Semana Santa/A Décima Quarta Estação, de Miguel Jorge

Essas esquinas apinhadas de gente. Essa pressa. Essa agonia. Esse frio. Esse fechar de olhos. Esse pedir de água, de água, de água, de água

Primeira Estação

Eu não quero saber de outra coisa a não ser deste momento desta paz interior ou dessa revolta que vem e me foge e nem ao menos consigo segurá-la por muito tempo e eis aqui a imagem deflagrada e eis ai os gritos a turma as vozes a multidão em progressiva ira movendo-se num ponto numa neblina ou numa nebulosa fixa meu nome de boca em boca os cartazes a propaganda indo e vindo num oscilar de corpos de dentes e quem melhor do que eu poderia dizer que eles sentenciavam minha sorte me condenavam mas onde os santos aprenderam a ter coragem e constância em sofrer torturas e o martírio e morte poderei dizer que busco também essa mesma força agora tudo se inicia e vejo por entre sombras eles arrastarem tábuas martelos pregos cordas e eu estou diante da forca e tenho uma visão de meu corpo de minha língua dos braços estendidos do pescoço estalado de um mutilamento de órgãos que não demoraria a vir e moscas voejando e regozijando com o banquete e tudo isso em nome de um justiça que eles disseram ser verdadeira e essas mulheres e homens e crianças são os mesmos que amanheceram mais cedo para ver um homem morrer na forca e assim se iniciavam dois castigos um do condenado seguindo com as mãos amarradas no meio da rua e o outro ao longo da calçada iniciado pela multidão enfurecida e ainda um terceiro iniciado por centenas de olhos que espreitavam através das janelas e eles próprios se confundindo com as cores preta e azul e não haveria veste simbólica para aquele condenado nem uniforme de gala para os homens que marchavam ao seu lado e no silêncio que iria se formar elevava-se a voz de um homem na praça que lia compassadamente e em bom som a minha sentença.

Segunda Estação

Sabes que o aparato marcial movimenta-se. O povo. As vozes. Alguém dava fortes batidas em todas as portas e todas elas colhiam o ódio, a injustiça, a infâmia. Tudo corria vertiginosamente. Os boletins. Tu buscavas a precisão da tua vida, e já há tanto tempo, pois os archotes se acendiam em todos os pontos da cidade, e teu nome era eco das esquinas e tu sentias caminhar em meio de sangrentos insultos. Agora a malta te seguia no caminho doloroso que era obrigado a trilhar, sem ramos e sem rezas e velas, mas haveria valas e corda e cruz. Seguiam-te simplesmente, com olhos e mãos de ódio.

Terceira Estação

Queria voltar as minhas origens estar dentro do útero materno pelo menos era aquela posição que necessitavas naquele momento e no entanto abraço meus próprios braços e pernas no frio fétido feio chão deste cárcere tento uma paz que não existe pois comigo estão sempre os meus algozes e não me deixam repousar muito embora eu tivesse permitido que eles me amarrassem as mãos colocassem corda ao meu pescoço e me arrastassem pelas ruas da cidade cobrindo-me de chibatadas e insultos e me cuspissem no rosto e não me levantavam das quedas e eu ouvia o arrastar apressado dos pés que me seguiam e todos envolvidos na própria ira queriam um pedaço de meu corpo ou de minhas vestes ou tocar no meu sangue que começava a correr e eu buscava a todo momento dizer alguma palavra uma só palavra que fosse mas a palavra não vinha não vinha não vinha.

