Semana Santa: A poesia da inocência e as dores sob a luz da fé, de Lêda Selma        

A tia perdeu a paciência, cutucou a mãe das duas, e o beliscão não se fez de suplicado: cravou nas meninas as pequenas unhas e, logo, ouviram um dueto, “ai, ai, mamãe!”

Lembranças são fragmentos de vivências

grudados no tempo. Espiam instantes

e, quase sempre, inspiram saudades.

Minha infância visitou-me, hoje…

Sexta-Feira da Paixão!

 

– Não pode tocar no defunto, irmãzinha, hem?!

– Posso sim! Não é defunto. É o apaixonado!

– Parem com essas bestagens, meninas, é pecado!

– Tia, foi ela! E cometeu um pecadão!

– Falei e não desfalo, porque não é pecado.

– Parem, já falei, ora! Querem ir para o Inferno?

– Você vai pro inferno junto com a bestagem, irmãzinha!

– Nem sei o que é bestagem, como posso ir com ela?!

– Deve ser coisa ruim, se a tia disse que é pecado…

– Nem sei voar, como é que eu vou pro Inferno?!

– Não vai voar, vai pular, tonta! O Inferno é lá embaixo, no escuro.

– Querem parar com isso?! Vou chamar a mãe de vocês. Afff!!!

Alguém, um pouco à frente, tentou um cochicho, porém, os vizinhos de banco não lhe permitiram tamanha falta de etiqueta, ainda mais religiosa, e o detalhe, a uma só orelha. E calibraram os ouvidos para ouvir o cochicho: “Hoje é sexta, mas não vai sextar. Com todo o respeito, o motivo está ali, gessificado, sobre a mesa de mármore, como se em carne e osso.

– Ouvi. Não vai sextar! O que é sextar?

– Deve ser coisa de gente grande, pirralhinha curiosa e enxerida!

– Então, é coisa boa. O apaixonado morreu ou desmaiou?!

– Tia, ela fica ouvindo conversa de gente grande e aí pecou.

– Eu não fiz pecado! Minha língua escapuliu. Foi a voz que pecou!

– Se derem mais um pio, vão se ver comigo, estou avisando!

– A gente nem é passarinho. A tia esqueceu?!

A tia perdeu a paciência, cutucou a mãe das duas, e o beliscão não se fez de suplicado: cravou nas meninas as pequenas unhas e, logo, ouviram um dueto, “ai, ai, mamãe!”.

– Nem ai, ai, nem ui, ui! Vão sair daqui, agora, direto para a sacristia. Já! Não me deixam concentrar na liturgia da Sexta-Feira da Paixão!

– O que é sacristia, é o Inferno? Tia, não quero ir pra lá, por favor!

– Tola demais, minha irmãzinha, Jesus me abane! Ih! pequei!

– Venham! Estão de castigo. Fiquem sentadas aqui, bem quietas, não mexam em nada. Rezem cem ave-marias e cem pais-nossos.

– Tá vendo, boboquinha? Tamos de castigo! Mas a tia tá errada. Pecou! Hoje, ninguém pode castigar criança, palavra de Deus!

– Não é castigo, é reza, irmã sabereta!

– É castigo disfarçado, inocente!

– Se tivesse disfarçado tava com máscara, peruca e dentão.

– Você é criança demais, só 6 anos. Eu sou madura, tenho 8 anos, não vou trocar ideias com você.

– Trocar ideias? Cadê as ideias? Só tô vendo o tercinho em sua mão!

– A gente não carrega ideias na mão. É na cabeça!

– Na cabeça só tem o diadema. Ah! ele é a ideia?! Mamãe não colocou ideia na minha cabeça. A minha ideia estragou. Aí, ela pôs lacinho. É mais bonito que ideia! Não quero trocar nada com você! Nem ideia!

– Esquece! Vamos rezar um pouco, senão, levamos bronca. E o pecado da tia fica ainda maior. Castigar criança, hoje?! Deus anota tudo!

