Série Contos da Pandemia (2): Distopia virótica, de Edival Lourenço

“Quando o vírus chega, eu estou na bolha de umidade, sujeito ao efeito paralaxe. Ou seja, deslocado do lugar que estou realmente. Aí o vírus tenta me atacar, mas me erra”

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 518 mil brasileiros). A prosa curta mostrou-se e necessária durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)

Pintura de Rafal Olbinski

Distopia virótica
Edival Lourenço

A mulher foi ao médico, dar andamento ao checkup anual, que já estava bastante atrasado, em função da pandemia. Ao voltar para o apartamento, encontrou o marido sozinho, do jeito que deixou. A diferença é que estava de máscara.

— Você foi à portaria?

— Fui não.

— Quem veio aqui?

— Ninguém não.

— Por que você está de máscara, então?

— Porque eu tava sozinho.

— De máscara, sozinho?!… Você pirou?

— Tô me protegendo.

— Como assim?! Protegendo de quê?! De quem?!

— Do vírus. Vai que eu tô com corona na corrente respiratória.

— E a máscara é pra quê?!

Pintura de Rafal Olbinski

— Eu já te disse. Pra me proteger. Vai que eu tô com corona na respiração. Como eu tô sozinho, não tem ninguém pra dividir o ar comigo. Aí, o ar que sai de meus pulmões volta pra mim de novo. Posso acabar me contaminando.

— Mas a máscara não te protege nesse caso. Acho que até desprotege. Porque você não joga pra longe o vírus que está em circulação no seu fôlego.

— Protege, sim. Porque o ar que sai de mim não consegue voltar. Então, vai saindo, saindo, até eu ficar totalmente limpo.

— É a primeira vez que ouço falar em se proteger contra a autocontaminação respiratória. Você evitar a infecção de você mesmo. Tá louco?! Se você já está com o vírus, já está. A autoproteção já era.

— Seu raciocínio está errado.

— Você transmitir para você mesmo?! Isso não existe!

— Você tem que pensar que a doença é nova. Cada dia o pessoal descobre um jeito diferente de transmissão.

— Mas esse jeito ninguém descobriu ainda.

— Ainda. Você disse muito bem!

— Não entendo. Pra que você usa máscara, sozinho?

— Quando o pessoal descobrir esse jeito de transmissão, eu já vou estar prevenido.

A mulher, com alguma esperança, supôs que o marido estivesse fazendo esquete ou piada, então ponderou:

— Você está de brincadeira, né!?

— Sério!

— Sério sério, ou sério de brincadeira!

— Sério sério!

Pelo ar de gravidade do marido, percebeu que ele realmente não estava para brincadeiras. O caso era mais complicado do que parecia. Não era mesmo esquete nem piada. Ele dizia as coisas com a mais profunda convicção. Resolveu jogar um agá para testar mais um pouco seu nível de sanidade mental:

— E o autodistanciamento? Já pensou nessa providência não farmacológica de proteção da Covid?

— Não só pensei, como já tenho praticado.

— Verdade?

— Verdade verdadeira.

— Como é que se pratica o autodistanciamento? Certamente, você deve se dividir em dois: Um que é você e outro que não é. Aí faz opção pra ser o que não é e mantém distância de você mesmo. Deve ser assim, né?

— Ficou maluca, mulher?! Assim pode até funcionar. Mas eu tenho um método muito mais simples e eficaz.

— Ah! é?! Como assim?!

— Como assim! Como assim! Você já viu que eu comprei um umidificador de ar, né?

— Claro! A umidade do ar caiu. Você comprou um umidificador. Parabéns pela providência. Mas o que ele tem a ver com o autodistanciamento?

— É que procuro sempre estar dentro da bolha de ar umidificado.

— Mas e daí?

— Daí que eu, estando dentro da bolha de umidade, sofro o efeito paralaxe. Aquela ilusão de ótica de quando você olha para um peixe dentro d’água, tem a impressão de que ele está num lugar, mas na verdade ele está noutro. Então se você atirar nele ou jogar uma flecha, não vai acertar. Porque ele nunca está no lugar que parece.

— Sei. Na bolha de umidade você parece que está aqui, mas na verdade não está. É isso?

— Bingo! Não estou exatamente onde parece que estou.

— E o que tem a ver isso com providência não farmacológica de proteção à Covid?

— Raciocínio nunca foi o seu forte, né? Te explico. Quando o vírus chega, eu estou na bolha de umidade, sujeito ao efeito paralaxe. Ou seja, deslocado do lugar que estou realmente. Aí o vírus tenta me atacar, mas me erra. Que nem o índio inexperiente que atira a flecha no pirarucu no lugar em que ele não está. Assim, por mais que o vírus me procure, não vai me achar.

— Sei não. Com essas neuras, você vai acabar ingerindo Qboa!

— Mas é ruim, viu! Dá uma azia de dragão!

A mulher olhou o marido, como quem olha para um estranho, e quando ele desceu, para buscar a marmita do almoço, fez uma ligação para a clínica psiquiátrica.

Narrou os fatos ao atendente e não teve dificuldades em contratar ambulância, equipe para fazer condução coercitiva e internação compulsória, por prazo indeterminado.

Edival Lourenço é autor do romance “Naqueles Morros, Depois da Chuva” (Hedra, 236 páginas).

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