Semana Santa: As tentações de Judas, de Edival Lourenço

O estigma de traidor bíblico, Judas carrega no corpo e na alma. São nódoas indeléveis para todo o sempre

– Você de novo por aqui? — disse Judas, visivelmente irritado.

– Cumprindo missão! – justificou o anjo, meio sem graça.

– Já lhe disse que não quero ver você mais, nem pintado de purpurina.

– Quem cumpre ordens, não pode se dar ao luxo de ter melindres. Vou fazer de conta que não ouvi.

– Você fica aí dando bandeira, depois os outros apóstolos querem saber o que estava fazendo aqui, o que falou comigo. Aqui todo mundo é suspeito e desconfiado, principalmente quando se fala com uma pessoa quem nem você.

– Não se preocupe, meu caro. Só você está me vendo.

– Pior ainda. Se os colegas me veem conversando sozinho, logo vão pensar que fiquei doido. Que estou aprontando alguma insanidade ou tramando contra alguém em surdina.

– Tá muito deprimido, meu irmão. Vamos falar do nosso negócio!

– Você é sempre insistente assim?

– É raro. Mas sempre acontece.

– Por que eu? Por que eu? Eu lhe pergunto pela enésima vez. Não poderia ser o Bartolomeu, o Thiago Menor, o Tadeu, o Zelote? Tem até aquele pescador do facão!  Não, você insiste que tem que ser eu. Que obsessão danada!

– Eu lhe respondo pela enésima e uma vez: você foi talhado para a missão. Você se chama Judas, não é por acaso. Seu nome vem de judeu, que é o povo de Deus. Você foi marcado na concepção para realizar um grande trabalho. No mundo bíblico, cada um exerce o seu papel. Inclusive sua resistência faz parte do script. Deus Pai escreveu o roteiro e sabe, de cor e salteado, tudo antecipadamente, e não vai se recolher enquanto não se cumprirem todos os detalhes de Sua produção.

– Você é muito conversador! Se já está tudo escrito, onde fica o livre arbítrio?

– Você está antecipando uma discussão que não vai ser pacificada nos próximos milênios.

– Você é maluco mesmo, cara! Vê se me erra! Casca fora!

– Nem pensar. Se eu retornar sem sua concordância, sem sua assinatura no contrato, Deus Pai me depena vivo!

– Tô pouco me lixando para suas penas. Não quero  mais você beirando a minha aba!

O anjo se foi. Foi é jeito de dizer. Ele simplesmente desapareceu no mesmo lugar em que se encontrava, sem se mover um centímetro sequer. Judas não estranhou, porque anjo, com seu corpo de éter, costuma agir assim mesmo.

No entanto, antes que Judas respirasse fundo, umas três vezes, e agasalhasse os nervos no lugar, o anjo reapareceu no mesmo ponto, mais carrancudo, com as penas um pouco mais eriçadas, sintomas de ojeriza ou de grande determinação. Portava nas mãos, debaixo das asas, um pergaminho reciclado e um lápis de carvão, para Judas assinar, aceitando os termos do contrato.

– Não assino! Nem que o céu caia sobre minha cabeça.

O céu roncou feito um grande estômago faminto. E a terra tremeu como se fossem lhe fugir os pés.

– Tá bom!. Tá bom!  O que se pode fazer, né?

– Leia as cláusulas, antes de assinar, para não alegar desconhecimento depois!

– Não sei ler. Leia pra mim.

– Um apóstolo que não sabe ler…

– Apóstolo precisa é ser bom de ouvido e ter coração fervoroso!

– Mas sabe assinar?

– Desenho meu nome.

– Vou resumir as cláusulas para você. Sua renitência me atrasou demais. Tenho muitas outras coisas para fazer. É o seguinte: no exercício de sua função de arrecadador e tesoureiro do grupo de Jesus, você vai receber a oferta de um amarra-cachorros de Pôncio Pilatos e aceitar a paga de 30 moedas de cobre para  demarcar Jesus, com um beijo, quando a trupe estiver passando por um local descampado e favorável para que a polícia de repressão a baderneiros ponha a mão em Cristo e O leve preso.