Silêncios, de esguelha, bisbilhotavam, quase arfantes, tudo o que ocorria na singela capelinha. Lotada. De fiéis. Suspiros. Olhos molhados. Rostos contritos. E a tia, inquieta, dividida entre a liturgia e as sobrinhas.

– Preciso dar um flagra nas tagarelas, lá na sacristia. Ouço buchichos. E não são de rezas. Eita meninas custosas!

– A tia é má que nem bruxa? Se ela é pecadora é porque é má. Fez até maldade com a gente. Ela tem olho zarolho e cabelo espetado. De bruxa!

– Ei, que tagarelice é essa? E da reza, o que me dizem?

– Hora do recreio, uai! Não mexemos em nada, tia. Só rezamos.

– A senhora trouxe lanchinho? Minha barriga que perguntou. Ela tá com fome.

– Rezem! Daqui a pouco, venho pegar umas coisas. E levo vocês.

Ritual fúnebre. Ambiente sombrio. Tudo pronto para a memoração do calvário e morte de Cristo, peça encenada por voluntários locais. Perto do altar,

personificada em modesta, porém, bonita escultura, a inércia de Jesus, o filho de Deus, humanizado, que veio ao mundo, por determinação do Pai, para salvar a humanidade. Imolou o próprio filho! Pobre Maria!

– Quero ir embora. Já rezei muito. Hoje, posso fazer o que eu quiser. Oba! Vou pegar minha sombrinha, subir no muro e pular de paraquedas quando voltar pra casa.

– Você não é paraquedista! Hoje não pode apanhar, mas amanhã…

– Faço de conta que sou puladora de paraquedas, pulo e pronto!

– Se fizer isso, leva um tombo, fica machucada, o coro é dobrado e vai direto pro Inferno, porque teimou e mentiu. Aí, você tá frita, irmãzinha!

– Hoje, não posso ser fritada. Só amanhã, esqueceu?! E Mamãe não tem coragem de me fritar. Sou sua filha. Sou criança. E amiga do apaixonado.

– Criança sonsa, bocó e sem cultura.

– Se a tia disfarçou o castigo, então, mentiu, teimou com Deus e pecou. Ela vai ser fritada. Tenho cultura sim, viu?

– Voltei. Deixem de trololó. Se não terminaram a reza, depois terminam. Vamos acompanhar a procissão do Senhor Morto. É Sexta-Feira da Paixão.

– Qual senhor, tia? Não conheço o senhor. Não quero ver o homem morto! Só vi o apaixonado e fiquei muito triste.

– Que história é essa de apaixonado, criaturinha?! Quem é ele?

– Acho que é Cristo, ou Jesus, aquele que tá deitado, lá, perto do altar. Morreu por causa da paixão. Meu ouvido escutou muito bem essa gente falar toda hora “a paixão de Cristo”, mas ninguém conta quem é a moça. Nem a tia!

– Que moça, menina lerda?! Não tem moça nenhuma, ele é Jesus Cristo, presta atenção!

– Mas acho que ele tava apaixonado, aí, ela judiou dele, ele ficou triste, chorou, engasgou com a lágrima e morreu. E todo mundo ficou com dó. Não sei quem é a namorada. Pode ser até fantasma. Só sei que ela é malvada e vai pro inferno.

– Agora, o pecado foi grande, porque Jesus nunca teve namorada, é Santo. Eu acho que lá no Céu o nome da morte deve ser paixão. É isso.

– Santo não pode namorar? Não quero ser santa! Quero ir embora, pular de paraquedas.

– Crianças, cheguei. Silêncio, maritacas! Vou só pegar a Água Benta para o padre, que está ansioso, e vamos sair. Hum… Cadê a água?!

– Ih! tia, bebemos a água todinha!

– Água… a benta, para o ritual santo?! Beberam a água toda?!

– Queria que a gente engolisse a sede? A língua já tava até muda.

– Eu bebi só um tiquinho, tia, um tantinho assim, ó! O resto joguei pras formiguinhas que tavam até chorando de sede, ali, naquele cantinho!

