Semana de Arte Moderna: Trilhas. Travessias. Chegadas, de Lêda Selma

“Não me apego a tendências. Sou livre. Minha arte é livre. Gosto do novo. De experimentos”

O Jornal Opção vai publicar, com a curadoria do presidente da UBE-Goias, Ademir Luiz, 22 contos de 22 autores evocando de diferentes formas a Semana de Arte Moderna de 1922 — que completa 100 anos em fevereiro, ou seja, nunca acabou — como inspiração. As mais diferentes possibilidades estilísticas foram exploradas. Contos modernos, contos tradicionais, contos pós-modernos. De homenagens assumidas a severas reflexões críticas; narrativas evocativas, narrativas memorialísticas, narrativas ensaísticas, narrativas desconstrutivas. Algumas com humor, outras com amor, mas também com vaias, aplausos e mesmo com o som do coaxar de sapos antropófagos.

Trilhas. Travessias. Chegadas

Lêda Selma

Anita Malfatti

Um fio de manhã embaçada entrou no quarto de Anita Catarina, ao colear por uma frincha da janela. A jovem olhou a vidraça suada de garoa, sentiu cheiro de sol maldormido e espreguiçou. Bocejou os restos da noite, alongou-se, calçou o tênis All Star branco, presente de um amigo americano, e pés, pra que te quero?! Bateu a porta e saiu para a caminhada. Momentos de contemplação. De esmiuçar lembranças. De desalojar saudades. Com o pensamento, Anita Catarina monologa com entusiasmo e privacidade. E diz em tom jocoso: Eu comigo, que solidão saudável e prazerosa! Perder-me no passado, incita-me a digressões bizarras ou intrigantes. E o melhor, sem testemunhas. Eu comigo, boa parceria!

O sol, mesmo esbatido, marca território. Anita Catarina encolhe a distância, enquanto pontilha o tempo, deixado para trás e, como se caçoasse de si e dele, traz à tona questões inúteis. Não gosto desta dupla que me nomeia. Dois nomes bonitos, que não se harmonizam, não se acasalam, não têm liga nem sonoridade. Anita… Minha mãe teria se inspirado na heroína Garibaldi? E a inspiração para Catarina? Que não seja a Grande, Catarina II, Imperatriz déspota da Rússia, colecionadora de amantes! Catarina de Alexandria, mártir cristã santificada, admirável intelectual e mestra das artes, sim.

Findo o passeio, chega à casa, entra na banheira e entrega o corpo e a imaginação ao deleite de um espumante banho. Ora cantarola, ora ri um riso inteiro, sem quê nem para quê. Está feliz, como se os humores do dia expelissem cores, sabores, ardores. Imagina o espetáculo sonoro e malabarista dos pássaros, em cópulas exóticas e estridentes, e bendiz o valor da liberdade em sua forma mais genuína. Vê-se beija-flor. E se as estrelas também copulassem? Ah! tilintariam de gozo! Deseja ser estrela.

Paulistana, bem-nascida, cabelos curtos, corte bob, o charme da época. Destra de nascença, todavia, por imposição de uma atrofia congênita irreversível, no braço direito, tornou-se canhota. Os pais até levaram-na a Lucca, Itália, com apenas 3 anos, para tentar um procedimento cirúrgico que prometia curá-la. Voltaram decepcionados. Uma governanta inglesa ensinou a menina a usar a mão esquerda e também cuidou do seu aprendizado na escrita e na arte. Minha mão esquerda é ágil e habilidosa, dizia sempre, como se pretendesse aliviar a frustração dos pais.

Anita Malfatti e sua pintura | Foto: Reprodução

Adolescência atribulada. Perda do pai, dificuldades financeiras. Como dói, saber que meu pai não abrirá mais a janela do meu quarto para a manhã espichar-se na cama, ao meu lado! Aos 13 anos, ímpeto suicida, só ensaiado, que resultou em inspiração para o rumo que daria ao seu futuro. Em vez de atirar-me nos trilhos do trem, por que não buscar as trilhas da vida?

A mãe, pintora. Amava vê-la pintar e sentir os odores de sua roupa colorida de tintas! Guiada por essa influência, aprendeu técnicas, com a mãe, e treinou os primeiros toques com os pincéis. Ficaram íntimos, inseparáveis. Nos estudos, ia bem. Formou-se professora, aos 19 anos. Admirava a profissão. É o exercício que leva à magia do conhecimento e da criação, dizia orgulhosa.

