Semana de Arte Moderna (9): À sombra de Lima Barreto, de Itaney Campos

Confira a micro história do escritor que a Semana de Arte Moderna “cancelou”. Dele “só restaram” dois versos. Lima Barreto era um de seus críticos

O Jornal Opção vai publicar, com a curadoria do presidente da UBE-Goiás, Ademir Luiz, 22 contos de 22 autores evocando de diferentes formas a Semana de Arte Moderna de 1922 — que completa 100 anos em fevereiro, ou seja, nunca acabou — como inspiração. As mais diferentes possibilidades estilísticas foram exploradas. Contos modernos, contos tradicionais, contos pós-modernos. De homenagens assumidas a severas reflexões críticas; narrativas evocativas, narrativas memorialísticas, narrativas ensaísticas, narrativas desconstrutivas. Algumas com humor, outras com amor, mas também com vaias, aplausos e mesmo com o som do coaxar de sapos antropófagos.

À sombra de Lima Barreto

Itaney Campos

À mesa do jantar, em sua espaçosa casa, no tranquilo bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, no começo do século XX, cercado por sua numerosa família, o velho e consagrado escritor, que acabara de dar a público o seu vigésimo romance, esbravejava:

“Era só o que me faltava! Esse pernóstico Lima Barreto me elegeu para Cristo! Como se não lhe bastasse escorraçar o meu estilo, tem que apedrejar-me, pintar-me como escritor das elites; não se satisfaz em demolir a obra, tem de demonizar o autor. Um invejoso, e sem razão para tanto! Seus romances repercutiram muito bem na imprensa carioca. E também junto aos escritores mais respeitáveis. Veja-se o que dele comentou o Machado, o Lúcio e o Graça.  E isso apesar de notar-se em seus contos um certo desapreço ao vernáculo! Sua única atenuante, se as há, é que parece não bater muito bem da cachola. O seu ‘Diário do Hospício’ já indica, pelo título, a neurastenia que o ameaça. A bem da verdade, um alienado, que não cultua a língua mater!”

Coelho Neto e Lima Barreto: adversários literários | Fotos: Reproduções

Nesse ponto, foi interrompido pela esposa, preocupada com a exaltação do marido:

“Acalma-te, Henrique, pelo amor de Deus! Vais ter um ataque apoplético! E poupe as crianças, que nada compreendem dessas desavenças literárias. Escritores parecem ter caprichos de crianças. Por coisas insignificantes entram em mal querenças! Uma vírgula, uma nota, uma palavra pode desencadear um incêndio! Sossega, meu esposo, as críticas desse mulato sem eira nem beira passarão como passam as chuvas de verão…”.

O velho escritor, no entanto, parecendo ignorar as ponderações da mulher, mantinha o cenho franzido, denotando preocupação, e retomava suas lamúrias, acrescentando em tom exaltado:

“As coisas não são tão simples assim. No Brasil, destroem-se em algumas horas reputações construídas ao longo de décadas. Basta ver o que andam fazendo com o velho Alencar. Mal se foi desta para melhor, começou a malhação. Não bastasse o menosprezo ao romancista, deram de desbancar o renhido político, tachando-o de conservador e irascível. O político era um monarquista? Era, mas e daí? Ora, diabos, o imperador já deu às de vila de Diogo, está no ostracismo, e instaurou-se a República. Respeitemos a memória dos mortos, e a pena criativa do autor de ‘Iracema’. Quanto a mim, já estou pondo as barbas, ou melhor, os bigodes, de molho, Maria! Notícias nada alvissareiras emanam das terras dos bandeirantes. Um grupo de iconoclasta vem preconizando o abandono das tradições camonianas e dos bons hábitos cristãos. E a finesse que nos ensinaram os franceses… Infelizmente! … Que tempos! Vá se entender a alma humana!”

A esposa retrucou:

“Mas, homem, não eras tu que te dizias abolicionista e republicano? Por que te lamentas agora, a criticar as mudanças, a renovação dos costumes?”

Confrontado com a sua aparente incoerência, o romancista, em tom irado, cortou bruscamente a mulher: “Não, senhora, não confundas as coisas! Renovação não significa anarquia. E nem se pode dizer que essa balbúrdia que se instalou seja a República que sonhávamos. Como disse Machado, a sereníssima república tornou-se um valhacouto de leis encomendadas, as quais, belas na teoria, revelam-se podres na prática…”.

Coelho Neto: um dos escritores mais prolíficos do Brasil | Foto: Reprodução

A tranquila Maria Gabriela entendeu que objetar ao marido ou chamá-lo à reflexão era torná-lo mais irascível. Resolveu retomar a conversa prosaica, mais saudável, nas circunstâncias.

“Tens razão, meu esposo, são tempos turbulentos, mas voltemos ao jantar, Henrique Coelho, o teu prato esfria! E está soberbo esse surubim ao molho de hortelã preparado pela Cândida, essa cozinheira foi um verdadeiro presente dos deuses. E quem te indicou foi o Bilac, lembras?”

A mulher mudava novamente de assunto, buscando desanuviar o clima.