Quarta Estação

Tu irias sofrer mais ainda. Nem o ruflar dos tambores, nem os açoites, nem o toque de corneta anunciando e convocando o povo, nem o espetáculo da massa comprimindo-se na praça. Tu irias sofrer mais ainda ao saber que te levaram para um encontro mais doloroso que a expectativa da morte. As cenas se sucediam e tu tentavas metralhar a memória com cenas sucessivas da boa infância, passada à beira do rio, e tu sentias o murmurar das águas sobre pedras, de pedras sobre pedras, de peixe e rio, de rio e peixe, e te vias nu, mergulhando e saindo vitorioso. E te vias retirar um peixe de dentro das águas, molhado, dourado de sol e prata, ainda num último repuxo de vida. Mas, agora, estas cenas caíram por terra, e estas sentindo uma imensa aflição ao ver o rosto da mãe vendo o filho e buscas uma fuga, um ponto, uma linha a que se apoiar. E tremem-te as pernas, as mãos e o corpo inteiro, e não consegues mais individualizar os vultos que se comprimem à tua volta.

Quinta Estação

A agonia iniciara o corpo sofria os primeiros açoites e para isso usavam pedaços de paus secos ou verdes e isso me fazia sentir ainda mais próximo de mim aquele rosto de mãe e ninguém me veria enxugar o suor com uma toalha limpa e não se poderia dizer que eu não ajudara mais da metade daquela massa exaltada a se curar de seus males com meus remédios e minhas receitas e tudo se move novamente como o arrastar de passos pesados sobre a terra úmida e as batidas dos martelos pregando pregos em madeira forte poderão ser uma visão tão-somente minha pois eles me arrastam pelas mãos e por outra corda presa ao pescoço e voltam as palavras de insultos e cusparada e vejo que a agonia se inicia e as mulheres que ficaram em casa em preto e em rezas iniciaram um cantar de ladainha eu gostaria de dialogar com elas secar de seus olhos as lágrimas ou mesmo ouvir palavras ou coisas contadas da infância ou mesmo ver o meu retrato que uma delas certamente está a olhar ou mesmo dedilhar as cordas do violão e pensar que essa agonia é uma música que vem e me leva para o espaço.

Sexta Estação

Sabes do instante exato em que aquela janela irá abrir-se. Sabes em que rua caminhas e para onde te levam. Sabes mais, que poderás gritar tua inocência. Mas sentes um travo na garganta e tua língua ficará presa ao céu da boca. A rua. A multidão passando. Tens os olhos fixos na janela que está por abrir-se. E já está aberta de par em par. Trêmulo, tonto, mas com a gravidade que exigia o momento, tu tentarias gritar pelo nome dele. Esperavas ainda. E ele te enfrentava, olhava-te de frente, sem tremer, sem sorrir, sem mover um traço do rosto, do risco da boca. E sentias renascer o velho tempo em que andavam pela mesma cidade, cruzavam as mesmas ruas, disputavam as mesmas disputas. As lembranças te auxiliavam a bater mais apressadamente o coração esquecendo a agonia. E andavas livre pela cidade, falando das coisas, puxando a mulher e o filho pelas mãos, beijando o rosto da mãe. E tu voltavas a caminhar, olhando o homem inteiro na janela, como a forma simbólica de um horizonte longínquo que agora escurecia, e acabaria por desaparecer completamente.

Sétima Estação

Estou andando novamente com a agonia vindo para dentro da alma ouvindo o próprio grito e vendo aquele vulto amigo fechar a janela e distinguir outra pessoa caminhar compassadamente com uma bacia nas mãos e ainda uma segunda levando uma jarra com água e vejo que o vulto amigo surge inteiro pela porta da frente aclamado pela multidão e vejo também que ele lava as mãos e que lhe oferecem uma toalha branca para enxuga-las e de que me adianta ficar pensando nele no homem no vulto amigo quando na próxima esquina minha mulher e meu filho choram por mim e eu terei que vê-los e mesmo nessa agonia sorrir para eles num único gesto e eu pensava que haveria degraus e escada para subir mais vejo que ainda irei cair outras vezes e que terei que levantar-me sozinho e seguir andando caminhando caminhando.

