na sociedade do consumo e do espetáculo: a solidão. Desse fantasma emergem condicionamentos, situações e contingências que colocam o ser em constante provação, culminando em derradeiras experiências (íntimas, geográficas, domésticas, sociais e psicológicas) ao vivenciar e experimentar seus becos-sem-saídas e suas situações-limite, no fio da lâmina do percurso existencial.

A obra está meticulosa e artesanalmente erguida sobre um vigoroso tripé estilístico – densidade, pungência e prosa poética – conduzindo o leitor a uma leitura epifânica, coadjuvado pela destreza de um domador de palavras, que confere à linguagem também um sutil protagonismo, tal a relevância com que se utiliza de um amplo repertório vocabular em que equilibra tradição e ruptura.

Eis uma cuidadosa narrativa, que também desenvolve-se num crescendo harmônico e rítmico, oferecendo ao leitor a delicada experiência de uma leitura singular, como se embalada em fundo musical, como se ada conto fosse antecipado de um singelo prelúdio. E essa musicalidade tanto encontra-se implícita na própria construção sinfônica e na própria melodia interna das frases quanto na transcrição de letras de canções antológicas, como se fossem vinhetas temáticas do que se quer contar.

E esse processo de fusão ritmada de sons e histórias desdobra-se em camadas, em que engenho e arte operam a explicitação de um drama, na exploração de uma trama ou no desdobrar das linhas de um conflito, para desaguar numa dimensão quase onírica. E ao realizar a transposição de realidades às vezes claustrofóbicas e dilacerantes, alcança uma atmosfera de magia que redunda num frescor estético, o prazer de uma leitura impactante a partir da aguda aferição, nesse encontro (ou desencontro?), dos miasmas de uma época em que vigoram sentimentos tão díspares que afetam a condição humana. Perplexos e sem rumo, as personas capturadas pelo autor e que habitam essas histórias parecem confirmar o destino de nossa época, quando vivemos sob o signo daquela modernidade líquida – da qual nos falou Zygmund Bauman, onde (e quando) tudo parece tão descartável, imediatista, descontínuo e sem vínculos, propiciando o caldo de cultura onde se desenvolve o vírus dessa solidão, fielmente refletida por Câmara – , pois quando nada decorre, tudo escorre nesse jardim esquisito com seu pomar de patologias sociais vinculadas ao isolamento, essa síndrome da sociedade de consumo.

De forma incessante e avassaladora, esses fluxos canalizam toda uma sensação de desconforto ou levam à agonia do despertencimento desses protagonistas que descascam o abacaxi dos dias e colidem no seu quotidiano com dilemas cruciais, passivos íntimos e outras pequenas tragédias, como no relato de uma vida extraviada de Madame Bovary, travesti que se entrega aos devaneios nas noites da Lapa, cujo nome é uma alusão intertextual e metalinguística à mesma fugacidade e volubilidade da personagem flaubertiana, também perdida em seus devaneios e ambições irrealizáveis.

Os contos compartimentados em três níveis – nomeados NÓS, VÓS e SÓS – distinguem, de forma peculiar, as diversas abordagens da solidão e do abandono dos sofrimentos individual e coletivo (na família, no trabalho, nas convivências, no perto e no distante de todas as coisas), como se o autor nos levasse a desvendar, como numa sequência dramática de palimpsestos, os vários tecidos dessa epiderme esconsa do isolacionismo que afasta e corrói. São histórias que desatam os nós, dos que estando sós, entre tantos vós e outros ninguéns, passam despercebidos em suas dores na moenda veloz do tempo e da metrópole apressurada, símbolos perversos desse campo minado do (so­bre)vi­ver num planeta acelerado e rumo, agonizante, a uma indesviável colisão.

