Série Contos da Pandemia (10): Falando de dinheiro, de Luiz Gustavo Medeiros

“O passado dos pais age no filho como uma peça movida errada no início da partida de xadrez… todo mundo tem seus segredos, não adianta, todo mundo guarda alguma coisa”

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 533 mil brasileiros. A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)

Falando de dinheiro

    Luiz Gustavo Medeiros   

Olha, filho, você não faz ideia, a sorte é que hoje estou com tempo. Sorte pra ela. Azar pra mim. Hm…, e ela repete o você não faz ideia e enfia um a menor bem realçado entre o faz e o ideia — e olha pra cima, como se visse um universo inteiro a que só ela tem acesso, antes de voltar a olhar pra mim, sorridente mas nem tanto.

Seu pai não é fácil, e antes que ela comece, ok, mãe, só quero falar que o pai tem que cuidar melhor do dinheiro, mas não adianta nada. É que minha mãe acha que conversar é igual jogar xadrez; pensa, fala e só muda de assunto quando passa a vez, como se batesse no reloginho, pra você ter ideia, quando a gente noivou, essa história eu conheço mas deixo ela falar, gosto da raiva que ela fica do pai, pode ser que de noite fale alguma coisa que surta efeito e ele mude de uma vez por todas, ele perdeu no jogo e pediu dinheiro pra mim, e é sempre aí, quando menciona o carro, que a respiração fica mais ofegante, o volume da voz aumenta, eu tinha acabado de comprar um carro, um fiat 147, tava ze-ri-nhô, e vendi pra pagar a porcaria da dívida.

Só que eu não lembrava que, de vez em quando, quando conta essa história, ela desvia do ponto principal e agrava a raiva que tinha que ter parado por ali, mas eu sou burra, faço tudo pelo seu pai e ele é incapaz de agradecer, de elogiar, de falar qualquer coisa bonita pra mim, fico dez horas naquela loja enquanto ele aqui, vendo tevê na cama; e ele não fala nada, nunca, apontando o dedo pra mim, sangue do sangue dele, você sabia que seu pai nunca disse que me ama?, e eu, não é assim mãe, eu já vi ele dizendo que te ama sim, mas não vi não, nunca, juro por tudo que é mais sagrado, ele nunca disse que me ama, só me resta falar tá e tentar voltar ao assunto principal porque a resposta aos dramas da minha mãe é uma só: divórcio; mãe, o que eu quero falar é que…, ela me corta com desenvoltura, fala alto e rápido, você acredita que ontem, quando cheguei, seu pai abriu a porta e disse: comprei esses legumes pra fazer sopa, já deixei de molho; praticamente man-dan-do eu fazer a sopa pra ele, isso que eu tinha saído da loja era quase sete horas e ele tava em casa desde as onze da manhã, no bem bom.

Os jogadores de cartas, de Paul Cézanne

O que eu quero é falar de dinheiro, mãe, é sério, tem que ficar em cima, se o pai vender o apartamento e você não ficar em cima, assumir o controle da situação, ele torra tudo, ela respira fundo e começa outra história, você sabia que seu tio Célio não queria que seu pai ficasse comigo?, e sou fisgado como um peixe diante de uma isca suculenta, ué, por quê?, ela solta um é sorridente mas nem tanto, tô te falando, quando vendi meu carro pro seu pai pagar a dívida seu tio me agradeceu, disse que tinha me julgado mal, aí depois seu pai me falou que no começo o Célio não gostava de mim, só faltou responder, por que ele não gostava de você?, tem isca que o pescador se arrepende de gastar, ah, é porque eu não era mais virgem, agora baixo, nenhuma desenvoltura, sério?, e ela, é, isso é pra você…, minha vez de interromper, mas que absurdo isso, um universo inteiro que desconheço, esquece, filho, falei só pra você ter noção do que eu já passei com seu pai, sei que os filhos tem um passado que existe antes mesmo da existência dele, só que é estranho se dar conta disso, mas você disse que o pai foi seu único namorado, é que o passado dos pais age no filho como uma peça movida errada no início da partida de xadrez, e foi, e eu começo a pensar no que ela disse no início, que eu não faço a menor ideia, não faço a menor ideia do quê?