Nesse mesmo instante, ou poucos momentos depois, a 430 quilômetros dali, no Bar Rutli, ponto de encontro de intelectuais paulistas, na rua Barão de Itapetininga, na cidade de São Paulo, o nome do escritor Henrique Coelho Neto era um dos mais citados, na espalhafatosa roda de conversas, animada por várias doses de absinto, um coquetel com mais de 80% de teor alcoólico. Em duas mesas, próximas uma da outra, afogavam-se em bebidas e opiniões, os poetas Oswald e Mário de Andrade, a pintora Anita Malfati, o jornalista Menotti del Picchia, também poeta, o pintor comunista Di Cavalcanti, o diplomata Graça Aranha e o contista e romancista Lima Barreto. Este último, sob a láurea dos elogios pelo lançamento do último livro, “Histórias e Sonhos”, e o estímulo das várias doses de conhaque, bradava: “A literatura brasileira está enredada em teias de aranha! Urge que a renovemos, liberando-a do formalismo parnasiano! Basta de rococós! Esse incensado Coelho Neto, tido como nosso maior escritor, é um contemplativo, magnetizado pelo Flaubert de ‘Madame Bovary’. É a figura mais nefasta que tem aparecido no nosso meio intelectual. Só se preocupa com o estilo, com o vocabulário, ignorando as questões sociais, políticas e morais que permeiam nosso tempo. Um anacrônico, eis a verdade, meus amigos!”

A contundente crítica de Lima Barreto à obra literária de Coelho Neto chamou a atenção de todos os seus companheiros de mesa. Afinal, tratava-se o veterano escritor de um dos integrantes do grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, fora próximo de Machado de Assis, Lúcio Mendonça e Joaquim Nabuco, elite da intelectualidade carioca. Mas a voz do absinto e do conhaque estimulava o grupo, se é que precisavam eles de estímulo externo. Oswald de Andrade, observando a indignação de Barreto, pensava: Fora ele menos furioso e mais irônico, seria digno da minha maior admiração. O polímata Mário de Andrade, por sua vez, concluía, com seus botões, fora o Lima Barreto menos político, realçaria o seu perfil intelectual. Sua origem humilde é um galardão. Uma figura de efetivo extrato popular. Anita teve vontade de convidar o mulato carioca para posar para um retrato a óleo. Di Cavalcanti, pintor de mulatas, olhava admirado para Barreto e pensava: para um descendente de escravo, ele é bem audacioso. Tarsila ouvia com atenção, mas preocupou-se com o olhar injetado do interlocutor. Um sujeito de alta tensão, concluía. Nesse passo, Oswald atalhou a fala de Lima Barreto, tomando a palavra:

“Precisamos sim, caro Lima Barreto, romper com essa velharia, essas formas fixas, essa prosa insípida e formal. Cumpre-nos fazer a crítica dos valores da burguesia nacional e divulgar as aspirações da massa trabalhadora. Sugiro que se elabore um manifesto, proclamando nosso vínculo com os ideais das camadas populares, com a linguagem do povo e a liberdade de criação, em todas os setores de arte. Vou escrever um manifesto e publicar no ‘Diário Popular’. O ideal é fundarmos uma revista literária e política, para propagarmos as novas ideias e conceitos de estética moderna. A mudança social pode ter início pelas artes. Proponho a realização de uma exposição de arte moderna. Tenho amigos influentes, e a nossa mostra poderá ter lugar no Theatro Municipal de São Paulo. Vamos valorizar as tradições nacionais, o socialismo, a classe trabalhadora, o português falado no Brasil!”

Mário de Andrade aplaudiu com entusiasmo e secundou Oswald, no mesmo tom. Di Cavalcanti pediu um viva ao Partido Comunista do Brasil! Sessenta dias depois realizou-se o evento lítero-artístico no glamouroso Theatro da capital paulista. A cidade se transformava, então, no início do século, em um importante centro industrial e financeiro. No dia seguinte à Mostra e no curso da semana, a imprensa paulista festejou e incentivou o movimento, mas atribuiu à burguesia paulista a iniciativa de renovação dos métodos e estilos nas artes, com fartos elogios à elite intelectual e à aristocracia cafeeira, grande incentivadora da liderança paulista nas artes. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, vítima de pertinaz neurastenia, Lima Barreto agonizava, esquecido, em uma clínica para alienados. Coelho Neto, titular da Cadeira n. 2 da Academia Brasileira de Letras, foi, nada obstante, proscrito da literatura nacional. De sua monumental obra, composta de mais de uma centena de romances, restaram apenas, na memória popular, dois versos: “Ser mãe é desdobrar fibra por fibra, o coração…Ser mãe é andar chorando num sorriso/ ser mãe é padecer no paraíso.”

4 respostas para “Semana de Arte Moderna (9): À sombra de Lima Barreto, de Itaney Campos”

  1. Belo conto, confrade Itaney Campos! Na ficção, a realidade do esquecimento (hoje, dirão cancelamento) do autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma. As restrições denunciadas (a Alencar e a Coelho Neto) atravessam as décadas que se fecham em século, e de Coelho Neto (fomos colegas no Colégio Pedro II, com oitenta anos de intervalo). Consta ser dele o epíteto Cidade Maravilhosa, como afetuoso adorno à bela Capital do Brasil em sua época.
    O escritor mais lido do Brasil – dos anos finais do Século XIX às primeiras décadas da série 1900 – é “arquivado” pelo modernismo e, hoje, conhecem -no apenas os críticos e os caçadores de relíquias literárias.
    Excelente conto, amigo!

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