Série Contos da Pandemia (4): Mercado cheio, de José M. Umbelino Filho

“O bicho passa pelo ar. Vai na saliva e entra pela boca. Daí se você bota uma barreira física na sua cara, dificulta pro bicho entrar. Não é complicado de entender”

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 522 mil brasileiros). A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)

Mercado cheio

José M. Umbelino Filho

— Bora, mulher.

— Um minuto. Esqueci a máscara.

— Precisa não.

— Precisa, uai. Mercado cheio.

— Precisa nada. Entra logo.

— Rapidinho.

— Não seja uma dessas. Vem logo.

— Um minuto, pô.

— Você acha que isso aí ajuda alguma coisa? É só imposição do sistema, minha filha.

— Ah, Salviano. Me poupe.

Pintura de Remedios Varo

— Nem te reconheço mais. Não era você a rebelde na faculdade? Vivia gritando anarquismos, lutando contra o sistema, pulando catraca de ônibus, quebrando a lei? Agora até assiste a Globo. A Globo! Quem te viu, quem te vê, hein.

— Não confunde as coisas.

— Me diz que coisa eu tô confundindo.

— Não é uma questão política, Salviano. É física simples. O bicho passa pelo ar. Vai na saliva e entra pela boca. Daí se você bota uma barreira física na sua cara, dificulta pro bicho entrar. Não é complicado de entender. Vou lá buscar, já volto. Pego uma pra ti também. Não pode entrar sem máscara no mercado.

— Tá vendo, autoritarismo. Tirando a liberdade do cidadão de bem. Forçando a gente a obedecer.

— Homem, não tão te pedindo pra matar a mãe. É só um pedaço de pano na cara. Custa isso tudo?

— Eu vou sem você. No meu carro, ninguém usa máscara.

— Mas que diacho. Tá bom, vamos logo.

— Bora, então. Bota o cinto.

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