Série Contos da Pandemia (5): Telefone de Glória, de Maria Helena Chein

Glória morreu? Alguém matou Glória? O que realmente aconteceu com Glória? Mistério ou não?

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 524 mil brasileiros). A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)

Pintura de Edward Hopper

Telefone de Glória

Maria Helena Chein

Telefonaram-me do IML. Glória estava morta. Um arrepio percorreu meu corpo com o choque da notícia, meu corpo que se salvou há pouco tempo da odiosa Covid. Glória morreu e encontrava-se naquela sala também gelada, local execrado pelos tantos e quantos vivos iguais a mim, que temem a morte e suas implicações. Morrerei de quê, de que forma, sozinho? Num hospital, na rua, em casa? Sentirei dor, dormência, medo, pânico? Verei Deus, anjos, almas? Haverá luz ou escuridão?

O telefone tocou outra vez e desligou. Mas quem é Glória? Uma vizinha do prédio ao lado, uma bela moça que se mudou, há menos de um ano, e fazia homens suspirarem e mulheres invejarem seus olhos imensamente verdes. Era mulher de todas as belezas, mesmo com máscara. Dela, pouco se sabia. Permaneciam, em nossa fantasia, as pernas bem torneadas, os seios fartos e os cabelos escuros, margeando as costas. Morava sozinha, no prédio ao lado do meu.

Pintura de Edward Hopper

Novamente, o telefonema do IML. Perguntei por que estavam me ligando, e a voz do outro lado sussurrou que, no bolso da calça de Glória, encontraram um papel com dois números de telefone e o nome Maurício. Meu nome. Perguntei rápido:

— Ela morreu de quê?

— Pode ter sido um ataque cardíaco.

— Ela foi para o IML morta?

— Claro!

— Quero dizer, algum hospital a encaminhou?

— Encaminhou, sim. Ela está como indigente.

— Como?

— Dela, não sabemos nada.

— E o outro telefone anotado no papel?

— Ninguém atende, moço. É melhor ir ao hospital e pedir informações. Nessa pandemia, o enterro é feito rapidamente.

Pintura de Claude Cahun

Desliguei e corri até o prédio onde ela morava, precisava saber de alguma coisa. Conversei com o porteiro e o síndico, que ficaram pasmos, assustadíssimos e prontos para ajudar. Fomos até o computador ver as fichas dos moradores.

— Aqui só tem um nome ligado à dona Glória. É o da filha Eugênia, mora com o pai em Vitória, no Espírito Santo.

— Então, há uma filha e um marido, deve ser ex-marido.

— Veja o número de um celular aqui.

Ligamos várias vezes, sem sucesso. Ninguém atendia. Somente a voz pedindo para deixar recado. Deixamos vários.

— Quem sabe uma amiga do prédio possa ajudar?

— Ela só tem amizade com dona Hortência, que foi para a casa do filho, desde o começo da peste.

— Vou ao hospital que a encaminhou para o IML.

— Vou com você. Nem nos apresentamos direito. Sou Leôncio, síndico há mais de doze anos.

Olhava-me meio de lado, enquanto eu dirigia. Pigarreou.

— Você conhecia dona Glória?

— De leve.

— De leve?

— Ela estava na calçada do seu condomínio, esperando táxi. Eu saía para uma corrida, no parque. Foi um olho no olho, parei e conversamos. Marcamos um vinho, para a noite do último sábado.  Conversa agradável, muitos risos, ela jogava a cabeça para trás, o que me encantava, e eu me transformava num sedutor. Foi só isso, e a única vez. Ficamos de marcar outra saída. Deixei o meu número de telefone com ela.

— Não saíram outra vez?

— Não. Nós nos encontramos sábado, e hoje é terça.

No hospital público, disseram que chegou morta, trazida pela ambulância. Na bolsa, apenas um batom, chave e uma carteirinha com vinte reais. Nessa pandemia brava, logo mandavam o corpo para o IML.

— Qual a causa da morte?

— Aqui diz que foi ataque cardíaco. Moço, com esse coronavírus matando tanta gente, o hospital está cheio, o trabalho dobrou e o tempo é pouco.

De fato, o hospital era um campo de batalha, doentes chegando, filas de atendimento, vozes, médicos e enfermeiros indo e vindo, funcionários dando informações, pessoas cuidando da limpeza, tanta gente e tanta coisa!  Leôncio e eu saímos lambuzando as mãos com álcool. Joguei minha máscara no lixo e peguei outra, no porta-luvas do carro. Seguimos calados, a infelicidade do mundo calcando nossos ombros, enquanto o bicho invisível fazia mortes. No mesmo lado das angústias, das infelicidades, dos medos, os políticos dividiam opiniões e ódios.

Chegamos. Paramos em frente ao prédio do síndico e ficamos estarrecidos. Na calçada, Glória, ao lado do porteiro, contava algo engraçado, porque ambos riam. Ela nunca esteve tão radiante, mesmo de máscara. Descemos do carro, com todas as emoções se acotovelando no peito, pensamentos se emaranhando num grande nó e a certeza de que aquela mulher era Glória. Glória sempre seria aquela mulher.

Do corpo, no IML, nada sabíamos. Do papel com meu nome e telefone, também não. Mas amanhã é o dia seguinte, tempo para qualquer coisa, cobranças e dádivas, abalos.

Hoje, vou conversar com Glória.

Maria Helena Chein é poeta e prosadora.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.