O sino de bronze da porta principal da casa é ouvido. Cedo demais para visita, resmunga Anita Catarina. Seu tio entra e saúda-a.

— Trago-lhe um presente: passagem para a Alemanha. Já está com 21 anos, então, estudará arte em Berlim.

Anita Malfatti, Mário de Andrade, Menotti de Pichia, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral: estrelas do Modernismo brasileiro | Fotos: Reproduções

Ela abre farto sorriso, olha para o tio e abraça-o com efusiva gratidão. Falseia pose solene e imposta a voz: Tio, apresento-lhe Anita Malfatti.

Depois, cochicha para si mesma: Catarina ficará nos bastidores, sempre vigilante, que não sou boba de abandonar a santa minha xará. A partir de agora, Padroeira de Anita Malfatti.

Em Berlim, estuda do Museu Real de Artes Plásticas, onde o expressionismo grassa vigoroso. Muitos experimentos, técnicas novas e contatos importantes, inclusive, com grupos de vanguarda. Quatro anos enriquecedores.

Volta a São Paulo, quase de passagem, com ideias novas e entusiasmo. Compartilha-os com os colegas e amigos, na improvisada “Exposição de Estudos de Pintura Anita Malfatti”, individual realizada no centro da capital, com 33 obras: gravuras, pinturas a óleo, desenhos e aquarelas. Baixa repercussão e algumas críticas. Anita dá de ombros. Bye, bye! A terra do Tio Sam espera-me.

Anita Malfatti: uma grande pintora | Fotos: Reprodução

Irresistível o impulso de ver, de perto, a liberdade da expressão artística nova-iorquina. Mais uma vez, patrocinada pelo tio, viaja. Matricula-se na Art Students League, entidade desligada dos moldes acadêmicos. Sente-se confortável. Liberdade, que sensação transcendente. Poderei pintar o que quiser e como quiser. Rodopiando, feito bailarina de caixinha de música, vangloria-se: juntei a tentação com a vontade de ousar e propus-me outras decolagens para transpor os limites da percepção estética e impulsionar meu apetite criativo.

Caminhar pelo jardim, aspirar um pouco de flores e de sol, um hábito que lhe traz lembranças de São Paulo. Nesses momentos, a saudade, sem lhe pedir licença, umedece seu rosto. Dois anos passados, o regresso a Sampa. Delineia encontros com seus amigos escritores e colegas pintores. Quantas novidades para apresentar-lhes. Em Nova York, notáveis mestres, artistas e o público interpretaram positiva e elogiosamente minhas obras. E em São Paulo, como será? O provincianismo é parte de suas entranhas, e o conservadorismo, um atraso, desabafa.

Encontra 1917 apático e no mesmo ritmo de seus antecessores. Ao contrário, está confiante, madura e desejosa de contribuir com a vanguarda modernista que parece encruada. Quer mostrar sua evolução, as nuanças de seu trabalho, as possibilidades de uma criação própria, com tons expressivos, fortes, concepções audaciosas apartadas das formas convencionais e obsoletas vigentes. Isso despertará nas pessoas visão mais aberta e dilatada. O lugar-comum e a estagnação tornaram-se sufocantes. Democratizar e libertar a arte é o caminho, frisa.

Anita Malfatti e Monteiro Lobato: a incompreensão do segundo acabou por, direta ou indiretamente, fortalecer o modernismo no Brasil| Fotos: Reprodução

Anita Malfatti recebe alguns familiares para uma visita ao seu ateliê. Quer exibir suas telas, criações inovadoras já consagradas em Nova York. Porém, um clima de estranhamento, de reprovação paira no ambiente. Nada entenderam. Esperavam telas de santos, cores leves, traços clássicos. Pior, a indignação de seu tio. Estupefato, não se contém: “Isso não são pinturas, são coisas dantescas!”. Embora decepcionada, decide apresentar as 53 telas a amigos, colegas e amantes das artes, dias depois. O olhar e a palavra são de vocês, desafia-os.

Alguns olhares arregalam-se. Outros contemplam, interessados ou aturdidos, impactados ou admirados, cada obra. O crítico Nestor Rangel Pestana e o artista Di Cavalcanti adiantam-se em tecer comentários consistentes e entusiastas sobre as telas. Estou salva! E até provocaram Anita, para fazer uma exposição individual.

