Semana de Arte Moderna (18): Sinais do modernismo em Goiás

Afonso Félix de Sousa, Maria Lúcia Félix de Sousa, José Godoy Garcia: poetas que ecoam e modernizam o modernismo de 1922

O Jornal Opção vai publicar, com a curadoria do presidente da UBE-Goiás, Ademir Luiz, 22 contos de 22 autores evocando de diferentes formas a Semana de Arte Moderna de 1922 — que completa 100 anos em fevereiro, ou seja, nunca acabou — como inspiração. As mais diferentes possibilidades estilísticas foram exploradas. Contos modernos, contos tradicionais, contos pós-modernos. De homenagens assumidas a severas reflexões críticas; narrativas evocativas, narrativas memorialísticas, narrativas ensaísticas, narrativas desconstrutivas. Algumas com humor, outras com amor, mas também com vaias, aplausos e mesmo com o som do coaxar de sapos antropófagos.

Semana de Arte Moderna, Influência de Drummond e sinais do modernismo em Goiás

Enio Magalhães Freire

Convidei minhas amigas, as três irmãs Ada, historiadora, Esther, arquiteta  e Rebeca, biomédica, para me ajudarem a entender um pouco mais sobre a  Semana de Arte Moderna, o surgimento do modernismo no Brasil e sinais do modernismo em Goiás.  Elas se dispuseram a ajudar-me.

Ada diz que a Semana de Arte Moderna, ocorreu de 13 a 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, no centenário da Independência do Brasil. Que foi organizada por intelectuais e artistas que buscavam o rompimento com o tradicionalismo literário e artístico do país. Que questionavam uma oligarquia paulista e o revezamento do poder Café com Leite. Revezava-se o comando do país entre Minas Gerais e São Paulo. Que o Brasil teve identidade forte sob D. Pedro II, mas, em 1889 foi deposto pelo Marechal Deodoro da Fonseca, gerando um vácuo cultural no país.

José Godoy Garcia: poeta | Foto: Reprodução

Continuando, Ada diz que os participantes foram Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral (não participou diretamente) na pintura. Victor Brecheret na escultura.  Na literatura Graça Aranha, Guilherme de Almeida, Mário de Andrade, Plínio Salgado, Menotti Del Picchia e Oswald de Andrade e na música Heitor Villa-Lobos.

Rebeca pergunta: o que esses intelectuais queriam?

Ada responde que queriam renovar o ambiente da arte  e cultura de São Paulo, questionando a  literatura, artes plásticas e visuais,  música e arte indígena. Que exerciam a experimentação, liberdade criadora e ruptura com o passado. Que aquela semana influenciou o modernismo no Brasil  e se tornou  referência cultural do século 20. Avaliando as coincidências, Ada explicou que no início do Século 20,  aconteceram movimentos artísticos modificadores na Europa, exemplo  o Cubismo, Surrealismo e Modernismo, influenciando novos movimentos pelo mundo.

Rebeca: E como surgiu o modernismo no Brasil? Ada diz que o modernismo redescobriu uma identidade cultural do país.   Ada aprendeu que ao final da década de 1920  o Brasil era parnasiano, atado à cultura europeia, e culturas que vieram a compor a nossa identidade. Apesar da Semana de Arte Moderna de 1922.

Esther  complementa que Gonçalves Dias, em 1843, escreveu a belíssima poesia-símbolo do parnasianismo, ainda muito recitada na década de 1920. Que, exilado em Coimbra o poeta sentia e cantava saudades da terra natal. Lembrou duas estrofes da poesia símbolo do parnasianismo:

“Canção do Exílio”

Minha terra tem palmeiras / Onde canta o Sabiá, /As aves, que aqui gorjeiam, / Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas, / Nossas várzeas têm mais flores, / Nossos bosques têm mais vida, / Nossa vida mais amores.

…..  …..  …..

Aí descobrimos que em 1928, ressurge o modernista Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), revitalizando a Revista de Antropofagia, com este icônico poema:

“No Meio do Caminho”

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.

 

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.

Afonso Félix de Sousa: poeta | Foto: Reprodução

Para as irmãs, o poema levou o povo a pensar mais, manifestar uma nova identidade, reconquistando respeito no mundo, desde D. Pedro II,  enfim se tornar moderno. Elas pensam que o Modernismo no Brasil começou com este poema de Drummond, e eu concordo.

Para elas, as pedras no caminho são as dificuldades na vida; dificuldades que Drummond poderia ter associado à perda de um filho e infortúnios menores. Que somos forjados a seguir em frente, apesar das dificuldades, ou pedras no caminho.

Esther pontua que Guimarães Rosa (1908-1967), chamava  escrita pedregosa ao escrever com mais consoantes e menos vogais. Só um detalhe.

Agora Ada, Esther e Rebeca nos ensinam sobre o que consideram sinais modernistas em Goiás, desde “No Meio do Caminho” até os dias de hoje.

