Sobre perda e redenção

Sentimentos de culpa, remorso ou impotência perseguem protagonista do livro “A Criança no Tempo”, de Ian McEwan, chamado às vezes de Ian Macabro devido à natureza depressiva de suas obras

Ian McEwan, no Salão do Livro de Paris em 2011: escritor chamado às vezes de Ian Macabro devido à natureza depressiva de suas obras | Foto: Wikimedia Commons

Mariza Santana
Especial para o Jornal Opção

Quantas vezes nos arrependemos de uma conversa mal colocada que ofende ou cria constrangimento, ou daquele minuto de distração que nos leva a uma grande perda ou a um acidente com consequências físicas, como uma fratura no braço ou no pé? E normalmente a gente fica se questionando – dias, meses, anos a fio: por que não fui mais atencioso? Por que não observei mais os perigos a que estava exposto ou a quais expus pessoas queridas? São questões cotidianas, da vida, acontecimentos que servem para nos fazer refletir, amadurecer, crescer como pessoas durante essa jornada da vida.

São exatamente esses sentimentos – de culpa, remorso ou impotência diante das armadilhas do destino – que perseguem o personagem Stephen Lewis, um bem-sucedido escritor de livros infantis e personagem principal do livro “A Criança no Tempo”, do escritor britânico Ian McEwan. Nosso herói (ou anti-herói, se assim preferir) é um cidadão pacato, casado e feliz. Mas por ocasião de uma prosaica ida ao supermercado acompanhado de sua filha Kate, de três anos de idade, se depara com a pior situação que um pai pode enfrentar. Em um instante de distração, ao passar as mercadorias compradas pelo caixa do estabelecimento, a menina é sequestrada e some sem deixar vestígios.

Começa então um pesadelo sem fim para Stephen. Além da busca desesperada pela filha, seu casamento naufraga e sua vida pessoal é tomada pelo desespero, angústia e, finalmente, pelo desânimo. Certamente, nessa parte do livro, o leitor é tomado pelas sensações depressivas do personagem, e acompanha seu arrastar autômato para as obrigações do trabalho, sua falta de perspectiva diante do futuro. É como se tudo acontecesse de forma nebulosa, sem foco, um viver por viver, permeado pela imensa dor provocada pela perda da filha.

Título: A criança no tempo

Autora: Ian McEwan

Editora: Companhia Das Letras

Valor: R$ 35,90

O escritor Ian McEwan, chamado às vezes de Ian Macabro devido à natureza depressiva de suas obras, tem se tornado um dos mais conhecidos de sua geração. Septuagenário (completou 70 anos em junho último), ele coloca um pouco de sua vida na bagagem do personagem Stephen. Assim como o autor, o personagem é filho de um oficial do Exército Britânico e passou a infância em terras longínquas da Grã-Bretanha, no Extremo Oriente e no Norte da África.

Não sei se as coincidências param por aí, mas é certo que existe um vínculo entre criador e criatura, um dos aspectos que considero apaixonantes da literatura. Isso porque toda obra literária reflete um pouco das experiências e dos sentimentos do escritor. Em minha pesquisa, apurei ainda que Ian McEwan é um ateu ativo. O livro “Fardos de Amor” é considerado sua obra-prima e lhe rendeu em 1998, portanto há 20 anos, o prêmio “Man Brooker”.

A obra premiada do escritor contém um personagem que sofre da Síndrome de Clérambault. Em tempo: essa síndrome, também chamada de erotomania, é descrita quando o paciente, geralmente uma mulher, acredita que um homem mais velho e de posição mais elevada a ama. Esse paciente persegue o objeto de amor e, por isso, eventualmente, responde com retaliações e ameaças às repetidas rejeições. Nada mais atual, nessa época em que fãs perseguem, tentam assassinar ou até matam seus ídolos, principalmente do showbiz. John Lennon é apenas um exemplo.

Depois de bem apresentando o autor, retornemos então à obra em questão. O livro “A criança no tempo” detalha as consequências irreparáveis de uma tragédia familiar, com todos os seus elementos de culpa, perda e desalento. Entretanto, esses sentimentos e as ações do personagem central e das pessoas que convivem com ele, incluindo um primeiro-ministro britânico, são bem construídos e narrados com a maestria de um grande ficcionista.

O encerramento do romance é inesperado e, por isso, louvável, ainda mais sendo resultado da criação de um ateu assumido. Um desfecho apaixonante, pelo qual vale ler a narrativa inteira. E demonstra que a vida é um espetáculo que vale a pena ser vivido, apesar de todos os pesares, ou mesmo por causa deles.

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