— O momento é oportuno para expor seus arrojados trabalhos. Artistas e críticos americanos endossaram sua libertação estética, alguns, aqui, já a apreciaram. O novo está injetado no conceito do seu fazer artístico. Os que amam e os que praticam arte saberão interpretar essa ruptura com o tradicional. A princípio, é possível que até cause certo espanto aos mais ligados às tradições. E daí?! Os reflexos dessa mostra se disseminarão, qual rastilho de pólvora, não só em São Paulo, Brasil afora. As palavras de Di Cavalcanti, respaldadas por Pestana, animaram-na tanto que ela concorda. E prepararam a exposição.

Retrato de Fernanda de Castro, por Anita Malfatti | Foto: Reprodução

Ansiedade, expectativa e insônia antecedem o evento. Inquieta, Anita, da janela do quarto, espia a noite, carrancuda e impassível. E, enquanto espera a chegada do sono, divaga… O destino da escuridão é ser solitária e assombrosa! Parece que Érebo e Nix a espionam. Fita as alturas negras da amplidão suspensa, encantada com seus olhos de prata. Senhor, por que permite ao céu engolir estrelas?! Ele fica tão triste e vazio! Outra coisa: acho que Vossa Santidade faz da lua lanterna para vigiar os anjos anarquistas que tentam fugir da pasmaceira do Paraíso. Imagina-se um anjo anarquista.

Já na cama, pergunta-se: o que acharão do Homem amarelo? E da mulher de cabelos verdes? A Boba impactará alguém? Espero que a burguesia paulista abandone o ar pernóstico, os intelectuais desarmem seus preconceitos e todos se voltem para a emoção que cada obra carrega. Que aceitem a arte concebida pelo pincel e pela paleta da transgressão, da rebeldia, no pleno exercício da liberdade. Espreme os olhos. E acolhe Hypnos que a abençoa com o sono. Evoca a aparição de seu filho, Morfeu, para povoar-lhe, de sonhos, a mente.

A estudante, de Anita Malfatti | Foto: Reprodução

Grande cartaz na fronte do Mappin Stores, na Líbero Badaró, em São Paulo: “Exposição de Pintura Moderna Anita Malfatti”. A curiosidade agita a sociedade e os artistas. Abertura da mostra, singela. E lá, as 53 telas com pinceladas e traços do arrojo e ousadia de Anita Malfatti. Algumas obras de pintores americanos, convidados propositalmente, destacam-se ao lado das suas. A sensação de que há desconforto no ar é real. Poucos elogios, muxoxos, risinhos, cabeças desentendidas balançando, opiniões conflitantes. O provincianismo da elite paulista está em choque, deduz Anita. Mesmo assim, oito telas vendidas.

A manhã, com jeito de aziaga, assanha artistas, intelectuais e a sociedade. Motivo? A crítica ríspida e violenta do editor e escritor Monteiro Lobato, estampada no jornal “O Estado de S. Paulo”. Enxurrada de agressões à arte e à artista Anita Malfatti. Daí, para uma barafunda, basta um piscanejar de cílios. De repente, devolução de telas, com exigência de ressarcimentos. Bilhetes desrespeitosos. Ofensas. A loucura está solta. O desvario aniquila a razão e envergonha a arte.

Anita, devastada, pensa em abandonar seu ofício. Com muita raiva, caricatura Monteiro Lobato com rabo, chifres e tridente, em desenhos a lápis. Não desperdiçaria suas tintas caras com o detrator. Nem isso consegue aplacar sua revolta.

A Boba, de Anita Malfatti

Talvez, um diário. Abre seu desengonçado caderno ainda com algumas folhas e crava sua ira em cada palavra. Quem esse maldito pensa que é?! E quem ele pensa que sou?! Que homem rude! Mete-se a crítico, mostra-se renovador, pré-modernista, desvinculado dos padrões engessados da literatura, no entanto, vive às turras com os vanguardistas e não consegue entender que a arte é livre. E ainda compara minhas pinturas “aos desenhos dos internos do manicômio”! Desequilibrado!