Ada diz que Tarsila, após Abaporu (1928), pintou “Operários” (1933), com 51 rostos que identificam os habitantes do Brasil, principalmente os  que ajudaram a industrializar São Paulo. Que Goiânia foi fundada (1933), sob os ares e influências do  modernismo, de “Abaporu”, de “Operários” e do Poema de Drummond.     Esther acrescenta que os arquitetos de Goiânia (1933), liderados por Attilio Corrêa Lima,  se inspiraram no modernismo da França, arquitetura Art Dèco (1910-1930), e no modernismo surgindo no Brasil (1928). Segundo ela, alguns projetos modernistas iniciais foram descaracterizados ao longo do tempo. Disse ainda que leu do  antropólogo franco-belga Claude Lévi-Strauss, ao visitar Goiânia, que a cidade poderia ser mais humana, mais fiel à sua própria natureza.

Esther pontua ainda como modernistas o edifício-sede da Assembleia Legislativa de Goiás (1960),  pelos arquitetos Eurico Godoi e Elder Rocha Lima; o Cine Teatro Goiânia, estilo Art Dèco (1942), por Jorge Félix e Neddermeyer; as construções Art Dèco da Praça Cívica (1933) incluindo o Palácio das Esmeraldas; o monumento às Três Raças (1968), de Neusa Morais, sobre as etnias branca, negra e indígena que compuseram a base deste povo goiano.  Mas Esther pergunta: onde estão, hoje, os índios?  Não sabemos responder.

Ada explica que desde Tiradentes (1746-1792), e José Bonifácio (1763-1838),  já se pensava transferir a capital do Brasil, para o interior. E que, em campanha, Juscelino Kubitschek encontrou em Jataí (1955), o cidadão Antônio Soares Neto. Toniquinho cobrou de JK o cumprimento da constituição. Esther reforça que o encontro resultou em  Brasília (1960), um símbolo modernista da integração do país.  Ela destaca  a Catedral de Brasília e o Memorial JK como símbolos do modernismo

Maria Lúcia Félix de Sousa: poeta | Foto: Reprodução

Brasiliense.

As irmãs mencionam Siron Franco (1947-), artista universal, sempre em Goiás. E nós sempre visitamos, num trevo de Goianápolis,  o moderno monumento ao Leandro (2006). Espessa chapa de metal sobre base, corte vazado com a silhueta do cantor, chapéu e guitarra.  Para nós, a ausência do metal na chapa  simboliza a comoção pela ausência de Leandro e ausências pessoais de quem observa. Quando nuvens e galhos se movimentam atrás da silhueta, Leandro se movimenta, revive. Os irmãos cantores criaram canções modernistas, falando da paz e do amor.

Esther considera o modernismo do clube Jaó, Arq. S. Bernardes (1962); o clube CEL da OAB (2003) e as novas instalações  industriais do Arroz Cristal , Arq. Walter Garcia e Athos Rios (2000) – evolução na arquitetura do  processamento industrial de alimentos; o ecológico Setor Jaó , implantado (1938)  sob gestão do Eng. Tristão Fonseca e Magalhães Pinto, por prisioneiros de guerra alemães da Inglaterra; O Centro de Convenções de Goiânia, enxaimel, erigido para apagar no inconsciente do povo o acidente do Césio137; as pioneiras Usinas de Jaó e Rochedo; a BR-153; a integração aos Sistemas Elétrico Nacional e Nacional de Telecomunicações; o Projeto Macambira-Anicuns, preservando rio-mãe, afluentes e ciliares .

Ada ainda destaca o modernismo planejado do governo Mauro Borges;  as marchas para o Oeste de JK e Geisel; as tentativas de demarcações de terras indígenas; a UFG, ETFG e a PUC-GO; o Teatro Escola Basileu França e o Centro Cultural Oscar Niemeyer; o escultor Veiga Vale, os artistas Gustav Ritter e Frei Nazareno Confaloni; a produção agropecuária e a Base Aérea de Anápolis.

Rebeca salienta o modernismo no saneamento básico, na indústria farmacêutica, os hospitais públicos e hospitais privados que se atualizam, bem como os bosques de Goiânia, gerando  convivência e pertencimento comunitário, como nos ensina o israelense Bialik (1875-1943) na poesia “O Ninho”.

As irmãs destacam o poeta José Godoy Garcia se identificando com Drummond, Bandeira e Mário de Andrade; Maria Paula de Godoy, Rosarita Fleury, Nelly Alves Almeida, Cora Coralina, José Décio Filho, Afonso, Domingos e Maria Lúcia Félix de Souza;  Marieta Telles Machado e um rol de talentos e ações modernistas, merecedores de nossa reverência.

Salve centenário da Semana de Arte Moderna, salve  Carlos Drummond, salve povo do Brasil e de Goiás em particular, participes ou não de ações modernistas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.