Semana Santa: A Semana Santa de Mariana, de Maria Helena Chein

A tarde está perto de virar noite. O amor e suas sendas povoam o mundo, sobretudo o Amor de Cristo pelas criaturas que inventou

Você resolve deitar-se em cruz, na grande cama de madeira clara. Solta o belo corpo de promessas e cheiro de flor, fecha os olhos e voa. Voa até Cristo, no madeiro, com a cabeça pendida para o lado direito, e vê os espinhos da coroa, o sangue derramado há mais de dois mil anos, que continua a escorrer em sua vida de calvários e alegrias, Mariana. Calvários de desassossegos, dores, esperas e alegrias, sonhos   multiplicados. Deixa-se ficar quieta e percebe rumor de passos. Passos dele, o marido, tormento pinçado de leve para não machucar tanto, não doer demais, também encanto rastreado pelo contentamento que a deixa luzidia, puro alvoroço. Pressente que se abaixa junto da cama, passa a mão em seus cabelos e toca os lábios que saboreiam gotas de água e sal, pura lágrima no rosto já encostado ao seu. Respira fundo, abre os olhos e contempla, por milhares de vezes, o verde que a crucifica ou a enleva, num silêncio de perpétuas e caladas indagações, abismos de uma vida cheia de benquerença. Você, Mariana, sabe desse abismo, destemperança e afeto, nudez sem culpa, quando ele se despe das funduras, sem nenhum pecado, nenhuma miséria. Simplesmente, o homem frente à mulher já livre de ausências. Há uma necessidade sua de alguma fraqueza dele, sempre preciso e completo, senhor dos próprios domínios, admirado e cortejado por homens e mulheres que compõem sua história. Você é tão você, diz baixinho, perdida no verde que a arrebata com delicadeza, envolvendo-a em asas de querubim, asas de misericórdias. Tais asas, no entanto, podem abrir-se e soltá-la, sem piedade. É nesse momento que você se perde, sente-se desmoronar, desfazendo-se de elos, decisões e de qualquer nó que a segura em seu imenso mundo. Agora, vira-se para o marido, e as duas angústias, suas e dele, deparam-se, amorosas, e entregam-se, de corpo e alma, a uma aventura sem limites, fogo e crença de um sentimento que não se esgota.  Depois, na paz do instante, lembra-se de que é quarta-feira de cinzas, e a menina de oito anos vem de longe, andando devagar, olhando-a com os belos olhos, trazendo a cidade e seu passado que se perpetuam em lembranças. Você conta, mais uma vez, os casos que ele tão bem conhece, mas ouve atento, próximo de sua boca, que abre e fecha, entre suspiros de viagens que nunca chegam. Suas viagens, Mariana, não têm chegadas, ficam pelo caminho, porém o amado sai em busca de sua hóspede, menina de afagos e agrados, e a traz para dentro de casa: seu coração. Entre um vinho e olhares da noite, você começa a via-sacra de sua infância. Mais uma vez.

– Amor, eu havia feito a Primeira Comunhão e estava fascinada pelas descobertas sobre a Vida e a Paixão de Cristo. Os mistérios deixavam-me quase muda, quase morta, mas queria viver para entender os sofrimentos de quem morria todos os anos, por mim, por você, sem cansaço, numa repetição angustiante de cada acontecimento. Precisava viver para não me sucumbir nas crises de bronquite e   asma, que me faziam procurar, com desespero, o ar, o mínimo de oxigênio. Minha mãe, tal qual a mãe de Deus, acompanhava-me nessa busca, e meus pobres pulmões, a ponto de se sangrarem, levavam-me a um insano terror.

– Você havia herdado esse mal do avô paterno. De quem a culpa? Não há culpados. A genética não tem consciência. Ou tem?

– Eu chorava dentro do peito. Então, amor, todos aguardavam o canto do Perdão, na sexta-feira, às três horas da tarde. Queria cantar. Dona Maria de Lázara, que não saía da igreja, ensaiou-nos por vários dias. Meninas levadas tornavam-se quase santas, e entoavam “Há um Deus clemente/ chegai, pecador/ perdão vos pedimos/ perdoai, Senhor.”

– Sua mãe temia por uma possível crise de bronquite.

– Que me esmagava o corpo, nessa época do ano. Sempre no começo do outono! O outono, para mim, era angústia e medo, mas cantaria o Perdão. O peito chiava, a respiração sumia, enquanto mamãe me vestia de branco, com uma faixa preta de cetim, na cintura. Antes, porém, fez-me colocar um pulôver de lã vermelha a fim de me esquentar. Minha filha, desista! Nunca! – respondi-lhe. Às três horas, Cristo para morrer, eu nascia para o padecimento. Vontade de ser igual a todas as amigas e primas, sem nenhuma fraqueza. A igreja achava-se lotada de moradores, fazendeiros e roceiros da região. Chegou o meu momento. Desespero e vergonha, a voz não saía, somente os miados de um peito quase estourado por todas as dores. Dona Maria de Lázara cantou comigo, sua voz acima de minha voz. Levantei-me, estava de joelhos, e fiquei atrás da última menina, quando ouvi “não desmaie, não”. Acabava de enterrar para sempre aquele cântico, agrura de inquieta infância.

– Ficaram o branco, o vermelho e o preto do seu Perdão.