Oitava Estação

Tu estás novamente naquele cárcere. Outras marcas e outros condenados deixaram de existir naquele passado lugar, e o fim cada vez mais próximo acordava a agonia como um último acorde. Se houvesse fuga era por ali mesmo. Davas voltas pelas quatro paredes e uma volta dentro de si mesmo, colocando recordações em cada lugar. Casa. Quintal. Quarto. Fazenda. Quintal. Entre árvores. E uma conversa iniciava-se, mesmo antes de teu pai surgir dentro das sombras do cárcere, com o semblante do antigo pai, e agora é o reinicio de tudo, num ir e vir de breve fuga, num diálogo que o tempo consumiu, e não poderia dizer mais nada a ele, o velho pai, a não ser de tua agonia que se espalhava agora por todos os membros. E se ninguém mais ouvia voz era porque lá fora a malta se exaltava novamente em gritos e insultos. E ouvias que havia uma voz de comando dizendo: Sigam-me. E a porta de sua cela haveria de ser forçada e não demoraria por abrir-se.

Nona Estação

A coisa veio voltando lentamente eu sabia esperar e sabia também que o fim viria depressa que aquela dor não existia no entanto sentia a pele grudada ao corpo e minha voz grudada à garganta e várias chagas que se abriam aqui e ali e que eu teria que levantar-me de uma outra queda mais violenta ainda que me faziam subir uma ladeira e haveria uma terceira queda e minha mulher e meu filho e meu pai tentavam socorrer-me mas seriam impedidos pela força da malta e eles iriam ficar um pouco mais afastados da praça á sombra de uma árvore e a massa cobria-me de pancadas e eu não compreendia o desejo meu de nunca mais chegar de ficar por ali mesmo empapado de sangue pensando nas pessoas que me esmagavam e que também poderiam ter um nome um nome um nome e foi ai que alguém gritou qual o seu nome e eu permaneci calado e foi então que a mesma voz perguntou pela segunda vez pelo meu nome e então me lembrei de uma história que havia lido e que nunca saíra da memória e então respondi baixinho muita gente onde nasceu muita gente culpado muita gente

Décima Estação

A agonia novamente. A casa velha. Teu cárcere era como a casa de tua infância, onde te prendiam para não fugires, e onde também aprendias a saltar para a liberdade, e tinhas um cajueiro com cajus amarelos e um pé de manga coração-de-boi e muitas cigarras e algumas borboletas. E agora diante da visão decidida da massa, tu vias em cada rosto o rosto do pai, e ele não se movia para salvar-te. Vias  o lugar onde haveriam de chegar, passando por todas as ruas, a cair e a levantar-se. E as coisas deveriam iniciar-se novamente, passo a passo. E haveriam de te despir, e pedaços de tua carne ficariam pelas esquinas, ou numa curva, ou numa reta, e cada vez mais se aproximava o final e cada minuto é o começo de tudo, como se tu nascesses ou voltasses ao útero de tua pobre mãe, naquela posição que não conseguias encontrar.

Décima Primeira Estação

Sei do inicio do fim que começa a surgir dentro dos meus pés cansados alcançando nervos e músculos e artérias chegando até a cabeça sei que os gritos diminuiriam e que a fúria já não é tão fúria assim que eles cansados começam a pedir silêncio ou talvez seja o respeito pela minha memória vejo o vulto da mãe do pai da mulher do filho no alto da praça à sombra daquela árvore e parece não ter mais fim esse lá chegar mais vejo que não precisarei  subir degraus pois é apenas uma elevação comum como outra qualquer com algumas árvores e umas poucas flores e minha sombra andará por ai liberta amadurecendo sentimentos parando de quando em vez para colocar mais palavras no meu caderno de notas palavras com força de poesia e isto eram sintomas estranhos para essa gente que nunca me compreendiam e eles próprios me achavam estranho o sol ou o pássaro ou o passo do passado animal ou a velocidade dos homens e dos carros e às vezes haveria de escrever umas palavras sobre a morte ou a vida e tudo voltava como no começo de tudo o princípio o princípio no princípio.