Então você era mais moderninha, é isso?, e ela mal deixa eu terminar a pergunta, que moderninha o quê, não é nada disso, e começa a me dar ordens, você não tem que sair daqui a pouco?, porque não tira essa barba horrorosa, ela te envelhece, você fica bem melhor sem, a ordem nunca vem sozinha, traz sempre um comentário sobre a aparência, ela é esperta, sabe que a melhor forma de chamar a atenção de alguém é falando da aparência, eu te fiz uma pergunta, mãe, você não era virgem antes do pai porque era mais prafrentex, né?, responde com outra pergunta, você levou algum garfo-e-faca daqui de casa?, tem bem menos, seu pai deve esquecer dentro da embalagem de marmita, de pizza, e acaba jogando fora sem ver, tem que ter cuidado, e é o tipo de pergunta que é difícil não responder, pode gerar suspeitas, ela pode criar caso e aí já viu, não, não levei, escuta só, mãe, e ela, ai, filho, mãe tá cansada de conversar já, nada cansa mais do que a dúvida, ela fica rondando a cabeça, interfere nos afazeres, no apetite, até o corpo deve responder, sei lá como, mas deve, e eu tô cansado de não ser respondido, cacete, e, no entanto, quanta disposição a dúvida dá, olha lá como você fala comigo, sou sua mãe, não sou sua amiga não, acho que ela vai usar o mesmo argumento pra não me responder, tá, desculpa, mas vem cá, o tio Célio não queria que você ficasse com o pai porque você não era mais virgem, certo?, e nem espero a resposta porque sei que não é a que quero, e o pai é seu primeiro e único namorado, certo?, levanto a voz e sigo o interrogatório de olhos fechados pra não ver a cara de decepção dela com a grosseria do filho, então ou você era uma jovem mais moderna, sem frescura, ou você tá mentindo e teve outro namorado, ou então tá mentindo e aconteceu alguma outra coisa que não faço a menor ideia; tô aqui enchendo seu saco porque sei que você esconde um monte de coisa de mim, o Edu me contou que você conversou com aquela amiga dele que engravidou, a Liana, sabe?, ela respira fundo, impaciente e irritada, mais irritada que impaciente, que indicou uns chás abortivos, o que me leva a crer que você já abortou, e ela me interrompe, ai meu Deus, que saco!, abortei sim, uma vez, nada de mais, agora chega, não quero mais conversa, fala isso parada, pronunciando bem, abrindo bem a boca e arregalando os olhos, coisa que ela só faz quando está prestes a perder a cabeça.

Pintura de Remedios Varo

Mãe e pai tem essa coisa de achar que o filho vive ensimesmado, distraído por um brinquedo, desenho ou qualquer outra coisa na sala, quarto, nunca atento ao que fazem e falam os pais, mãe, é o seguinte, bobo eu não sou, e ela, í, vai começar, a sorte é que estou com tempo. Sorte pra mim. Azar pra ela. Uma vez ouvi você e o pai conversando, de madrugada, acho que era mais que meia noite, e nunca esqueci de você se desculpando, falando: eu não consigo, é difícil às vezes, e ela senta no sofá, cruza as pernas, põe a mão no queixo e olha pro rumo da varanda, como se quisesse esconder o rosto de forma discreta, na hora não entendi nada, eu tinha, sei lá, dez, onze anos, mas hoje…, e ela desfaz a pose por um segundo, olha pra mim, solta um muxoxo e volta a olhar pra varanda, mão na boca e pernas cruzadas, e tempos depois comecei a associar aquilo com a sua calma quando o pai voltava tarde, você dizia: deixa seu pai se divertir, ele trabalha muito, e eu: quê?, e ela, você vai continuar? já falei que já chega, penso mesmo em parar, porque a dúvida também derrota a gente às vezes.