– O céu parado, pesado, o capeta solto no mundo, meu Deus, que arrepio, por isso, minha mãe fazia-nos comer jiló assado, no café da manhã, por isso não se varria casa, não se ouvia rádio, o riso era baixo e pouco. Nossos filhos, amor, nunca viram o Perdão, nem a matraca, a procissão do Encontro, a Via-Sacra, a Verônica, nem o Senhor morto. Eu assistia a tudo. Entre um sufocamento e um respirar, contemplava a Verônica, mulher santa e atriz, no mistério do negro, que assessorada por outras senhoras, subia na cadeira, a procissão parada, e de frente para o povo, desdobrava, lentamente, o pano branco com o rosto ensanguentado, de Jesus. Aquela voz     segurava a noite, num apelo que eu procurava entender.

– Calma, você dizia, é uma celebração.

– Vinham-me as palavras de vovó: Cristo já morreu, mas vai renascer sempre nos mistérios da Ressurreição. Agarrava-me a essa palavra, meu corpo se estremecia e ardia em febre. Os olhos baços percorriam os rostos, os pés descalços, e eu ouvia as vozes que varavam o claro da lua cheia.

– E a procissão do Cristo Ressuscitado?

– Você já decorou tudo, amor. Mamãe me acordava, e logo estávamos naquele caminhar alegre, com muitas pessoas, músicas e velas. Sentia-me bem melhor. Jesus ressurgia, o capeta se foi, e eu ia cantar, correr, ouvir a alegria dos sinos. E xingar, sem ninguém ver, é claro.

–  Naquele tempo, xingava-se. Hoje, fala-se palavrão.

– Bertolina, a empregada, era empregada mesmo, sem intenção de menosprezá-la, cozinhava ovos na água colorida de azul, amarelo e vermelho. Puro contentamento!

– Agora, os ovos são mais gostosos. Grandes, pequenos, recheados, embrulhados com papel brilhante e atados com fitas de todas as cores.

– Abrace-me forte, amor, que meu peito é livre, e respiro sem amarras. Abrace-me, enquanto há tempo, e você é meu grande bem. Desenterre-me de mim. Não, não estou triste. O tempo não para e não volta. Amanhã, chamarei Lavínia e Henrique para almoçar, concorda? Uma salada de macarrão pene com tomates secos, raspas de cenoura, limão, cheiro verde e azeite. Poderemos assar aquele robalo, e tomar um belo vinho. Quero ficar bem bonita no vestido azul.

Você termina as divagações, Mariana, aconchega-se ao marido e dorme rapidamente, depois de dar-lhe um sorriso de pérolas. Devagar, as mãos soltam-se, na quieta madrugada.

De manhã, convida os amigos, cuida de Beatriz e Rafael, ainda pequenos, antes de ficar maravilhosa para si e o marido, já ocupado com o peixe. Lavínia e Henrique chegam ruidosos, com falas, risos e uma caixa de bombons para as crianças. Salada pronta e arroz secando na chama lenta. O peixe na grelha deixa-se dourar por fora, e a carne branca tem o tempero para agradar aos deuses.

– Vamos para a mesa, pessoal! Vou servir outro vinho, que Baco sabe das coisas, das delícias.

– Amor, você é pura animação!

– Amor? Para que isso, gente? Livra-me, Deus, Mariana! Amor?

Você está eufórica, entre o ir e vir da cozinha, mas a observação de mau gosto de Henrique anuvia o momento que seguia mágico, e sua alegria tinge-se de cinza. E não há conserto. As palavras forjam o desencanto que tenta esconder, no riso sem graça. Por que o deslize do amigo deixa-a absorta, meio boba, a pensar no laço da intimidade, o de chamar o marido de amor?  Havia demorado tanto a ter coragem. Ele lhe dizia, carinhoso, fale, mas não conseguia. Foi difícil abrir a boca e dizer amor. O amado esperava, e você tentava soltar a palavra, que, enfim, fez o primeiro voo, meio fraco, meio troncho. A palavra libertou-se, inocente e inteira. Desde os tempos de asma, ela permanecia presa, envolta por alvéolos e brônquios, de repente molhada, de repente seca, em eterno cárcere. Depois da conquista dessa liberdade, deliciava-se em repetir o mais doce dos vocábulos para o marido atento à ternura e promessas refletidas em seu rosto. E agora, sofre o julgamento absurdo, mas não será seu fim. É uma vitória, batalha ganha, e haverá de ser sempre um deleite compartilhado. O almoço continua com as delícias, o vinho adormece, levemente, as sensações daquelas quatro criaturas, que falam sobre o dia seguinte, a sexta-feira. Talvez, vão à Igreja para a Liturgia da Palavra e o Relato da Paixão de Cristo. Ou ficam em casa, assistindo a algum ofício pela televisão.

Às dezessete horas, saboreiam café com sequilhos e despedem-se, ouvindo Henrique desculpar-se pela tremenda falta de delicadeza com você, que lhe responde, olhando para o marido: Já passou, não é, amor?

A tarde está perto de virar noite. O amor e suas sendas povoam o mundo, sobretudo o Amor de Cristo pelas criaturas que inventou.

5 respostas para “Semana Santa: A Semana Santa de Mariana, de Maria Helena Chein”

  1. Conto magistral. Parabéns à Maria Helena Chein, a mais recente confreira na AGL.

  2. Avatar Iraides disse:

    Mais uma excelente escrita dessa escritora sensível.

  3. Avatar Iraides disse:

    Mais uma escrita bela de uma escritora sensível.

  4. Avatar Heloísa Helena de Campos Borges disse:

    Parabéns, Maria Helena!
    Conto bem narrado e rico de alternância temporal. Muito bom!

  5. Avatar Raquel Naveira disse:

    Um belo conto misturando o sagrado e o profano, o amor e a Paixão. Parabéns.

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