Destaca-se nesse livro também a sintonia com outras vertentes e universos artísticos, pois o autor é exímio estilista ao dialogar com a música, o cinema, o teatro, as artes plásticas, os suportes culturais da mídia eletrônica, a alta cultura, numa projeção de diversos referenciais, totens e ícones de gerações, o que resulta na sua relação profunda, intensa e intelectual com os espaços de reflexão e critica, escrevendo e filosofando em abordagens significativas. Nesses contos, que se expandem numa polifonia, constituindo uma miríade de olhares, sensações, percepções e inquietações semânticas e metafisicas, explora com talento e versatilidade os recursos da comunicação (em “A chuva que me lembra dela”, um primoroso exemplo da pluralidade e ousadia formal) e oferece uma prosa fluente, lírica, enriquecida de metáforas e elegância textual, mas sem prescindir das devida dose provocativa, do alto teor de visceralidade e contundência, ao tratar das tragédias que apequenam o homem nesses “tempos modernos” de assombro geral.

Essa solidão povoada de (res)sentimentos traz ainda uma nítida visão niilista do sobre re(l)ações humanas tão conflagradas aos territórios da individualidade. Personagens e histórias que metaforizam nossa sensação de permanente deslocamento, transitoriedade e deslugar, em que o homem (sobretudo o que vive numa sociedade premida pelos fetiches da modernidade, como o mercado, o lucro, a visibilidade, a busca do desempenho e do sucesso a qualquer custo, a exposição do ser como produto, a bigbrotherização de nosso ir-e-vir) perdeu a individualidade, a identidade e a autonomia, ao mesmo tempo em que tornou-se um egonauta em seu próprio ambiente, onde valores perderam sentido.

São histórias recorrentes sobre essa liquefação de sentimentos, em que o indivíduo é peça na roldana ávida das demandas e do poder quotidianos , um elo nessa cadeia de absorção e despersonalização. Aqui vemos gente que do “silêncio ao grito” mergulha num “acquarium negro” e não divisa “o ponto” de inflexão para vencer a “crise” que o desabastece interiormente e, ausente o fio de Ariadne que o salve do “labirinto”, está condenado ao eterno e tormentoso “silêncio”. Embora autônomas entre si, as treze histórias enfeixam uma temática homogênea e fatal acomete a todos da mesma dor, destarte, não seria imprudente dizer que “Solidão e outras companhias” pode ser lido como uma narrativa contínua, em clave de romance, tal a recorrência de um único espírito vigente, pois embora diferentes os personagens, o cenário e as angústias que migram de um conto para outro são os mesmos, como se “Vidas Secas” fossem essas não-vidas em singular e renovado apartheid.

O espectro que delineia a trajetória desses viventes coaduna-se com o que anteviu o pintor Max Beckmann e que muito bem define esses mundos explorados por Márwio Câmara na esteira da mesma pincelada expressionista: “Este espaço infinito, cujo fundo precisa de ser preenchido por qualquer coisa sem importância, de modo a disfarçar a sua terrível profundidade! Que faríamos nós, pobres criaturas humanas, se não estivéssemos sempre preparados para evocar uma ideia – a terra natal, o amor, a arte, a religião – a fim de cobrir uma pequena parte desse buraco escuro? Este sentimento de existir abandonado para sempre na eternidade. Esta solidão.” E só um autor em completa simbiose artística e uma interface com esses exílios compulsórios poderia dizer, sem equívoco e sem engodo, como disse Rilke, que para escrever um grande livro, “O que é necessário é uma grande solidão interior”. Sem essa companhia, não estaria o autor em legítima empatia e cumplicidade com o leitor diante do virtuosismo que o livro traz.

Sem dúvida, nessa safra de autores contemporâneos, poluída de estridências forjadas e sumidades de proveta, Márwio Câmara é um verdadeiro ourives, tal o cuidado e responsabilidade em sua exímia carpintaria literária. Destaca-se pelo vigor, originalidade e nenhum atrelamento a modismos de qualquer natureza. Seu processo criativo e sua produção ficcional – como um cirurgião que escarafuncha com seu bisturi exegético a alma humana – revelam um escritor que domina plenamente os instrumentos da arte narrativa e em sua oficina irritada transita com grande desenvoltura pela crítica, pelo ensaio e pelo jornalismo cultural.

Ronaldo Cagiano é escritor, autor de “Eles não moram mais aqui” (Contos, Prêmio Jabuti 2016), reside em Lisboa.

Foto: Reprodução

Solidão e outras companhias
Autor: Máwio Câmara
Ano: 2017
Editoria: Oito e Meio
Páginas: 91

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