Série Contos da Pandemia (9): Desde as altas madrugadas, de José Fábio da Silva

O mundo era o mesmo e ainda assim diferente. O gigante não estava mais lá. Tudo que lhe restava era a luz. Com isso, passou a temer a ausência da sombra da noite

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 530 mil brasileiros. A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)

Desde as altas madrugadas
José Fábio da Silva

“As asas da imaginação não levantam voo em uma mente fechada.”Provérbio passeriforme

Vivia atrás daquelas grades a tanto tempo que esqueceu se o botaram ou nasceu naquele lugar. Dia a dia um gigante aparecia pelas manhãs, retirava o manto da noite de sua cela e lhe fornecia doses precisas de água e alimento. Em seguida, limpava o lugar e voltava para o caixote onde vivia. Provavelmente para ser alimentado por um ser ainda maior do que ele. Ao fim do dia, retornava e o cobria novamente com o manto escuro.

A cela ficava pendurada em um lugar alto e balançava junto ao vento. Em dias de tempestade, o gigante a recolhia para um local mais seguro. Daquele ponto alto via o mundo para além das grades, do gramado e das cercas. Assistia a outros como ele cortando livres o céu. Recolhiam as suas porções diárias em migalhas pelo chão e bebendo água dos mais insalubres lugares. A princípio, teve pena deles. Como podiam viver em tais condições? Quem os cobria com o manto da noite? Quem os resgata para um lugar seguro nos dias de tempestade? O mais assustador não era a forma como viviam, mas a indefinição dos momentos. Estava feliz na precisão de suas grades.

Pintura de Rafal Olbinski

Certa manhã, a noite permaneceu sem prévio aviso. Não era a primeira vez. Era questão de tempo e a luz surgiria novamente. Dessa vez, no entanto, demorou mais que o habitual. Era incomum, visto que, quando aquilo acontecia, o gigante lhe deixava doses extras de água e comida. Foi obrigado a sobreviver das migalhas que mal podia encontrar entre as frestas do chão da cela. Sentia o chacoalhar do vento e ouvia o mundo lá fora. Percebia a luz intensa por trás do manto da noite. A cela ficava mais ou menos escura, mas nunca clara de vez.

Pouco entendia sobre o tempo, mas sabia da fome. Seu estômago anunciava a cada momento a emergência da situação. Em meio ao breu, acostumou-se com a falta do alimento. Torcia apenas para que viessem ventos mais fortes para que pequenas frestas de luz rompessem partes do manto escuro. De tanto soprar, o vento desnudou por pura insistência a noite daquelas grades.

O mundo era o mesmo e ainda assim diferente. Tinha algo de descuidado. O gigante não estava mais lá. Tudo que lhe restava era a luz. Com isso, passou a temer a ausência da sombra da noite. Para a sua surpresa, mesmo sem manto ela veio. Estava em todo lugar, mas não tão próxima quanto antes. O céu azul em que só via nuvens, agora era preto e cheio de pontos luminosos.

Nos dias e noites seguintes, se contentou com a morte. Envolto em fome aguardava apenas o seu corpo desistir da vida que a sua consciência já tinha descartado. Foi quando surgiu a tempestade. O vento e a chuva atravessaram as grades e atiraram a cela no gramado. Ali entendeu sobre a satisfação de não prever as horas. Pela primeira vez na vida, matou a fome e a sede sem protocolos.

A tempestade não lhe proporcionou apenas a saciedade. Também lhes abriu portas para fora daquela cela. A queda, apesar de assustadora, partiu algumas de suas grades. Pela primeira vez rompeu aqueles limites. Sentiu que poderia atirar-se no céu e cantar para além de seu lugar seguro. Só então, sob o horizonte infinito e entre tantos iguais a ele, percebeu que não sabia voar. Era apenas um pássaro dentro do ninho.

José Fábio da Silva é escritor.

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