– Jogou fora a água benta?! Ó, Senhor! Era só o que me faltava! O que fazer agora? Andem, me digam, suas danadas! O padre vai me matar!

– Não fizemos nada errado. Só bebemos água. Quem mandou castigar a gente, na Sexta-Feira da Paixão?! A senhora chateou Deus, é pecado, uai!

– Calma, tia! Hoje, o padre não mata, não! Só amanhã. Mas, primeiro, vão fritar a senhora, viu?

O tempo passou, sem olhar para trás, implacável no cumprimento de seu destino. As meninas adolesceram. E, todos os anos, participavam contritamente das atividades religiosas da Semana Santa. Domingo de Ramos, entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Quinta-Feira Santa, cerimônia do Lava-pés. Sexta-Feira da Paixão, vestidas de branco e com voz contristada, ensoavam, na igreja, às 15h, junto com outras adolescentes, o Canto do Perdão. À noite, procissão do Senhor Morto. Seu martírio exposto no cortejo. O suplício de sua mãe, Maria. As paradas para o lamento comovente, em forma de canto, de Verônica, enquanto desenrolava o véu, que ofereceu a Jesus, para enxugar o rosto, no qual sua face, embebida de sangue, ficou impressa.  Momento triste. Olhos cabisbaixos. Lacrimados. No Sábado da Aleluia, vigília, à noite. Mas, durante o dia, comunidades e famílias promoviam a já tradicional festa popular de Malhação de Judas Iscariotes, o apóstolo que traiu Cristo. E havia sempre algum político representando, jocosamente, o Judas, para ser queimado.

A juventude sempre chega com outras expectativas, novos conceitos, todavia, as irmãs mantiveram as tradições familiares da Semana Santa e, em especial, da Sexta-Feira da Paixão. Abstinham-se dos doces, sucos ou quaisquer outras guloseimas (carne, nem no pensamento! Já camarão, bacalhau, peixe do bom, permitidos!). Obedeciam aos costumes do pai, que lhes exigia o sacrifício de não ligar a televisão. Não cantar ou ouvir músicas incompatíveis com a sacralidade do santo dia. Não andar de bicicleta. Tampouco de carro. Risos? Nem disfarçados.

À irmã mais velha, com o casamento marcado, o alerta da coordenadora de atividades religiosas: “Este é seu último Canto do Perdão. Vai se casar, não será mais virgem, não poderá cantá-lo”. Surpresa, decepção, lágrimas, marcas da desolação de uma indesejada despedida. No próximo ano, “José e Nicodemos, cheios de amor, vos descem da cruz, perdoai, Senhor!”, terá outra voz. A irmã mais nova cantou o Perdão por mais cinco anos, até o casamento tirar-lhe a virgindade e, em consequência, cassar-lhe o direito ao canto.

Tempo apressado, em voejos céleres, e as irmãs seguindo seus trajetos em parcerias constantes. O Sábado já não era mais da Aleluia e sim, Santo, dedicado à vigília, à espera silenciosa pela ressurreição do Salvador (refizeram as contas e concluíram que Jesus Cristo só ressuscitou no dia seguinte, domingo). Domingo de Páscoa, da Aleluia, portanto.

Abril chuvoso. Noite sozinha de estrelas. E mais uma Sexta-Feira da Paixão. Abrupto, uma sombra invisível pairou no ar e materializou-se, assombrosa, em infausta notícia. As irmãs se abraçaram. Devastada, a mais velha olhou para a imagem de Maria e emitiu um som quase inumano:

– Que dor sinistra é essa, que sinto agora, Mãe?! Dor que me abate e me extirpa a alma! Que sina tão inclemente: a dor irreversível da Paixão de nossos filhos! Mas o seu, Mãe, é Cristo! O meu, Anjo! A senhora é santa! Eu, humana!

– Minha filha, você bem disse: seu filho é Anjo. E lugar de anjo é no Céu!

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