Semana Santa: Nazareno, de Solemar Oliveira

A rocha é sólida, como também é sólido o osso que se choca. A dureza confronta a dureza, como o filho desafia o pai. E vence. É o que deseja aquele homem

“Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.” —  Mateus 3:17

Como um presságio, esgueirava o tempo, à beira da hora morta. Um frio. A turba observava, circunspecta, organizando o caminho. Emoldurada, a via. Aquele homem, o rosto sujo, levantou apenas a cabeça. Não conseguiu erguer o corpo pesado. Sustentava o cruzeiro de madeira com a força de um joelho, que se arrebentava na pedra. A confusão do lugar e o excesso de gente o perturbava, deixava tudo pastoso e arrastado. A imagem do dia, nublada, a vista ensanguentada do caldo vermelho que descia da cabeça. A coroa enterrada no crânio, plantada firme. As raízes também eram espinhos, que encrustaram, definitivas. A dor, uma companheira recente. Olhou ao redor para mapear o local. Viu mulheres e homens igualmente feios. Insultos que desciam desde o alto convencimento daquela gente pobre e imbecil. Perdoa eles, perdoa! Eu não me importo. E forçou a perna direita para cima. Mas o objeto era mais decidido e afundou o corpo machucado no chão cruel. Tombou com o rosto na terra. Quis chorar, mas lembrou-se que nada tão simples pode fazer surgir efeito relevante. Choro, apenas água e sal. Noutro tempo, água podia ser vinho, roxo e intenso. Mas água é sempre necessário, lembrou. Respirou a poeira do chão e recordou-se que, menino, fazia isso o tempo todo.

Flagelação de Cristo (detalhe), de Caravaggio | Foto: Reprodução

Ele mesmo, garoto, lançava-se ao solo de propósito, escorregando de barriga para pegar um outro, que lutava e perdia, pois era forte, como um touro. Das aventuras do dia, ficavam profundos cortes e arranhões que eram apaziguados pela mão carinhosa da mãe, sempre atenta. Precisa recuperar as forças e levar o carvalho para o monte, é sua missão, como disseram. Aquele homem está cansado. Cansado de ser, justamente, aquele homem. Apontam os dedos indecentes, cospem com convicção, olham com desdém, chutam a poeira em seu rosto, e dizem: aquele homem, quem ele pensa que é? E o mesmo homem, calado, por agora, não levanta o rosto. Lembra que já foi falador, nos montes, inclusive. Andou dizendo coisas que detestaram ouvir. E disse, muitas vezes. Tem sede, o corpo tem sede. Da água, não do vinho. Há uma expectativa de beber água pura das fontes do Éden. Ainda tem força para rir, um riso discreto. Pode ser água meio suja, real, fresca, na medida do possível. O sol é inimigo de superstições, não um mito, como querem os textos antigos. As escrituras. Voltando à água, absurda e física, é a que ele prefere. Tem a mesma estrutura de seu corpo. Pequenos corpúsculos ordenados ao acaso, quase irreal, no ínfimo universo que ocupa, mas real no infinito de seu conjunto. Uma nova tentativa. Firma a cruz nas costas lascadas e apruma o corpo. A armação é feita de coisa sólida, essencialmente sólida, do número interminável de corpúsculos citados, a esmo ordenados e grudados por forças ancestrais. Ele imagina. Mas não neste momento de dor. Refletiu muito sobre isso enquanto partia o pão ázimo e distribuía suas frações de igual natureza aos amigos famintos. Comam, esse é meu corpo que é dado a vocês para que saciem a sua fome. Não parecia convicto, mas era o pão que tinha ousado partir, e sua generosidade era maior que seu apego ao corpo, mesmo sabendo que o corpo, o desejo, a vontade, são absurdos necessários. Não pede ajuda, nem reza para qualquer divindade, para o deus que os caluniadores atestam ser deles. Apenas decide subir, uma última vez. Arrisca tudo. Está humilhado. Em pé, vacila. Anda sinuosamente, ameaça cair de novo. Consegue. Olha para o alto em busca do céu, azul, porque tudo é azul, ou azulado. Vê as madeiras cruzadas e imagina que tudo, também, é pão e vinho. São formas estruturadas à revelia irônica do criador. Não entende o fato de que se tudo é pão, por que há fome? Não só de pão o homem viverá. Está cansado. Sua força bruta de menino começa a tornar-se a condição de velho, o que ainda não é. Mas a fórmula da potência não é uma constante e sua intensidade não é igualmente distribuída. Pensa que há um limite. Sempre há. O dele foi na noite anterior, antes mesmo de ser apresentado às duas colunas de madeira cruzadas. Seu castigo e sua redenção. Do abismo em que se encontra, reconheceu que a doutrina, construída até a véspera dos 33 anos históricos e cabalísticos, não funciona à perfeição, como gostaria. Essa impossibilidade gera uma dor mais intensa que os cortes do chicote afiado e da pesada cruz, que repousa absoluta em seu ombro desorganizado.  Agora, caminha entre vaias e uivos de deboche. Sabe que mais adiante tudo termina. É assim que precisa ser. Não vai orar para o alto, nem dizer coisas a respeito de um cálice cheio, de vinho, não de água pura e limpa, que passou de mãos em mãos até ancorar nas suas, que o receberam de boa vontade. Está seguindo nesta senda porque colocou uma ideia na cabeça. Fixa e imutável. Acredita que todos os pecados do mundo podem ser perdoados. Basta que creiam, nele. E reconheçam o caminho que trilhou. Uns dizeres certos. A doutrina.  Apenas isso. Ponto. Um mundo de dimensões diminutas dentro do conceito, para ser explorado, descoberto. Um andar pelos campos, chamando quem quisesse ouvir. Exultar a capacidade de desvencilhar-se do pesadelo da escolha, mesmo achando que tudo que fez foram escolhas. Dar um sentido para as coisas físicas que possuem forma e substância, ainda sabendo da existência de porções diminutas, que se somam para constituir o todo que, intimamente, são menos simples e mais geniosas do que podemos imaginar. Avaliar o azul de tudo e agradecer por não ser o vermelho que domina. O vermelho é a coroa de espinhos. O azul são as mulheres, como as suas Marias. Tanto do mundo! A doutrina. Caiu de novo. Os dois joelhos na pedra. Se fossem pães, brancos como as nuvens do céu, teria se ajoelhado para a devoção e não sentiria o martírio do sofrimento do corpo. A rocha é sólida, como também é sólido o osso que se choca. A dureza confronta a dureza, como o filho desafia o pai. E vence. É o que deseja aquele homem. Subir ao monte e olhar o mundo, de sua cruz, para dizer: pai, eu te venci, uma vez mais.

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