Série Contos da Pandemia (37): Monólogo em dor maior, Heloisa Helena de Campos Borges       

Estou ficando assustado… não me sinto nada bem. E não parece coisa de gripezinha… é algo maior… mais sério… sim… é Covid… estão me levando para uma sala grande…

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por vários autores explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 518 mil brasileiros). A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)

Monólogo em dor maior

Heloisa Helena de Campos Borges

Nem tudo que reluz é ouro… Há males que vêm para bem… Água mole em pedra dura… Mentira tem perna curta… A cobra vai fumar… Cada macaco no seu galho… fico recitando esses ditados populares para eu mesmo me distrair. Estou cansado. Muito cansado. Eu sei que esse cansaço não é apenas meu. O mundo está cansado, é inegável.

A questão é que já ouvi tantas e tão diferentes opiniões sobre a Covid-19 que, em vez de esclarecer, elas acabaram me confundindo. Políticos, médicos, companheiros de trabalho, familiares e até desafetos dizem ou fazem coisas que só servem para me desorientar.

Pintura de Edward Hopper

Estou falando de desafeto porque, hoje, amanheci esquisito e acho que a alteração que está acontecendo no meu organismo é culpa dele, do desafeto. A respiração ofegante, os olhos lacrimejando, um pouco de fraqueza… ah! deixa pra lá! Talvez seja um resfriado que vem por aí, provocado pela friagem terrível que se espalhou por grande parte do Brasil.

Voltando ao desafeto, essa minha esquisitice começou depois de um bate-boca com o vizinho da frente da minha casa. O cachorro dele espalhou o lixo que já estava ensacado e colocado na calçada, à espera do caminhão da coleta. Eu reclamei. O vizinho ficou irritado e disse ser traquinagem do cachorro que é ainda filhote. E acrescentou que o incompreensivo era eu. Ao dizer isso, ele me olhou com tanta raiva, valha-me, Deus!

Será que foi o olhar peçonhento dele que desencadeou o meu mal-estar? Foi logo depois desse acontecimento que passei a sentir as esquisitices. Bem que minha cunhada diz que é muito importante tomar banhos de sal grosso para limpeza de inveja e mau-olhado.

Só de me lembrar de não ter tomado esse cuidado, já fiquei mais zonzo. Então, acho melhor, além do banho, providenciar imediatamente vitamina C com zinco, vitamina D, suco de couve com gengibre, elixir de inhame…afinal, é por uma boa causa: aumentar a imunidade.

Entretanto, o melhor seria eu me acalmar! Afinal, alguns políticos vivem dizendo que esse vírus é fichinha, uma gripezinha boba, que só derruba gente fraca. Falas assim me deixam bastante aliviado, porque fraco eu sei que não sou. Já levei tanto “tranco” nessa vida e sempre saí vencedor. Sou mesmo um grande vencedor.

Minha mulher, sempre cheia de pressentimentos, diz: você não deve dar atenção para o que os políticos pregam por aí. Muitos deles nem médicos são e, quando são, não exercem a profissão… E acrescenta:  eles podem entender de outras coisas, como motos, barcos, armas, mas desse vírus que está apavorando o mundo inteiro eles não entendem nada. E diz com a autoridade que sabe possuir: o tal coronavírus tem dado “baile” até nos infectologistas.

Pintura de Portinari

Ela fala muito, disso eu sei, porém tenho de reconhecer que muitas vezes está coberta de razão. Então, para desanuviar um pouco o meu espírito, vou mais é cantar. Afinal, quem canta seus males espanta. Canta, canta, minha gente, que a vida vai melhorar, que a vida vai melhorar, que a vida vai melhorar…

Agora, a vacina, vacina eu não vou tomar. Vacina feita às pressas, sem tempo para um melhor acompanhamento das pessoas que serviram de cobaia, sei não! Se bem que a televisão mostra o contrário. Um mundo de gente procurando e agradecendo pela existência da vacina. Quando vejo isso, confesso que fico em dúvida…será que eu também devo tomar?

Meu Deus! O que está acontecendo? Parece que, hoje, a minha respiração está mais difícil… puxo o ar, mas não consigo ir até o final… cheiro e gosto, ainda estou sentindo. No almoço, tinha jiló e estava bem amargo. Será emocional? Devo estar impressionado. Também a televisão não ajuda…

Pelo sim, pelo não, acho melhor eu me vacinar. Pronto, decidido, vou sim tomar a vacina, assim que chegar na minha idade… pelo menos, minha mulher fica tranquila e para de falar… Bem que eu queria a de dose única, a Janssen. Com essa, enfrentarei a fila uma única vez e também dizem que a eficácia é muito boa. Mas ninguém pode escolher, né?

E agora? Febre? Estou ficando assustado… não me sinto nada bem. E não parece coisa de gripezinha… é algo maior… mais sério… sim… é Covid… estão me levando para uma sala grande… tem muitas camas… muitas pessoas… muitas pessoas cuidando… tenho medo… não é fácil… estou só… só comigo… só… de uma solidão desamparada… só com o tormento de me saber findável… esquecível… como me sinto só… tenho muito medo… cenas da minha vida passam pela minha cabeça… eu as revejo… quantas interrogações… vivi uma vida verdadeira? os meus “sim” foram tão sinceros como os meus “não”? consegui não trair a minha alma mesmo quando exigiram de mim um gesto de tolerância?  será esse pedaço infernal que estou vivendo o que chamam de juízo final?  nenhum Deus… eu somente… eu e minha consciência… eu e minhas ações… eu e minhas decisões… minhas verdades… o desespero… o que tenho feito eu da minha vida… como tudo dói em mim e ao redor  de mim… como o que dói corrói aqui dentro… o ontem que não posso mudar…o amanhã que não sei se existirá… ai! essa angústia… me afligem coisas que não posso esquecer… espera lá… eu sempre fui um vencedor… tenho de me lembrar… eu sou um vencedor… e… vozes… ouço vozes… dizem meu nome… me chamam… estou reconhecendo… é sim… é a voz da minha mulher… ela está me chamando… tenho de sair daqui… eu sei que ela está à minha espera… e sei também que ela não gosta quando eu me atraso para o jantar… não gosta… espere… preciso de um pouco mais de tempo… tempo para me recompor… tempo para reconquistar minhas forças… minha coragem … será que… é a morte?  o ponto final?  agora? ainda tenho muito para dizer e fazer… ah! hora cruel…por que me despedaçar assim? lucidez tenebrosa… implacável… descubro nesse momento horripilante que na existência há um jogo estabelecido… destino… mistério… falhei? venci? quem sou eu?  quem fui eu?  não sei… já não sei nada de mim… tenho medo desse vazio… tenho medo desse silêncio… silêncio inacessível para o meu entendimento… silêncio que se aproxima… me abraça… cada vez mais me abraça… e abraça todos que imploram por mim…

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