– Que coisa horrorosa, não faço isso de jeito nenhum. Um beijo traiçoeiro na Face do Mestre? Procura outro. Ou melhor, não procura ninguém.  Um ato dessa vileza não cabe em nosso grupo.

– Escuta aqui, ó cabeça dura! Você vai executar um plano de Deus.  Para que Seu Filho Jesus seja confirmado como um Deus Filho, uma pessoa da Santíssima Trindade, é preciso que ele percorra a Via-Crúcis. Não é para o Seu próprio bem que Deus faz isso, mas pelo bem dos homens. Os homens só compreendem a história se houver uma jornada de sofrimento, grandeza e redenção. É preciso metáfora!

– Meta o quê?

– É preciso haver envolvimento emocional, uma grande alegoria para que as pessoas compreendam o plano de Deus. Deus vai sacrificar Seu filho Jesus, num extremo martírio, com lances e reviravoltas de cinema, para salvar a humanidade. É uma narrativa salvífica.

– Não entendi nada.

– Deus vai recompensá-lo pela missão cumprida.

–  O que que eu ganho com isso?

– Viu só? Você é talhado para a missão! Tem fé, mas tem ambição também. Fez a pergunta correta. Vai ganhar um assento, ad eternum à direita de Deus Pai,Todo-Poderoso, de onde verá a face de Deus diuturnamente.

– Faço uma coisa errada e feia e ainda ganho um assento ao lado direito de Deus Pai, com direito a ver Sua face? Quando a esmola é muita o santo desconfia, não o que se diz?

– Claro que não é tão simples assim. Você vai ter alguns percalços, alguns perrengues. A humanidade cristã vai taxá-lo, até a eternidade, de traidor. Mas Deus vai lhe engrossar o couro para tolerar a pecha!

– Rapaz, arruma outro! Sou homem de vida modesta, um apóstolo que nem sabe ler e escrever direito. Só sei arrecadar dinheiro para nosso grupo não passar fome. Mal faço as quatro operações para controlar o caixa.

– É hora de fazer um upgrade na sua carreira, meu velho. Você vai sair do fim da fila para a primeira bancada, no plano de Deus.

– Foi você quem fez o anúncio a Maria?

– Eu mesmo. Tá vendo? Naquela ocasião, José ficou de cabeça quente, todo encabulado, pensando que era vítima de chifres. Mas acabou compreendendo a conjuntura e por compensação receberá, além da salvação eterna, o título de Santo, padroeiro das enchentes.

– Tá bom! Seja o que Deus quiser!

Um pouco trêmulo, quase caindo em vertigem diante da missão terrível e descomunal, que acabara de assumir, Judas Iscariotes assinou o pergaminho numa única via e o anjo, com o canudo debaixo do braço, desmaterializou-se, sem qualquer rumor.

Nos dias seguintes, um pouco ressabiado e muito a contragosto, Judas cumpriu fielmente suas árduas tarefas de traidor divino. Aceitou as 30 moedas do assessor do governo, humilhou-se, catando-as no chão. Beijou a Face do Mestre, ostensivamente, demarcando-O para que a polícia O prendesse, sem resquícios de dúvidas. Atuou como alavancas na propulsão do martírio, para que a Paixão de Cristo tivesse sua encenação realizada com pompa e êxito.

O estigma de traidor bíblico, Judas carrega no corpo e na alma. São nódoas indeléveis para todo o sempre. Já a promessa de que Jesus tenha morrido na Cruz para salvar a humanidade é um processo em andamento, com resultados em aberto. Uma incógnita que pode nunca acontecer ou acontecer de modo diverso do prometido e do esperado!

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