Série Contos da Pandemia (3): Evangelho da aflição, de Solemar Oliveira

“Um sino baterá no ouvido dos homens e eles se esborracharão feito caqui maduro”

Solemar Oliveira

“Tocadores de sino”, de Alexander Kosnichev

Ouviu, por entre arbustos, um grito ligeiro de alguém que intencionava avisar sobre o apocalipse iminente, mas não se deteve. Apressado que estava, fugindo da peste que pairava entre os outros poucos caminhantes nas ruas, decorou a frase e guardou para mais tarde. Era um recado estrondoso e convincente, ditado embaixo de um céu nublado, vulgo firmamento (santo), para qualquer vivente, em agonia ou não. Uma massa viscosa de água salgada saltando dos olhos vermelhos. Buliu com aquilo muitas vezes, nos dias que vieram, enquanto não dormia por causa das manias que vinha acumulando ultimamente. Descrente e convicto, deixou para o Deus que negava, as suas derradeiras atitudes. Emprestou os fios e a cruzeta, de controle, para o titeriteiro maior — maior na tese dos opostos — depois que as abandonou, levianamente, por pura preguiça e descaso. O corpo quase não se movia, uma gripe definitiva. Excomungou, como quem tem um poder outorgado por si mesmo, a marca elevada e ancestral no dorso da mão esquerda. Será o título da besta? Um artefato ocasional, uma coincidência. Estava velho para superstições. E tome dose de cachaça e mais uma. Cozinhou, mediano, uma porção de mingau de aveia Quaker no leite rosado, para enganar o estômago encolhido, só porque simpatizou com o velho da lata. Aquele tipo vistoso, saudável. Vomitou.

“Sinos de Missões”, de Dwight Willians

Era o som que se aveludava na mente, daquele texto rasgado, ou crise do invasor indesejado? Tudo e todos ficaram estranhos, mas não era nada. Tudo e todos, para ele, sempre foram estranhos. Fora a novidade recente, que nunca ousou refletir sobre, todas as coisas estavam, mais ou menos, em seu devido lugar. Mesmo sem ver os seus semelhantes, que há tempos não deixavam o interior de suas casas, com seus fogões caseiros e suas pilhas de arroz e feijão guardados, para sobreviverem ao fim do mundo, seguia o modelo, reorganizado, que adquiriu.

Os dias que passavam, novos e solitários, ocupavam uma posição simbólica no painel do organograma dos anos vividos. Eram preenchidos com desdém e isolamento. E, triste, sem a cachaça, que secou sozinha ou desceu pela garganta numa série de goladas sem controle. Cego, vivia. Veio, então, a temporada de escassez e aquela frase guardada brotou do ermo desocupado e saltou para o dia berrando. Sem a folhagem oscilante, que modelou a forma e os contornos do ruído, transmutando sua forma em uma outra cheia de harmonia e verdade, ouviu novamente, como se estivesse caminhando na cidade. Ela reverberou imaginariamente sonora:

“Um sino baterá no ouvido dos homens e eles se esborracharão feito caqui maduro.”

Solemar Oliveira é escritor.

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