Monteiro Lobato também recebe duras críticas. O tempo mostrará que seu artigo foi um tiro que saiu pela culatra, o estopim que irromperá o movimento modernista. Jovens poetas protestam em defesa da ofendida. Jovens artistas visitam as obras de Anita, várias vezes. Os dois Andrades e Di Cavalcanti dão apoio irrestrito à amiga, isolada, desde o lamentável acontecimento.

Acredite, dileto diário: fui o bode expiatório daquele infeliz e dissimulado. Ele está em pé de guerra com os modernistas, embora sua editora tenha publicado livro de um deles, meu amigo Oswald de Andrade. E quem fez a capa? Eu! Oportunista de uma figa, o sujeito! Talvez, entenda mais de petróleo!

O tempo passa, mas não, o desencanto de Anita Malfatti. Tempo demais de isolamento. De abandono dos pincéis. Mas nada que uma viagem a Paris, para espairecer e buscar outros desafios, não resolva. Nessa viagem, conhece a pintora Tarsila do Amaral. Amigas para sempre.

Anita volta. Irreverente. Dona do seu nariz. Do seu pincel. Da sua paleta. Com novas concepções. E a palavra afiada. Não me apego a tendências. Sou livre. Minha arte é livre. Gosto do novo. De experimentos.

Sente que o triste episódio, na exposição de 1917, provocou os literatos e artistas, incitando-os a buscar caminhos para um tempo novo na arte do Brasil. Anita inspira a criação do Grupo dos Cinco (Anita, Tarsila, Mário, Oswald e Menotti), base do movimento modernista. Espera lavar a alma.

Vem aí, 1922. E fevereiro, além do carnaval e do samba, terá a Semana da Arte Moderna. Juntas, a literatura, as artes plásticas, em todas as suas vertentes, e a música, alardeia Anita.

Esperavam mais da emblemática Semana de 22 que, iniciada em 13 de fevereiro, foi reduzida a três dias.

Pois é, caro diário, o Modernismo aterrissou na Pauliceia desvairada e instalou a Semana da Arte Moderna de 22, no Theatro Municipal, aplaudido e vaiado. Manuel Bandeira, tísico, não pôde participar presencialmente. Para representá-lo, chegou, orgulhoso, seu colega Ronald de Carvalho, com Os sapos do poeta. Alguns não os engoliram, muitos torceram o nariz. Outros aplaudiram a recitação calorosa do poema! Tarsila não conseguiu deixar Paris. Em carta lhe contarei as minúcias dos três dias agitados e polêmicos que marcaram a história cultural brasileira. Renomadas figuras iluminaram o evento, com poemas, pinturas, músicas, opiniões, debates, manifestos. Mário foi enfático em suas ideias de brasilidade. Oswald brilhou. Ah! não me tome por cabotina, diário: fui a protagonista do evento, chamada de a “Precursora do Modernismo no Brasil”.

Leo Lince: poeta | Foto: Reprodução

Anita ganha notoriedade merecida. Volta a Paris, onde residiu durante cinco anos. Mas antes, ainda em São Paulo, escreve nos últimos espaços do seu caderno desengonçado: dia 17 de fevereiro, após findadas as atividades culturais da famosa Semana, dileto diário, procurou-me um rapaz bem-apessoado, porte elegante, 35 anos. Óculos redondos, pequenos, lentes escuras, voz compassada, grave. Entusiasta do modernismo. Poeta, ainda sem livro publicado, embora já com o título escolhido. Mostrou-me uns poemas interessantes, alguns com ranços simbolistas, parnasianos, outros com traços modernistas, poemas bons, de quem é mesmo poeta. Nasceu em Pouso Alto, uma cidadezinha do interior goiano, lá no Centro-Oeste. Acredito no seu potencial e futuro promissor. Combinamos novo encontro quando eu voltar de Paris. Diz minha intuição que ele introduzirá o Modernismo em Goiás. Ah! o título do livro que virá à luz? “Ontem”. E o nome do poeta? Leo Lynce.

3 respostas para “Semana de Arte Moderna: Trilhas. Travessias. Chegadas, de Lêda Selma”

  1. Avatar Enio Magalhaes Freire disse:

    Para mim, foi muito agradável ler este vosso grandioso conto, Leda Selma!

  2. Avatar Talissa disse:

    É sempre um prazer ler seus contos….

  3. Avatar HELENA M B P VASCONC disse:

    Maravilia Leda Selma. Agradável. Gostei.

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