Por esses dias meio desalentados, fiz a releitura de um livro para o Clube Palavreando pelo Mundo, da minha Palavrear.

Eu tenho o hábito de fazer releituras, já que acredito como a história muda completamente em nós, dependendo do momento em que estamos vivendo.

Dessa vez foi o “Como ficar podre de rico na Ásia Emergente”, do paquistanês Mohsin Hamid. E que livro bonito. Ele faz uma espécie de sátira, ironia, com livros de autoajuda e a narrativa é toda assim, um manual passo a passo de como ficar rico na Ásia Emergente (mas que poderia ser em qualquer país da América do Sul).

Acho bonito demais as pequenas nuances do comportamento humano, nossos pequenos grandes sofrimentos, angústias, frustrações que, apesar da ironia ácida, contém uma delicadeza em cada observação desse narrador.

Toda a crítica mordaz à sociedade capitalista que faz não deixa de lado à escrita, por vezes, lírica.

E quem já não viu essa história: um homem que sai da zona rural para prosperar na cidade grande? E aqui tudo acontece em uma metrópole asiática não nomeada, mas como eu disse, poderia ser em qualquer cidade/país da América Latina.

Como nenhum personagem tem nome, isso torna ainda mais interessante à narrativa, já que coloca, novamente, qualquer pessoa podendo enriquecer, se tornando um novo rico. O fato de não serem nomeados torna ainda mais plausível o tom dos livros de autoajuda, onde tudo é responsabilidade de quem lê.

Escrito como uma espécie de “passo a passo”, como os manuais de autoajuda, os capítulos são conselhos para sair da pobreza extrema e enriquecer na Ásia emergente. Ele se apropria da linguagem dos livros de autoajuda para critica-lo. Ta aí o maior trunfo desse livro. Mas a crítica não fica somente na forma narrativa, mas também nas soluções fáceis e rápidas.

Como se houvesse uma fórmula simples para sair da pobreza e chegar à riqueza: estudar, trabalhar, acumular, “subir na vida”. A narrativa fala diretamente com um “você” e, ao fazer isso, transforma a vida desse personagem em uma espécie de tutorial.

O livro vai mostrando as entranhas de um país em desenvolvimento, sem regras muito claras ou estabelecidas, onde as pessoas estão dispostas a muito – ou quase tudo – para prosperar.

Cheio de ironia, sarcasmo, percebemos como não é nada fácil enriquecer. Através da narrativa de Hamid, vemos como os valores são colocados em xeque, destacando o papel da religião, da importância do casamento em sociedades conservadoras, da corrupção, nepotismo, da evasão fiscal e do surgimento de um capitalismo “vale-tudo”.

A dificuldade de mobilidade social. A informalidade como mote para uma riqueza. A expectativa dos países de terceiro mundo versus a realidade implacável do capitalismo. O custo social da riqueza.

Nesse período eleitoral, em que o desalento tomou conta de mim por ver pessoas tão desqualificadas e despreparadas chegando ao poder, é impossível não comparar essa narrativa com as questões brasileiras.

Talvez porque o livro tenha chegado ao clube em um momento em que parece impossível não lê-lo também a partir do lugar onde estamos, do país que somos, e do mundo que estamos ajudando a construir.

Os livros nos trazem uma empatia doída. Especialmente nesse momento, recorro a eles para tentar trazer alguma empatia por quem vota diferente e não tem, nesse momento, o senso do coletivo.

Assim como os manuais de autoajuda, que faz várias pessoas acreditarem que há alguma chance de enriquecer sem se dar muito mal, ou fazer muito mal á outros, votar sem pensar no coletivo, apenas no individual, dá no mesmo.

Hamid escreve sobre um país em desenvolvimento, sobre mobilidade social, desigualdade, corrupção, consumo e desejo. Mas por trás do humor e da estrutura quase didática, existe uma coisa menos engraçada: a ideia de que, em uma sociedade profundamente desigual, enriquecer deixa de ser apenas um desejo e passa a parecer uma obrigação. Como se enriquecer fosse individual, mas o fracasso uma culpa coletiva. Como se bastasse esforço. Como se todos começassem do mesmo lugar.

Assim como no livro, fica a pergunta: o que, afinal, estamos tentando comprar quando passamos a vida tentando ficar ricos?

Mais tempo?

Mais conforto?

Mais reconhecimento?

Uma vida melhor?

A pergunta parece simples até percebermos que o próprio sistema nos ensinou a confundir vida boa com vida rentável.

Foi dessa forma que o livro chega, para mim, ao Brasil, às nossas cidades, às nossas eleições, chega a um país em que ainda se promete prosperidade enquanto se naturaliza a desigualdade; em que se fala tanto em mérito e tão pouco nas condições que permitem que alguns acumulem enquanto tantos outros mal conseguem permanecer de pé.

Vi, nas últimas eleições, avançar novamente uma extrema direita que transforma ressentimento em projeto político, que encontra culpados antes de procurar causas, que oferece respostas fáceis para um mundo que se tornou insuportavelmente complexo. E confesso que existe um desalento difícil de nomear em assistir a esse movimento ganhar espaço.

Não é apenas perder uma eleição.

É perceber quantas pessoas já foram convencidas de que a saída para a própria precariedade está em apontar para quem está ao lado, e não em questionar quem está acima.

O capitalismo tem uma habilidade extraordinária de transformar sobrevivência em competição. Faz com que desejemos aquilo que ele próprio nos ensinou a desejar e, depois, nos convence de que somos livres porque podemos escolher entre as mercadorias que ele oferece.

O tempo é dinheiro. A vida pode virar investimento.

E talvez o gesto mais perverso seja este: estamos tentando tanto SOBREviver, que esquecemos que em uma sociedade, o individual, por vezes, atravessa o coletivo.

O que precisa ser entendido, é que estamos mais perto dos CLTs do que da elite do país, assim como o personagem principal do livro mostrou. Que mesmo empreendendo e não precisar de nenhum auxílio do governo, tem muitas pessoas que precisam dele para comprar o básico. De que não é porque saiu de uma situação difícil “sem ajuda”, que nos dá o direito de achar que “se eu consegui, qualquer um consegue” sem conhecer as dificuldades de quem ainda está nela.

Terminei o livro com o gosto agridoce das eleições, com a tristeza de não reconhecermos mais o quanto estamos pobres de tempo (pois vamos trabalhar cada vez mais), de imaginação (de nunca nos colocarmos no lugar do outro), de solidariedade (de que o governo não pode te ajudar, mas eu sim, porque preciso da caridade individual para me sentir melhor), de mundo.

No livro, enriquecer aparece como uma espécie de promessa. Mas, à medida que o “você” avança, fica cada vez mais difícil saber se ele está construindo uma vida ou apenas prolongando uma corrida.

A certa altura, a pergunta deixa de ser “como ficar podre de rico?” e passa a ser outra, muito menos conveniente: para que queremos tanto dinheiro se, para consegui-lo, precisamos entregar a própria vida? Acredito que essa possa ser a provocação do livro.