Semana de Arte Moderno (19): Essa vontade que dá de comer gente, de Hélverton Baiano

A farra de comer uns aos outros virou uma febre, que na verdade não esquentava a temperatura e nem causava mal-estar, e lembrou nosso ancestral Tupi

O Jornal Opção vai publicar, com a curadoria do presidente da UBE-Goiás, Ademir Luiz, 22 contos de 22 autores evocando de diferentes formas a Semana de Arte Moderna de 1922 — que completa 100 anos em fevereiro, ou seja, nunca acabou — como inspiração. As mais diferentes possibilidades estilísticas foram exploradas. Contos modernos, contos tradicionais, contos pós-modernos. De homenagens assumidas a severas reflexões críticas; narrativas evocativas, narrativas memorialísticas, narrativas ensaísticas, narrativas desconstrutivas. Algumas com humor, outras com amor, mas também com vaias, aplausos e mesmo com o som do coaxar de sapos antropófagos.

Essa vontade que dá de comer gente 

Hélverton Baiano

Quando dava vontade de comer gente, de corpo e alma, para amenizar os devorteios intempestivos de uma vida sem sal e doce, certinha ao extremo, Oswald de Andrade, que nascera junto com a República brasileira, se transformava no índio Ibirá Xchucri. Na maioria das vezes, comia que lambia os beiços, outras, como quando comeu um poeta desenxabido, cinco minutos depois estava vomitando o calhamaço de gente, porque o comido não era só o corpo, vinham espírito, alma e sentimento juntos. O corpo em si era comido pelo puro prazer antropofágico e às vezes até sexual de estar deliberadamente comendo gente, sentindo a carne quente, úmida e doce. Gosto da comida ancestral indígena. No mais das vezes, quando comia uma mulher, dava em poesia, brotavam versos de uma brasilidade insidiosa, que refletiam o jeito de ser do brasileiro e que transmutavam no que a gente se acostumou a ler dele e que era o Brasil autêntico.

Poeta ao extremo, Oswald vivia mulherengando e foi uma dessas mulheres, Tarsila do Amaral, que sacudiu os dentes e o comeu, gerando uma das obras de arte mais interessantes do imaginário artístico brasileiro, o Abaporu, que traduziu essa imagem do comedor de gente. Essa farra de comer uns aos outros virou uma febre, que na verdade não esquentava a temperatura e nem causava mal-estar, e lembrou nosso ancestral Tupi, que guerreava para se comer e se fortalecer. O banquete do Bispo Sardinha, passado no papo pelos Caetés, deu vazão a que Oswald aprimorasse a insurreição degustativa, comendo gente sem compromisso com o Brasil e burilando seu Manifesto Antropofágico, que deu sustentação teórica a esse berimbelo de escrever e retratar o país pela voz do seu povo.

Ô, Seo Ibirá Xchucri, a mode que o poeta come gente?, ouviu-se do ermo, na voz do querer e do saber.

É mode isso aqui assim ficá mió, apois, respondeu o poeta, enquanto deglutia uma digníssima que já nessa hora virava um relicário:

Farinha de Suruí

Pinga de Parati

Fumo de Baependi

É comê bebê pitá e caí.

Tarsila do Amaral, pintora, e Oswald de Andrade, escritor, na varanda da Fazenda Santa Tereza do Alto, em 1927 | Foto: Reprodução

Quando passou a comer homem, surgiram peças de teatro e livros de prosa. Era fácil ser amigo de Oswald de Andrade, difícil era continuar vivo depois. Quem sabia, vivia se desviando para não virar petisco. Seus amigos perderam a conta de quanta gente ele traçou. Era um tal de sumir gente e surgir poema, conto, romance, peça, sumirem as gentes e virarem, poemas, contos, romances, peças. Foi essa comilança que levou Mário de Andrade a romper relações. Oswald sofreu muito com isso, deu indigestão, parou de comer gente e quis porque quis refazer a amizade, mas Mário foi irredutível.

A amizade entre os dois degringolou, a ponto de Oswald ameaçar parar de virar Ibirá Xchucri, comedor de gente, e mandou recados, tentou contatos, escreveu cartas, bilhetes e foi diretamente conversar com Mário, fez carinho, foi satírico como lhe apetecia, irônico  a não perder de vista e também usou nessa empreitada os préstimos de Tarsila, Pagu, Menotti Del Picchia, Heitor Villa-Lobos, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Guilherme de Almeida e outros nomes da turma idealizadora e realizadora da Semana de Arte Moderna de 1922.

Mário fincou pé, ficou irredutível e mandou desaforos cheios de calundus, condenando essa mania de Oswald de continuar comendo gente na produção de seus escritos. Alguns diziam que, no fundo, Mário tinha medo que Oswald fosse pego no flagra e colocasse a perder todo o movimento, com intervenção policial, processos e o raio que partisse a Semana e seus ideais. Na verdade, não era motivo pra briga, mas vá dizer isso a intelectuais, ainda mais iguais a Mário, sisudos. No entanto, ninguém, em sã consciência esperaria uma atitude dessa de um cara que criou Macunaíma, um herói dos mais esculhambados. Era nisso que se apegava Oswald, tendo elogiado, incensado e se quedado a Macunaíma, querendo ele ter comido alguém e que desse nessa obra. “Era brincadeirinha, viu Mário?”, Oswald reparou depois, mas de nada adiantou, mesmo ele perdendo-se em elogios à obra do herói de Mário e do Brasil.

Mário de Andrade e Oswald de Andrade, escritores: o papa e o cardeal da Semana de Arte Moderna de 1922 | Ilustrações: Lasar Segall (Mário) e Tarsila do Amaral (Oswald)

Oswald esmerou-se ainda construindo o Manifesto da Poesia Pau Brasil, que era uma forma menos refratária de comer gente e fazer o que demandava ser a verdadeira poesia brasileira, com a estética de um país devotado aos seus, pelos seus e esbagaçando as influências dos de fora. Fez-se uma fogueira de pau Brasil para saber que nossa batata estava assando e a poesia não se desmilinguia.

Por isso mesmo disse que aprendeu com seu filho de dez anos:

“Que a poesia é a descoberta

Das coisas que eu nunca vi”.

É a poesia, então, um dogma, que para acreditar nele precisamos comer gente?, chegaram a atacar. Não apenas porque muita gente estava sendo comida, o que não faltou foi manifesto contra e a favor, mas muito maiores foram os manifestos inconcebidos de tanta gente que precisava ser comida e não foi. “Seriam melhores poesias do que gente”, Oswald pensava.

A lei e a cadeia não amedrontavam Oswald no seu propósito, mas ele por decisão própria resolveu parar de comer gente, também por exigência dos delegados que ficaram em seu encalço. Para acalmar Mário e a justiça, ele passou a só comer gente na imaginação ficcional. Virou um Ibirá Xchucri virtual.

Apois, com isso, muita gente foi comida e nem soube.

2 respostas para “Semana de Arte Moderno (19): Essa vontade que dá de comer gente, de Hélverton Baiano”

  1. Genial, Baiano!
    O verbo mulherengar chegou em ótimo momento, posto que ainda vivo e, sendo vivente, hei de escrevê-lo nalgum rabisco de conto ou poesia. Ou crônica, sei-lá!

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