Série Contos da Pandemia (12): O epitáfio, de Simone Athayde

Resolvo pegar minha lista de objetivos, risco aqueles que restaram, viro o papel e no vazio escrevo uma frase

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 536 mil brasileiros. A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)

O epitáfio
Simone Athayde

Foi logo nos primeiros dias de 2020. Eu tentava empreender uma difícil missão: escrever metas, planejar metodicamente tudo o que eu gostaria de conquistar nos meses que se seguiriam. Difícil sim, pois sou naturalmente distraída. Costumo dizer que tenho os pés no chão, mas a cabeça na lua. Aliás, às vezes olho o céu esperando aparecer a nave espacial que me deixou aqui por engano.

Foi assim, durante uma distração, que eu soube que um tal vírus mortal estava a atacar uma cidade chinesa de nome estranho.

Aquela notícia e aquelas imagens me vieram como uma história curiosa que nos é contada sobre reinos distantes. Não gostei da história, achei de muito mau gosto para um ano que se ensaiava tão alvissareiro. Tudo em minha vida estava sob relativo controle, como um pequeno planeta azul que se equilibra no vazio, indiferente à fragilidade de um universo no qual meteoros podem cair a qualquer momento.

Pintura e Rafael Olbinski

Deixei minha lista de lado e tentei focar minha atenção na TV. As cenas eram bizarras: o vírus era tão contagioso que os profissionais da saúde se vestiam como astronautas, e as ruas da cidade estavam vazias por ordem dos governantes.

Comentei com meu marido sobre a doença da China e o perigo dela se espalhar e chegar até ao Brasil. Ele prestou atenção por vinte segundos e depois voltou seu interesse para a tela do celular. Sim, ele estava certo: aquela cidade cujo nome eu nem conseguia pronunciar era distante demais para merecer algum interesse. É uma pena eu ser um ET. Às vezes sinto-me deslocada.

Não demorou muito para que o vírus chegasse ao Brasil. Meu marido me deu a notícia e eu lembrei, com uma pontinha de satisfação, que minha “fobia” de dias passados havia avisado do Inesperado. Quando o governador lançou o decreto de isolamento social, meu amado já não me olhava como se eu fosse uma louca medrosa; eu havia passado a um outro patamar e era agora uma espécie de Oráculo.

Os meses se passaram, vividos entre incertezas e tristezas diante de uma realidade doentia em todos os sentidos. Certo dia precisei ir ao banco e uma mulher que se recusava a usar máscara tossiu enquanto passava por mim. Eu quis sair correndo e lavar meu rosto com álcool, água sanitária, violeta genciana, mas aguardei na fila pacificamente, como bom cordeirinho brasileiro.

Já não suporto mais assistir aos telejornais. Desligo. É muito deprimente saber que os dois únicos assuntos da mídia são o avanço da doença em meu país e a praga que se instalou no poder. Talvez eu deva fazer um chá ou refazer alguns planos de minha lista de objetivos, agora reduzida a duas ou três metas.

Tive um breve acesso de tosse. A hipocondria, ou outra coisa pior, ameaça me atacar.

Tento recompor-me, mas por precaução resolvo isolar-me no quarto. Olho o mundo pela minha janela, tentando registrar aquela paisagem com minha memória fugidia. Um pássaro passa rasante, um gato pula o muro, uma árvore de flores roxas. Meu mundo pequenino tão lindo visto de minha janela!

Resolvo pegar minha lista de objetivos, risco aqueles que restaram, viro o papel e no vazio escrevo uma frase.

Nada de planos, apenas meu epitáfio.

Simone Athayde é escritora.

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