Décima Segunda Estação

A agonia da noite. Trevas por teu corpo. Agonia das horas. O corpo envelhecendo dentro dos segundos. Logo mais o sol, o céu, a lua, a terra, as pedras, e todos os elementos testemunharão tua caminhada. E não te resta nada mais a fazer, ou quase nada, a não ser pensar e estar vivo pelo pensamento, e dentro do pensar alguém há de vir falar contigo e te dirá palavras como: vento ou chuva, praia ou areia, mar, rio, peixes, animais, pássaros e todas essas composições de outro universo. E tu estarás atento, e essa voz será como a derradeira canção que jamais ouvirás. E sabes bem, que esse lento arrastar do tempo se transformará dentro em breve e se erguerá como um furacão, e te levará pelas ruas, te conduzindo por entre pedras e pontas e paus e pedras, e teus pés crescerão e tuas mãos e tua língua também. E alguém iria propor nova iniciação de insultos, e os açoites recomeçariam, e o dia e a noite permaneceriam os mesmos, menos o céu que se cobriria de negro.

Décima Terceira Estação

Não poderia esperar mais nem eles tão pouco das casas saíam gente e nas casas ficaram gente e os que saíram caminhavam sempre juntos e o som ora selvagem ora ameno chegava-me através das barras de ferro de uma janela de cinquenta anos e um turbilhão de coisas e cores projetavam-se à minha frente e eu tinha uma caneta na mão e algumas palavras na mente que poderiam servir de acalanto naquele momento e poderia gravá-las naquela parede vincada de musgos  e estrias verdes de pequenos bichos e podia-se se ver agora uma lesma que subia lentamente seu caminhar e eu também num lento caminhar que ainda é meu tenho a parede e a caneta  e as palavras e a agonia e escrevo sem vacilar sem tremer sem pensar nos homens que rondam o cárcere e pedem meu corpo sem pensar no guarda que viria me avisar o aviso último e escrevo ainda:

Eu vim do pó- sou irmão do verme,

Eu vim do nada- e dele quero ser,

Quando a morte transformar-me,

 

O Ser do Ser…

 

Sou lama –sou lodo–sou poeira

                 

E nada mais no mundo posso ser!…         

Eu vim do pó—sou nojento e imundo,             

Eu vim do nada e a ele hei de volver…

Não desejo mais nada deste mundo,

Só espero morrer…

Décima Quarta Estação

É tua última caminhada pelas ruas e eles insistem em te arrastar. As cores e as casas vão passando como uma orquestra registrando sons breves ou longos. E aqueles rostos também vão passando contraídos ou descontraídos, e uns ficam e voltam e voltam ao tempo de antes, a receber teus tratos, teus conselhos, tuas palavras, e tu dobravas de joelho para curar-lhes as feridas. E agora, caminham mais depressa e parecem querer correr e estão sempre em fuga, a oscilar entre dois pontos. E quem haveria de te levantar do chão. Haveria pés sobre teu corpo caído, a vida começando a fugir e a voltar em retrocesso, e as casas abrigavam tuas lembranças. Mas as vozes continuavam a esmagar tudo e uma sobressaía sobre as demais. Comício, procissão ou coisa parecida, não fosse o sangue a molhar a terra. E o vulto em fuga da janela, outro vulto com a bacia e um terceiro com a jarra de água, as mãos sendo lavadas. Também não fosse a visão da mãe, da mulher, do filho, e a noite devolvendo-os em sua sombra. Mas havia sol. E o pai, por onde andaria? Agora o som seco do martelo a martelar pregos. Não fosse também aquele voo de pássaro para bem longe da praça, esse seguir e não voltar. Essas esquinas apinhadas de gente. Essa pressa. Essa agonia. Esse frio. Esse fechar de olhos. Esse pedir de água, de água, de água, de água.

 

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