Mas continuo, sim, mãe, vou, tentando deixar o papo mais ameno, a senhora tem que entender que sou seu filho, que te amo, que não sou mais criança e que é importante não ficar cultivando segredinho, sabe?, mas a velha é safa, ah, então você me conta todos seus segredos, é?, levanta do sofá e dá uma gargalhada alta, feia, dissimulada, conta porra nenhuma, quantas vezes achei maço de cigarro na sua mochila, perguntei se você tava fumando e você negou, e até parece que eu não sentiria o cheiro nas suas roupas; e você quer saber mais?, prestes a perder a cabeça, todo mundo tem seus segredos, não adianta, todo mundo guarda alguma coisa, você é novo, sabe nada da vida ainda, ou não, vai ver está só querendo me provocar pra ver se mudo meu foco, inclusive, mal sabe você que quando ele vender o apartamento, o dinheiro vai todo embora, e não é porque ele vai gastar, mas porque já gastou, tá tudo comprometido, fico quieto porque esse assunto também me interessa, você acha que a gente tá pagando as contas como, com os quinhentos reais que você dá?, com o vale alimentação do seu irmão?, para pra pensar, seu pai ganha uma merreca de aposentadoria e o inss ainda desconta uma parte por causa de um empréstimo antigo, essa merda dessa pandemia afundou de vez a loja, seu pai pegou mais um monte de empréstimo, tá devendo fornecedor, condomínio, ipva, a porra toda, e quer saber mais?, para um pouco pra respirar, prepara o bolso porque logo logo ele tá te pedindo dinheiro pra pagar o aluguel da loja já que pro seu irmão ele não pede mais nada; tá lá naquele apartamentaço do Marista, novinho, ganhando um puta dum salário de procurador e não faz um esforcinho pra ajudar eu e seu pai, nunca fez, quero discordar dela, dizer que meu pai, em vez de pagar as dívidas, vai usar o dinheiro pra jogar e apertar ainda mais a corda no pescoço, mas meu foco é outro.

Pintura de Egon Schiele

Mãe, por favor, não foge do assunto, parece até que sou um inimigo, alguém que vai te ferrar se você falar o que aconteceu, endireita o quadro que sempre esteve torto e ela nunca se importou, seu pai comprou esse quadro na feira do sol, baratinho, bonito né?, é difícil, muito difícil, preciso ser mais direto, mãe, mais agressivo mesmo, quase ofensivo, deixar a conversa mais grave e insuportável, por favor, pra que ela fale de uma vez, sem pensar direito, olha, mãe, não me leva a mal não, mas já sei que você transou com outro cara antes de conhecer o pai e que você nunca namorou esse cara, ela tira as mãos do quadro, e sei que você tem algum problema com sexo, alguma trava, alguma coisa aí, então me responde, mas não para de olhar, você foi abusada sexualmente, algo do gênero?, abaixa a cabeça e respira fundo, porque isso é grave, mãe, a gente tem que ver isso, foder com esse filho da puta, e seria bom você fazer terapia porque isso é grave, mãe, não dá pra levar isso pra vida inteira sem tentar superar de algum jeito, se vira pra mim, e o que isso importa agora, filho?, botar alguém no mundo não necessariamente significa compartilhar o mesmo universo com ele, como assim? importa tudo, ela coça a testa, já meio combalida, exausta por estar prestes a perder a cabeça por tanto tempo e não conseguir, filho, me conduz até o sofá, puxa a cadeira e se senta de frente pro encosto, senta aí, e eu só consigo sentir raiva, ninguém abusou da sua mãe coisa nenhuma, tá bom?, e dúvida – não sei se dúvida é algo que se tem ou que se sente, ou os dois –, vou falar, mas isso não pode sair daqui nunca, senão seu pai me larga, e eu, tá, fala logo, fico meio zonzo, como se de ressaca pelo excesso de dúvidas, eu tive que acertar umas contas pro seu pai porque senão matariam ele, entendeu?, realmente não faço ideia, seu pai e seu tio fizeram tanta merda nessa vida que você não faz ideia, mas quero fazer, mexeram com gente perigosa, peixe grande, diz olhando pra cima, mas o que o tio Célio tem a ver com isso?, um universo inteiro que desconheço.

Luiz Gustavo Medeiros é escritor.

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